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    Coronavírus em SC: crise expõe ruídos de comunicação entre Estado e prefeituras

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    Pedro
    Por Pedro Machado
    30/03/2020 - 16h17 - Atualizada em: 30/03/2020 - 17h36
    Carlos Moisés
    Governador Carlos Moisés (Foto: Tiago Ghizoni, BD)

    A crise na saúde provocada pelo novo coronavírus voltou a expor as dificuldades que vários municípios têm de manter um canal de comunicação com o governo de Santa Catarina — uma queixa recorrente ao longo de todo o primeiro ano da nova gestão. Uma videoconferência na última sexta-feira (27), que reuniu prefeitos das 15 maiores cidades catarinenses, representou, para muitos deles, o primeiro contato direto com o governador Carlos Moisés desde que ações mais enérgicas e restritivas foram colocadas em prática para tentar evitar o avanço da pandemia no Estado. Para a maioria já havia passado da hora: fazia dez dias que Moisés baixara um decreto determinando medidas drásticas de isolamento social.

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    Essa lista de prefeitos muitas vezes alheios às decisões tomadas na Capital inclui o de Blumenau. Desde o início da crise, Mario Hildebrandt tem adotado uma postura legalista no enfrentamento da pandemia. Vem reforçando repetidamente que segue a recomendação do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para que as prefeituras cumpram os decretos emitidos pelo governo catarinense e, na mesma lógica, refutou a possibilidade de colocar barreiras impedindo o acesso de veículos à cidade, medida considerada ilegal pelo órgão.

    O prefeito tem se esquivado da polarização política que contaminou parte do debate e evita o enfrentamento direto com outras autoridades, em especial aquelas de hierarquia superior. Mas já sinalizou em mais de uma oportunidade o incômodo com decisões tomadas de maneira unilateral, sem consulta prévia aos municípios — desconforto que encontra eco em vários de seus pares. Na noite de domingo, durante transmissão ao vivo pelas redes sociais, Hildebrandt alegou que o Estado “não pode chegar atropelando Blumenau”.

    A frase é forte, mas precisa ser interpretada dentro do contexto. Hildebrandt deixou claro que não se trata de deixar de acatar as determinações do governo, mas de participar da elaboração delas. Ainda há, afinal, uma série de dúvidas sobre o socorro que virá para os municípios. As prefeituras precisam de dinheiro para comprar itens de proteção individual, como máscaras e luvas, e equipamentos para montar leitos para o tratamento dos doentes. No domingo, Hildebrandt disse que repasses de convênios firmados pelo Estado com os hospitais Santo Antônio, Santa Isabel e Misericórdia, na Vila Itoupava, estão atrasados desde janeiro.

    Há, em Blumenau, uma preocupação extra: por ser polo regional, a rede de saúde local inevitavelmente receberá pacientes de cidades vizinhas menores, que não dispõem da mesma estrutura. Para fazer frente a esse cenário, a prefeitura já anunciou que vai usar 42 leitos do Hospital Misericórdia para abrigar pessoas que precisarem se recuperar da doença sem a necessidade de UTI. O hospital universitário da Furb, na Fortaleza Alta, também será ativado se for preciso. Para um cenário ainda pior, já há projeto em elaboração para a montagem de um hospital de campanha na Vila Germânica.

    Se as projeções de especialistas e autoridades de saúde se confirmarem, o pico de contaminações do Covid-19 será alcançado nas próximas semanas. Até lá, não é apenas o bem-vindo e coerente discurso pró-isolamento que deve estar alinhado. Estado e prefeituras precisarão estar na mesma página no planejamento de ações de combate à pandemia. A boa notícia é que o próprio governador reiterou, em vídeo distribuído no domingo (29) aos veículos de imprensa, a implantação de um canal direto de interlocução com municípios. Desencontro de informações, afinal, podem prejudicar todos os esforços tanto quanto a falta delas.

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