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Análise política

A revolução do Senado

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Por Upiara Boschi
04/02/2019 - 06h15

Alguns dias antes da eleição para a presidência do Senado, o catarinense Esperidião Amin (PP), já anunciado candidato, dizia que uma quinta vitória de Renan Calheiros (MDB-AL) na disputa faria da Casa uma Bastilha - a prisão medieval de Paris cuja tomada pela população foi um dos marcos da Revolução Francesa. Entre sexta-feira e sábado, na longa, conflituosa e até mesmo vexatória eleição que deu a vitória ao até então inexpressivo Davi Alcolumbre (DEM-AP), o Senado viveu uma espécie de revolução.

A essa altura o leitor já sabe que empoderado pelo ministro Onyx Lorenzoni (DEM-RS), da Casa Civil, Alcolumbre usou um lapso regimental para comandar as sessões preparatórias; que colocou em pauta e aprovou com 50 votos a disputa em voto aberto; que teve a pasta de trabalho roubada por Kátia Abreu (PDT-MT); que seguiu na cadeira de presidente abaixo de xingamentos e críticas do alagoano e seus aliados; que perdeu o posto na manhã seguinte por decisão do Dias Toffoli, do STF, também decretando o voto secreto; que as eleição foi realizada em modo semi-aberto, com cédulas apresentadas ou não pelos eleitores; que a apuração constatou um voto mais na urna e início de tentativa de fraude; que na segunda votação Renan desistiu da candidatura ao ver possíveis aliados apoiando Alcolumbre; que o ex-obscuro demista venceu por 42 votos contra 13 de Amin, segundo colocado entre os diversos candidatos.

Toda essa sequência preencheu a sexta e o sábado com um enredo que se tornava a cada momento mais absurdo. A derrota de Renan, impossível em outras épocas e considerada improvável semanas antes, não aconteceria sem muito barulho. Nas ruas e nas redes sociais, pela pressão popular, e no próprio Senado. Se não houvesse um grupo disposto a enfrentar Renan sem pudores regimentais, o emedebista teria saído vencedor novamente.

Há quatro anos, Renan já era alvo da opinião pública. Diante disso, o catarinense Luiz Henrique da Silveira (MDB) viabilizou-se candidato. Arregimentou parte da então oposição - PSDB, DEM, etc -, e acenou com independência à então presidente Dilma Rousseff (PT). Jogou o jogo pelas regras da Casa e pelas regras da Casa foi derrotado por 49 votos contra 31.

Amin fez o mesmo caminho nas eleições deste ano. Viu-se engolido pela polarização entre Renan e o anti-Renan, que acabou sendo Alcolumbre - vitiminado por Onyx. Quando o emedebista desistiu, o catarinense ainda tentou uma última cartada ao pedir que a eleição fosse reiniciada com o argumento de que Renan poderia ter recebido já alguns votos. Queria zerar o jogo, sua única chance. Fez, contudo, um papel digno - como fizera LHS quatro anos atrás.

Um registro positivo foram os votos de Jorginho Mello (PR) e Dário Berger (MDB), este em especial, no pepista. As rivalidades e divergências políticas são importantes - “ideias não são metais que se fundem”. Mas é preciso colocar os interesses do Estado acima das vaidades - e este foi um precioso indicativo de que os três senadores de Santa Catarina estão dispostos a isso.

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Faz a leitura e a análise do contexto do cenário político de Santa Catarina, com informações de bastidores. Explica motivações e consequências das principais decisões tomadas nos poderes do Estado.

upiara.boschi@somosnsc.com.br

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