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    Em janeiro não havia, mas agora há clima para impeachment em Santa Catarina

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    Upiara
    Por Upiara Boschi
    10/05/2020 - 10h51 - Atualizada em: 10/05/2020 - 10h52
    Foto: Cristiano Estrela, Secom/Divulgação
    Foto: Cristiano Estrela, Secom/Divulgação

    O governador Carlos Moisés (PSL) começou 2020 com um pedido de impeachment à sua porta. Uma equiparação salarial mal explicada entre os procuradores do Estado e dos da Assembleia Legislativa levou à apresentação da peça por um defensor público insatisfeito. Escrevi na época que não havia clima para impeachment em Santa Catarina. O mundo mudou muito nestes poucos meses, todos sabemos. Agora, em meio à pandemia e com o governo chamuscado por uma compra milionária e suspeita de respiradores, Moisés começa a viver aquilo que em política se chama de tempestade perfeita.

    Ninguém sofre impeachment porque cometeu um crime. Ou melhor, ninguém sofre impeachment apenas porque cometeu um crime. É preciso somar à receita a perda quase que completa de base parlamentar e ausência de respaldo popular. Em janeiro tínhamos uma denúncia complexa demais para ser traduzida, um governo com adesão de mais ou menos metade dos parlamentares e uma sociedade ainda dando crédito ao governo da chamada nova política.

    O cenário é completamente outro em maio de 2020. Já se passou uma semana que veio à tona a operação que fez Santa Catarina gastar R$ 33 milhões por 200 respiradores para leitos de UTI específicos para tratamento do covid-19 - dinheiro pago por aparelhos ainda não entregues para uma empresa que não apresenta nenhuma garantia de que terá condições de completar o negócio. Uma denúncia facilmente traduzível, que se soma a outras tentativas de compras nebulosas feitas durante a crise do coronavírus.

    Na sociedade, a imposição de medidas restritivas para conter o avanço da pandemia colocou Moisés em contraponto ao fã-clube do presidente Jair Bolsonaro - o que garante um claque estridente fazendo oposição 24 horas por dia. Além deles, entidades do setor produtivo e empresários se levantaram contra o que consideravam exagero nas medidas. Ao afrouxar as restrições, Moisés perdeu o apoio dos que defendiam o rigor, sem ganhar adeptos do outro lado. É um governo sem torcida.

    Na Assembleia, a base difusa montada no primeiro ano se esfacelou em poucas semanas. Em boa parte pela atuação do secretário da Casa Civil, Douglas Borba, após assumir acumuladamente a posição de secretário-geral do PSL. A formação do time pesselista para as eleições de 2020 causou fissuras nos aliados duramente conquistada, com críticas por aliciamento de lideranças nas bases dos apoiadores. Avolumaram-se, também, as críticas de que Moisés não atende, não recebe e sequer ouve os parlamentares. A crise do coronavírus terminou de dissolver a pretensa base parlamentar, com a bancada do MDB abandonando o barco.

    A tempestade perfeita de Moisés tem na Assembleia uma CPI com ampla maioria escancaradamente oposicionista para investigar a compra dos respiradores, uma comissão especial passando pente fino em todos as ações de combate à pandemia e um pedido de impeachment apresentado pelo ex-líder do governo Maurício Eskudlark (PL). Fora do parlamento, Ministério Público de Santa Catarina, Polícia Civil e Tribunal de Contas do Estado avançaram fortemente nas investigações com o Operação O2. Não é um cenário improvável que a vice Daniela Reinher (PSL) tenha que mudar de residência oficial.

    Artigo publicado nas edições das revistas DC, AN e Santa de 9 de maio de 2020.

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