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Entrevista

Cervejas contaminadas: "lição é estar sempre preparado para melhorar a produção", diz presidente da Abracerva

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Por Pedro Machado
16/01/2020 - 16h40
Carlo Lapolli
Carlo Lapolli: caso da Backer serve para empresas buscaram cada vez mais melhorar processos (Foto: Lucas Correia, BD)

O mercado cervejeiro nacional está no centro de um furacão que sacudiu produtores e consumidores nos últimos dias. Até o início da tarde desta quinta-feira (16) já haviam sido confirmadas as mortes de três pessoas que beberam a cerveja Belorizontina, fabricada pela Backer, de Minas Gerais. Elas foram intoxicadas por dietilenoglicol, substância usada principalmente na indústria química como anticongelante.

Investigação do Ministério da Agricultura apurou que o dietilenoglicol foi encontrado na água usada no processo de produção. A pasta determinou o recolhimento de todos os produtos da Backer fabricados de outubro do ano passado até o início desta semana. Ainda não se sabe como a contaminação ocorreu. As vítimas que acabaram ingerindo a substância apresentaram problemas neurológicos e insuficiência renal.

Até agora o tamanho do prejuízo, seja humano ou financeiro, é imensurável. Para as artesanais, que têm travado duras batalhas para crescer em um mercado dominado por grandes cervejarias, o baque ainda é maior. Não há dúvidas de que essa é a maior crise já enfrentada pelo segmento. Como presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o empresário blumenauense Carlo Lapolli tem acompanhado de perto toda essa turbulência. Ele concedeu entrevista ao blog nesta quarta-feira (15).

Já é possível estimar quanto esse escândalo da Backer impacta na imagem do setor cervejeiro?

Ainda é prematuro esse levantamento, e talvez seja um pouco de chutômetro. Lógico que a imagem da cerveja artesanal sofre com essa questão e com a mídia negativa, mas estamos acompanhando. O consumidor da cerveja artesanal é primeiro um fã, então a gente sente muito pela perda dessas vidas e pelas contaminações. Mas essa é uma questão temporária. Logo a cerveja volta a ter confiança plena dos consumidores. Temos cervejas premiadas e o nosso padrão de produção é de nível mundial. Até o Ministério da Agricultura falou hoje (quarta-feira), em entrevista coletiva, que isso é um fato inédito no mundo e muito isolado. Até por isso causou todo esse impacto, a exposição na mídia por causa desse ineditismo. Tem muitas pessoas se deixando levar por fake news, tem rolado alguma coisa nesse sentido com o intuito de criar pânico. Então é importante as pessoas buscaram informação nos órgãos corretos. Neste caso as autoridades agiram de imediato, o próprio Ministério da Agricultura determinou a intervenção da fábrica e o recall de todos os lotes.

O que a Abracerva está fazendo para administrar a crise?

O nosso papel é informativo, tanto para fora, para o mercado e os consumidores, quanto para dentro, para as cervejarias, de buscar uma qualificação melhor, melhoria nos processos. O ministério já está avaliando, a nosso pedido, a suspensão cautelar do uso de qualquer forma do etilenoglicol no processo produtivo. Nosso papel é acompanhar e entender o que aconteceu para evitar de qualquer forma a repetição dessa tragédia.

Você comentou de fake news. Isso tem sido um problema grande neste caso especificamente?

Tem acontecido. Circulam áudios na internet, coisa até antiga que acabou voltando, dizendo que cerveja com conservante dá câncer, por exemplo. Tem muita desinformação circulando, e isso é ruim porque tem como único objetivo causar confusão e pânico na cabeça do consumidor. Infelizmente é natural que isso aconteça na época que a gente vive hoje. Mas na mesma hora já vem um desmentido. Hoje a informação sobre produção de cerveja está muito mais disponível, tem muita gente que faz cerveja em casa e entende o processo. Isso ajuda na recuperação da imagem da cerveja artesanal e para a gente superar esse episódio de uma forma mais rápida.

Qual é o sentimento dos cervejeiros artesanais com a situação?

Cada notícia que a gente tem é um processo de descoberta da extensão do dano. Ainda devem aparecer mais vítimas. A gente sofre junto, há uma comoção muito grande da comunidade cervejeira, de sommeliers, de consumidores e produtores. É um assunto recorrente, acho que é monotemático nos grupos de Whatsapp. Isso tem sido muito debatido, as hipóteses, mas tudo com muita responsabilidade. Estamos tentando realmente levar para o consumidor uma informação de maior validade.

Vocês temem algum tipo de boicote ou que esse caso prejudique todo o trabalho que o setor tem feito?

A gente não teme. Já tivemos crises semelhantes na indústria de alimentos e os produtos acabaram se recuperando no mercado. O caso da Parmalat, que é icônico, de adulteração de leite, por exemplo. As pessoas não deixaram de tomar leite. A cerveja tem mais de 5 mil anos de história na humanidade. As pessoas não vão deixar de tomar. Elas têm que ter a tranquilidade de entender o processo. As cervejarias sempre foram muito abertas, as instalações sempre estiveram abertas para receber o consumidor. Para nós é um orgulho mostrar o trabalho dos cervejeiros e o processo de produção e fazer as pessoas entendê-los.

Você tem informações se havia a Belorizontina em pontos de venda aqui da região?

Não tenho. Acho que eventualmente tem a Backer em redes de supermercados. Existem requisitos legais para abrir uma cervejaria, como a rastreabilidade e os números dos lotes. Tudo isso é muito controlado, justamente para o caso de haver qualquer tipo de contaminação a gente poder fazer o recall. Facilmente o fabricante consegue localizar. As próprias pessoas estão muito bem informadas e já tiraram de circulação.

Que lições é possível tirar desse episódio?

A maior lição é estar sempre preparado para melhorar o nosso processo produtivo. A cerveja é um alimento. Temos uma grande responsabilidade de fazer um produto de excelência e garantir ao consumidor uma segurança alimentar muito forte. As cervejarias têm uma oportunidade de aprendizado de melhoria contínua. Fizemos uma pesquisa no ano passado que mostrou que o cervejeiro é muito bem preparado, tem nível de escolaridade muito alto e aprende muito fácil. Ele pode não saber tudo, mas está interessado em saber e melhorar. Ele tem um carinho muito grande pelo produto que faz e pelo consumidor que atende. Então a gente supera. A própria Backer eu imagino que tem um corpo técnico muito qualificado. É um incidente lamentável e inesperado. A Backer tem condições plenas de dar a volta por cima e recuperar a imagem e o respeito que ela sempre teve no meio cervejeiro. Ela sempre participou do festival aqui em Blumenau, sempre participou do concurso e foi muito premiada e admirada pelo mercado. Vai dar a volta por cima porque tem colaborado e mostrado transparência nesse caso.

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Um olhar especializado na economia e nos negócios dos setores pulsantes de Blumenau e região.

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