A eleição para presidente em outubro não vai definir apenas o que será do Brasil nos próximos quatro anos, mas começará a traçar o cenário político do país para a nova década que se avizinha. Há muito em jogo tanto para o lulopetismo quanto para o bolsonarismo, as forças políticas que protagonizam o tabuleiro eleitoral e que, por ora, esmagam qualquer viabilidade de uma terceira via furar a polarização.

Continua depois da publicidade

Com 80 anos – fará 81 em outubro –, esta provavelmente será a última dança de Lula, pelo menos na linha de frente. Caso seja reeleito, ele completaria o quarto mandato com 85. Se as regras do jogo não mudarem no meio do caminho, poderia voltar a disputar somente em 2034, beirando os 90. O presidente faz questão de demonstrar disposição e vigor físico. Mas o tempo é implacável e seu avanço inevitável, o que torna essa alternativa pouco provável.

A esquerda, por ora, deposita todas as fichas no histórico líder sindical em uma aposta de curto prazo. Para o futuro, ainda não há nome consolidado e com densidade política para sucedê-lo – seja com ele vencendo ou perdendo em 2026. A própria capacidade de transferência de votos seria colocada à prova depois que o petista sair de cena. No auge da popularidade, Lula fabricou uma sucessora em Dilma Rousseff nos pleitos de 2010 e 2014, mas não teve o mesmo sucesso quando o seu candidato foi Fernando Haddad, em 2018, vencido pela onda bolsonarista.

Continua depois da publicidade

Enquanto os progressistas estão fechados com Lula, a direita bate cabeça. Sobram potenciais nomes neste espectro político, mas falta unidade. Inelegível, preso em regime domiciliar e com a saúde frágil, Jair Bolsonaro parece cada vez mais ser carta fora do baralho – ou da urna. Mas tem um espólio político valioso, disputado dentro de casa – o filho Flávio e a esposa Michelle lavam a roupa suja em público – e do quintal para fora por outros aliados.

Se Flávio, o candidato mais bem posicionado à direita, vencer a eleição, sai grande: terá derrotado o mais influente político brasileiro pelo menos desde a redemocratização. No fim do ano passado, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), quando ainda se assanhava para uma pré-candidatura, resumiu bem o peso da figura: o Brasil não conhece eleição sem Lula. Exceção feita a 2018, quando estava preso, e 2010 e 2014, quando a candidata foi Dilma – sob sua bênção –, o metalúrgico participou de todos os pleitos desde 1989. São quase 40 anos batendo ponto ou com influência direta nas urnas.

Continua depois da publicidade

Com Lula se sobressaindo, o jogo político tende a zerar a partir de 2030 sem ele em campo, abrindo espaço para surgimento de novos nomes – à esquerda, para sua sucessão, e à direita, diante da necessidade de uma nova alternativa ao bolsonarismo, que sairá enfraquecido caso perca. Se der Flávio, o filho 01 não apenas praticamente sela a aposentadoria do petista, mas também retoma o projeto do clã familiar, minando o avanço de outras lideranças.

Ponto em comum

Na economia, há pelo menos algo em comum entre Lula e Flávio Bolsonaro: em questão de infraestrutura, o governo federal deve manter a política agressiva de concessões de estradas, portos e aeroportos, independentemente de quem vencer.

Continua depois da publicidade