Ao entregar o cargo de vice para o Novo dentro do projeto de reeleição, Jorginho Mello (PL) redesenhou o tabuleiro eleitoral de Santa Catarina, com reflexos que não se resumirão apenas ao pleito deste ano em nível estadual. Em Blumenau, caso o governador consiga renovar o mandato, o acordo tende a produzir efeitos que alteram a dinâmica das forças políticas locais.

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Nas últimas duas eleições municipais, o Novo consolidou-se como a principal ameaça ao grupo político que hoje orbita ao redor de Jorginho. Em 2020, Odair Tramontin por pouco não surpreendeu e tirou a vaga no segundo turno que foi de João Paulo Kleinübing (então no DEM), mais tarde derrotado por Mário Hildebrandt (à época no Podemos).

Quatro anos mais tarde, o ex-promotor de Justiça mais do que dobraria os votos, alcançando 30% da preferência do eleitorado blumenauense. Apesar do crescimento em relação a 2020, o resultado não foi suficiente para impedir a vitória de Egidio Ferrari (PL), bancado por Jorginho, em primeiro turno. Por outro lado, demonstrou a ascensão da legenda.

O movimento do governador, agora, em tese freia essa escalada. Com Kleinübing, Hildebrandt e Tramontin supostamente no mesmo barco, não há, no momento, uma liderança local na direita com peso suficiente para bater de frente com Ferrari nas próximas eleições. Sem Maria Regina Soar (Republicanos) na chapa em 2028, o posto de vice está vago e o próprio Novo poderia compor a dobradinha com o atual prefeito.

Até lá, claro, muita coisa pode e deve mudar – a política catarinense ensinou mais uma vez que a parceria de hoje não é garantia de sociedade futura, que o diga o MDB. Com tantos caciques, a aliança PL-Novo pode não se sustentar e partidos mais estruturados que flertam com esse mesmo espectro político, como PSD, PP e União, podem ganhar espaço a partir de dissidentes do grupo ou do próprio desempenho no pleito deste ano.

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Por ora, o movimento de Jorginho amarra a direita blumenauense no mesmo poste. No meio do jogo do poder, resta saber até quando esse nó se sustentará.

Impacto na Câmara

No curto prazo, a maior interrogação fica por conta da atuação do Novo na Câmara de Vereadores de Blumenau. Não raro, os dois nomes do partido (Diego Nasato e Bruno Win) sobem o tom contra a gestão Ferrari e de seus antecessores, firmando um discurso com ares de oposição.

A CPI do Esgoto, presidida por Nasato, é o maior exemplo disso. Ainda em 2025, o parlamentar chegou a ventilar a possibilidade de convocar o atual prefeito para depor. Esse tipo de sabatina teria potencial para criar feridas.

O relatório final da comissão deve ser apresentado nos próximos dias, com o fim do recesso legislativo. O teor e a repercussão política do documento darão o tom de como deve ficar essa relação.

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Timing

Ainda no fim de 2022, o ex-promotor Odair Tramontin (Novo) rejeitou um convite do então governador eleito, Jorginho Mello (PL), para ser secretário de Estado de Segurança Pública. No bolo das especulações, há quem diga que, se tivesse dito sim, Tramontin possivelmente seria o candidato do PL à prefeitura em 2024, em vaga que acabou ficando com Egidio Ferrari.

A negativa do ex-promotor de Justiça foi movida por questões pessoais, mas mais tarde revelaria que também foi motivada pelo comprometimento com o projeto do Novo. O partido, que nasceu criticando as alianças partidárias, agora se rendeu a elas e Tramontin acabou sendo “punido” pelo timing.