Neste sábado (27), é o Dia Internacional de Memória do Holocausto. O antissemitismo está em marcha mais uma vez e nenhuma sociedade livre é construída sobre o ódio. Setenta e nove anos após o Holocausto, o antissemitismo está vivo e forte.

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A Associação Israelita Catarinense (AIC) encaminhou à coluna um texto baseado em artigo do Rabino Jonathan Sacks, publicado no jornal Daily Telegraph, em 27/01/2015:

Precisamos do Dia Memorial do Holocausto? Como judeus não precisávamos disso. Já temos Yom HaShoa, nosso próprio dia memorial, logo após Pêssach no calendário judaico. Todo judeu literalmente – ou figurativamente – perdeu a família no Holocausto. Para nós Yom HaShoa é um luto observado.

Mas sim, pois o Holocausto não foi um crime apenas contra judeus e outras vítimas – romenos, ciganos, homossexuais, deficientes e Testemunhas de Jeová entre elas. O Holocausto foi um ataque à humanidade. Primo Levi, quando escreveu sua memória sobre Auschwitz, não a chamou de Se Isto é um Judeu, ele a chamou Se Isto é um Homem.

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Os judeus eram odiados porque eram diferentes. A declaração clássica é a frase de Haman ao rei Achasueru no Livro de Esther, que há um povo espalhado entre as nações “que se mantém separado; seus costumes são diferentes daqueles de todos os outros povos” (Esther 3:8). O antissemitismo é o paradigma de não gostar do diferente. Durante mil anos os judeus foram o arquétipo Outro: não-cristãos na Europa cristã, não-muçulmanos no Oriente Médio muçulmano.

Mas somos todos diferentes, únicos. Isso é o que nos faz humanos. Uma sociedade que não tem espaço para diferenças não tem espaço para a humanidade. O ódio que começa com judeus jamais termina com judeus, onde quer que você encontre antissemitismo, ali também encontrará uma ameaça à liberdade. Nenhuma sociedade livre jamais foi construída sobre o ódio.

Hoje o antissemitismo está impregnado no mundo árabe e muçulmano. Os judeus estão sendo acusados de quase tudo: controlar a América, dominar a Europa, manipular a economia, controlar a mídia, perpetrar o Onze de setembro e todos os ataques terroristas subsequentes, criar a Aids, o Ebola, o tsunami em 2004, o aquecimento global, o Corona vírus, e sobretudo de genocídio ao exercer o legítimo direito de defesa frente aos atos bárbaros perpetrados pelo grupo terrorista Hamas em 7 de outubro último.

Quatro mitos diferentes foram criados sobre o Holocausto. A versão iraniana é que não aconteceu: foi inventado pelos judeus para ampliar as metas do Sionismo. Outro é que aconteceu pela metade, e foi uma pena que Hitler não tenha terminado o trabalho. O terceiro é que aconteceu e os judeus mereceram. O quarto é que aconteceu, mas agora os judeus são os novos nazistas e os palestinos são as novas vítimas.

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Isso é extremamente importante, porque o antissemitismo apenas incidentalmente é sobre os judeus. Trata-se fundamentalmente de um certo tipo de dissonância cognitiva dentro das culturas que o fizeram surgir. Acontece quando sua própria autoimagem é contradita pelo mundo exterior. A judeu fobia nasceu por volta do ano 95 quando o Gospel de John chamou os judeus de filhos do diabo. Não se tornou assassino durante mil anos, até 1096, quando os Cruzados a caminho de libertar a Terra Santa pararam para massacrar as comunidades judaicas de Worms, Mainz e Colônia, iniciando séculos de perseguição cristã aos judeus.

Foi quando os cristãos acordaram para o fato de que tinham sido dominados pelo Islã. Nazismo e antissemitismo começaram após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e os termos humilhantes do Tratado de Versalhes. O antissemitismo muçulmano – em oposição às declarações negativas sobre judeus no Corão e Hadith – começaram em 1924 quando o Império Otomano caiu. Quatro anos depois nasceram a Irmandade Muçulmana e o Islamismo fundamentalista.

O antissemitismo torna a dissonância cognitiva suportável ao transformar a pergunta “Por que isso aconteceu?” na pergunta “Quem fez isso a mim?” Se é erro de outra pessoa, não meu, posso preservar meu autorrespeito. Eu me torno a vítima, não o perpetrador. Crimes contra a humanidade então se tornam ações sagradas, feitas para vingar meu povo ou minha fé. É isso que transforma seres humanos comuns em cruzados numa época, nazistas em outra, e atacantes suicidas e terroristas numa terceira.

Enquanto os estudantes são ensinados nas madrassas que os judeus são o inimigo da humanidade, os extremistas irão condenar o Islã, uma nobre fé, a ferimentos auto-infligidos durante as próximas gerações. Para ser livre, você precisa se livrar do ódio. Não há outra maneira.

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