Escolha de quem terá prioridade em UTI é uma das faces mais dramáticas da Covid-19

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Hospitais de Blumenau já anunciaram que vão adotar protocolos de triagem para internação em UTIs (Foto: Patrick Rodrigues, BD)

Um dos piores pesadelos de quem é médico nesta pandemia está se tornando realidade. Com a saúde à beira do colapso, hospitais vão passar a selecionar quais pacientes graves de Covid-19 terão prioridade na ocupação de leitos de UTI – como já anunciado em Blumenau. Os protocolos de triagem para os acometidos pelo novo coronavírus revelam uma das faces mais dramáticas e cruéis da crise sanitária: apontar quem tem direito a um tratamento mais adequado na luta contra a doença.

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A escolha já é pesada e difícil de digerir até mesmo para profissionais de saúde, que convivem com a morte de perto – embora a proximidade não a faça doer menos. Agora tente explicar qualquer tipo de critério, por mais sentido técnico que ele faça, a familiares de um doente que no fim das contas pode ser preterido por outro. Para esses não existe lógica compreensível em meio ao desespero.

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Esta espécie de guia da salvação do maior número possível de vidas acaba empurrando os enfermos para uma disputa desigual. Jovens e pessoas sem comorbidades graves, em tese com mais capacidade de reagir melhor ao vírus – e que já estão chegando em maior número aos hospitais –, terão preferência na ocupação de um leito de UTI em relação a idosos e portadores de doenças que encurtam a expectativa de vida. Justamente os mais vulneráveis e mais propensos a terem o quadro de Covid-19 agravado.

A realidade poderia não ser tão crítica se a liderança nacional da gestão da pandemia, agora a cargo do quarto ministro da Saúde em um ano, não estivesse uma bagunça. Ou se o presidente Jair Bolsonaro colaborasse com as orientações de infectologistas e incentivasse o uso de máscara e o distanciamento social. Ou se informações falsas sobre a Covid-19 e tratamentos sem eficácia cientificamente comprovada, que confundem uma população apavorada, não fossem disseminadas inclusive por órgãos de governo. Ou se poderes Executivo e Judiciário não digladiassem sobre lockdown, a única medida possível no momento para frear o contágio e desafogar o sistema de saúde enquanto a vacina não está disponível para a maioria. Ou se estados e prefeitos convergissem na implantação de restrições. Ou se simplesmente houvesse mais compreensão da sociedade em geral sobre a gravidade da situação.

Tantos “se” já deveriam estar para trás após um ano de pandemia, mas é justamente essa série de condicionantes que contribuíram para a piora da situação. Na busca pela racionalidade da alocação de recursos clínicos e humanos cada vez mais escassos, a triagem de pacientes acaba aplicando um carimbo com prazo de validade nos mais frágeis a Covid-19, os mais interessados na própria saúde. 

Pessoas que se cuidaram a maior parte do tempo e refutaram aglomerações agora correm o risco de não ter o devido tratamento em caso de infecção – o vírus e suas cepas cada vez mais contagiosas não perdoam o menor dos deslizes. Poderão ser condenadas à morte pela falta de leitos que serão prioritariamente ocupados por pacientes “mais saudáveis”. Gente que, muitas vezes ignorando os protocolos mais básicos, ajudou a espalhar a contaminação.

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