Grande voz da indústria têxtil do Vale durante os 33 anos ininterruptos em que comandou o sindicato patronal local do segmento (Sintex), o empresário Ulrich Kuhn responde desde agosto pela vice-presidência para assuntos regionais da Fiesc no Vale do Itajaí. Ele abre uma série de entrevistas sobre os cenários econômico e político que o blog publica a partir deste sábado para marcar o lançamento do novo santa.com.br.
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Havia uma expectativa grande na largada de 2018 para um processo de retomada, mas a economia não está se recuperando no ritmo que se esperava. O que aconteceu?
A situação caminhava bem até a famosa noite da conversa do presidente (Michel) Temer com a JBS. Isso foi o Brasil antes e o Brasil depois. Dali para frente veio a crise na Turquia, a greve dos caminhoneiros e uma série de outros fatores internos e externos. Mas a grande página virada foi naquele momento. A partir dali, quando ficou claro que a reforma da Previdência não ia caminhar, o processo todo perdeu credibilidade. A capacidade de investimento foi para o espaço. Perdeu-se a sensação do crescimento do amanhã. E a coisa começou a andar para trás novamente.
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Fala-se muito que o mercado está esperando o resultado das eleições para clarear o cenário e então retomar investimentos. Como o senhor enxerga isso?
O atual governo, depois daquele processo e à medida que o tempo foi passando, parou, acabou. Entrou numa fase de administrar a agonia. O cidadão normal, e aí isso é reflexo da sensação econômica como um todo, das indústrias e meios financeiros, olha para o Brasil e se pergunta: e agora em janeiro, vai ser quem? Vamos ter alguém do passado ou do futuro? A partir do resultado das eleições, teremos um período logo em seguida que vai dar o rumo. E se for para recuperar a autoestima, a confiança do brasileiro e da sociedade, a coisa vai andar novamente. Agora, é um longo caminho. Não vai ter milagre de um momento para outro.
Vivemos uma eleição polarizada e de intolerância em vários espectros políticos. Isso pode ser um problema para a recuperação da economia?
Acho que essa intolerância, a nível política, é razoável. Não há nenhuma ofensa pessoal de alto nível. A coisa é discutida, mas acaba ficando, principalmente nos principais interlocutores, numa região razoavelmente civilizada, o que eu acho que é bom.
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Atentados à parte…
Tirando o atentado, que até hoje não está bem esclarecido. É melhor a gente pensar que foi um acidente pessoal do que alguma coisa mais séria. Mas essa sensação (de intolerância), eu não vejo ela tão complicada e tão difícil. Está no âmbito da discussão política. Um lado representa uma vertente e o outro lado representa uma outra história. E no embate político, no calor de discussão, às vezes sai uma palavra mais forte. Mas até considero, dentro desse contexto, civilizado por enquanto.
Qual deve ser a prioridade número um do próximo presidente?
É encaminhar a reforma da Previdência, que é o que vai dar a grande sinalização de que o Brasil vai entrar no rumo certo. Essa é a primeira. Mas há alguns embates pela frente. Tem a reforma política, que eu diria que é a segunda prioridade. Mas ela não mexe na economia como um tudo, ela tem que ficar em um segundo plano. Tem que começar pela reforma da Previdência, que é o que sinalizaria para a sociedade e para o mundo que o Brasil vai caminhar em alguma direção.
E com relação ao governo do Estado, qual o grande desafio?
Santa Catarina não é muito diferente de qualquer outro estado, mas tem mais condições. O próximo governador precisa ser um maestro e orquestrar a redução do tamanho do Estado, o enxugamento da estrutura, mexer no duodécimo, nos repasses obrigatórios. Eu não posso ficar levando para frente uma discussão eterna se a minha folha de pagamento está dentro do limite legal. Acho que a discussão já começa errada. Eu preciso fazer o meu custeio fixo até o ponto possível e imaginável de tocar o Estado. Todos os estados, e Santa Catarina não é diferente, carregam o ônus dos aposentados. Essa coisa do funcionalismo público é seríssima. A folha em Santa Catarina do aposentado é maior do que a folha da ativa. A curto prazo posso mudar isso? Não. Como posso mexer alguma coisa? É diminuir o meu tamanho fixo, fazer cortes em secretarias regionais, cargos, estruturas, penduricalhos, fechar coisas que o Estado tem que não precisaria ter.
O Vale tem reclamado muito da atuação do governo federal e estadual, alegando que não recebe devidamente o retorno daquilo que produz. Há representantes da região nas três principais candidaturas colocadas ao governo catarinense. Dá para esperar uma atenção maior no próximo mandato?
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O Vale, que representa mais de 30% da receita do Estado, recebe menos da metade em troca desse bolo que ele transfere. Esse cenário novo, em que temos um governador e dois vice-governadores (candidatos), evidentemente que cria uma expectativa muito grande. Especialmente pelas declarações dos candidatos que provavelmente irão para o segundo turno, pelo cenário, de que nós teremos governadores do Vale. Tanto o (Gelson) Merísio quanto o Mauro Mariani defendem essa teoria. Pela primeira vez talvez em muito tempo teremos um posicionamento mais forte. O Vale é um pouco do exemplo de Santa Catarina. Santa Catarina nunca conseguiu ter politicamente uma força real em relação ao Brasil e o Vale não conseguiu ter uma força em relação ao estado de Santa Catarina. É uma maldição que nós carregamos há muito tempo.
