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Opinião

Escolha de quem terá prioridade em UTI é uma das faces mais dramáticas da Covid-19

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Por Pedro Machado
17/03/2021 - 09h40 - Atualizada em: 17/03/2021 - 09h51
Hospital Santo Antônio
Hospitais de Blumenau já anunciaram que vão adotar protocolos de triagem para internação em UTIs (Foto: Patrick Rodrigues, BD)

Um dos piores pesadelos de quem é médico nesta pandemia está se tornando realidade. Com a saúde à beira do colapso, hospitais vão passar a selecionar quais pacientes graves de Covid-19 terão prioridade na ocupação de leitos de UTI – como já anunciado em Blumenau. Os protocolos de triagem para os acometidos pelo novo coronavírus revelam uma das faces mais dramáticas e cruéis da crise sanitária: apontar quem tem direito a um tratamento mais adequado na luta contra a doença.

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A escolha já é pesada e difícil de digerir até mesmo para profissionais de saúde, que convivem com a morte de perto – embora a proximidade não a faça doer menos. Agora tente explicar qualquer tipo de critério, por mais sentido técnico que ele faça, a familiares de um doente que no fim das contas pode ser preterido por outro. Para esses não existe lógica compreensível em meio ao desespero.

Esta espécie de guia da salvação do maior número possível de vidas acaba empurrando os enfermos para uma disputa desigual. Jovens e pessoas sem comorbidades graves, em tese com mais capacidade de reagir melhor ao vírus – e que já estão chegando em maior número aos hospitais –, terão preferência na ocupação de um leito de UTI em relação a idosos e portadores de doenças que encurtam a expectativa de vida. Justamente os mais vulneráveis e mais propensos a terem o quadro de Covid-19 agravado.

A realidade poderia não ser tão crítica se a liderança nacional da gestão da pandemia, agora a cargo do quarto ministro da Saúde em um ano, não estivesse uma bagunça. Ou se o presidente Jair Bolsonaro colaborasse com as orientações de infectologistas e incentivasse o uso de máscara e o distanciamento social. Ou se informações falsas sobre a Covid-19 e tratamentos sem eficácia cientificamente comprovada, que confundem uma população apavorada, não fossem disseminadas inclusive por órgãos de governo. Ou se poderes Executivo e Judiciário não digladiassem sobre lockdown, a única medida possível no momento para frear o contágio e desafogar o sistema de saúde enquanto a vacina não está disponível para a maioria. Ou se estados e prefeitos convergissem na implantação de restrições. Ou se simplesmente houvesse mais compreensão da sociedade em geral sobre a gravidade da situação.

Tantos “se” já deveriam estar para trás após um ano de pandemia, mas é justamente essa série de condicionantes que contribuíram para a piora da situação. Na busca pela racionalidade da alocação de recursos clínicos e humanos cada vez mais escassos, a triagem de pacientes acaba aplicando um carimbo com prazo de validade nos mais frágeis a Covid-19, os mais interessados na própria saúde. 

Pessoas que se cuidaram a maior parte do tempo e refutaram aglomerações agora correm o risco de não ter o devido tratamento em caso de infecção – o vírus e suas cepas cada vez mais contagiosas não perdoam o menor dos deslizes. Poderão ser condenadas à morte pela falta de leitos que serão prioritariamente ocupados por pacientes “mais saudáveis”. Gente que, muitas vezes ignorando os protocolos mais básicos, ajudou a espalhar a contaminação.

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