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Opinião

Programa de trainees para negros cumpre importante papel social que vai além da "lacração"

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Por Pedro Machado
23/09/2020 - 15h05 - Atualizada em: 23/09/2020 - 15h22
Luiza Trajano
Rede da empresária Luiza Trajano alega que iniciativa tem respaldo legal (Foto: Marco Favero, BD)

Entre aplausos e acusações de ilegalidade e racismo reverso, as reações afloradas ao anúncio de um programa de trainee do Magazine Luiza exclusivo para candidatos negros jogaram luz a uma distorção ainda predominante nas relações de trabalho no Brasil. Cercada de polêmica, a iniciativa – que, vale ressaltar, vem de uma empresa privada e não se constitui em política pública – cumpre um papel social importante ao proporcionar oportunidade de carreira executiva a uma parcela expressiva da população que não costuma se ver sentada na cadeira do chefe.

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Pretos ou pardos representam 55,8% da população brasileira, mas ocupam somente 29,9% dos cargos gerenciais. Eles têm rendimento médio mensal 73,8% inferior ao de brancos, ganham 45% menos mesmo com igual nível de instrução e são maioria entre os trabalhadores desocupados (64,2%). Todos esses dados são do IBGE, referentes a 2018. É improvável que esse cenário tenha mudado substancialmente de lá para cá. Se o objetivo com o programa era escancarar esse desequilíbrio social, ponto para a gigante varejista.

Estatísticas à parte, basta olhar ao redor para notar que a quantidade de pretos e pardos em cargos de chefia ou liderança, nas esferas pública e privada, é ínfima e desproporcional à sua representatividade populacional. É até compreensível, de certa maneira, a visão de quem acusa o programa de ser segregador. De fato, no mundo ideal, onde a cor de pele não fosse motivo de discriminação e todos, indistintamente, tivessem acesso às mesmas oportunidades de estudo e trabalho, isso não seria necessário. Mas esse mundo não existe. Quem sabe um dia?

Instituição de cotas ou ações voltadas a grupos historicamente recriminados são necessárias enquanto essa igualdade não se tornar realidade — e a própria Constituição, no artigo 170, estabelece que a redução das desigualdades sociais é um dos princípios que devem reger a atividade econômica. São medidas por ora paliativas, bem-vindas, mas que também não podem por si só sustentar políticas de inclusão. É preciso ir na raiz do problema.

Exemplos de pessoas de origem humilde que venceram na vida por esforço e mérito próprios, driblando a ausência do Estado e contrariando as probabilidades, são inspiradores e merecem ser compartilhados. Mas eles são exceção, não regra. "É só querer" é um argumento simplório e fácil de derrubar quando as condições impostas não jogam a favor.

Superar o racismo estrutural passa por medidas que podem levar anos para provocar resultados efetivos. As gerações do presente, no entanto, têm pressa e não podem ser vítimas do tempo. Dar a elas oportunidades como essas não é "lacrar", mas pagar pelo menos parte de uma dívida histórica.

Aliás

Em resposta ao deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ), que prometeu acionar o Ministério Público para que fosse apurado suposto crime de racismo por parte da rede, o Magazine Luiza disse, pelo Twitter, estar tranquilo quanto à legalidade do programa, acrescentando que ações afirmativas e de inclusão no mercado profissional fazem parte de uma nota técnica de 2018 do Ministério Público do Trabalho.

À Folha de São Paulo, a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, disse que já esperava pelas críticas, mas reafirmou que o programa tem respaldo legal e que a empresa não vai desistir.

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