A carta aberta à comunidade de Blumenau lida na manhã da última segunda-feira (8) pelo prefeito Egidio Ferrari (PL) oferece algumas leituras políticas. A primeira é evidente: há um esforço de Ferrari para se descolar dos escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público revelados pelo Gaeco na execução de obras e nos contratos da merenda e vigilância das escolas municipais. Uma fala do prefeito resumiu bem isso:

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— A culpa não é minha e nem da minha equipe.

Ferrari disse que repudia os “graves casos” escancarados pelo Ministério Público, que não tem compromisso com erros, irregularidades e com quem usa dinheiro público de forma indevida e que, antes de ser prefeito, como delegado de polícia, investigava crimes e combatia a corrupção. Não haveria, na lógica dele, por que ser diferente agora.

Em pelo menos duas ocasiões, o prefeito falou em problemas “da gestão passada”. Alegou que foi eleito “para tirar a prefeitura das páginas policiais”. E que tem “coragem para enfrentar problemas” que antes “eram ignorados ou tratados como normais”.

Mesmo sem citar nomes, a manifestação transfere nas entrelinhas responsabilidades para o antecessor. Mário Hildebrandt (PL) não é alvo das investigações, mas é sobre ele que recai o maior custo político das operações, que envolvem nomes próximos e influentes de sua gestão.

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Partiu do próprio prefeito a ideia de uma carta aberta. Ferrari já havia adotado esse mesmo tom em algumas entrevistas a veículos de imprensa e em publicações nas redes sociais. Mas agora, com carta aberta, coletiva de imprensa e evento oficial no salão nobre da prefeitura, dá ar formal ao posicionamento. É, de certa forma, uma institucionalização do discurso.

A segunda leitura possível soa praticamente como um rompimento definitivo com Hildebrandt. Os dois e seus grupos políticos nunca foram próximos, mas mantiveram um convívio protocolar por estarem abraçados ao projeto do governador Jorginho Mello (PL). O tsunami provocado pelas investigações muda esse cenário e oferece ainda mais motivos para o afastamento.

Nos bastidores da última campanha eleitoral, a ideia de ser um sucessor de Hildebrandt e de manter um governo de continuidade incomodava Ferrari. Quando o Gaeco entrou em campo, o agora prefeito viu uma conveniente oportunidade para tentar eliminar qualquer vínculo que eventualmente ainda restava.

Detalhe

A vice-prefeita de Blumenau, Maria Regina Soar (Republicanos), não compareceu ao evento de segunda. Ela é, hoje, o principal elo entre a atual e a antiga gestão, já que também foi vice de Hildebrandt.

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