Episódio que motivou seu segundo afastamento do cargo de governador para sofrer processo de impeachment, o caso dos respiradores fantasmas foi usado pelo ainda governador Carlos Moisés (PSL) como exemplo de porque o governo estadual não entrava diretamente na corrida pelas vacinas. Na entrevista que concedeu duas semanas atrás ao colega Raphael Faraco, na NSC TV, comparou o momento atual com aquele em que todos se lançaram atrás dos equipamentos, em 2020, e que aqui em Santa Catarina resultou na desastrada compra de 200 equipamentos por R$ 33 milhões que evaporaram sem que a entrega fosse feita.

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Falso representante tenta vender 30 milhões de doses da CoronaVac ao governo de SC

É a grande cicatriz do governo Moisés, causa de desgaste público, CPI na Alesc e do processo de impeachment que vai afastá-lo do cargo a partir de terça-feira. A comparação cabe. O desespero por produtos/equipamentos que o mundo inteiro quer e que são esperanças para mitigar os efeitos da pandemia do coronavírus junto às populações dos governantes pode levar a maus negócios e à ação de espertalhões – dentro e fora dos governos. Alguns dias depois daquela entrevista, ficou claro o quanto a analogia de Moisés era aplicável.

Upiara Boschi: Daniela ganha a segunda chance que Moisés desperdiçou

Produtor do Jornal do Almoço, o colega Dener Alano teve acesso a documentos de uma proposta feita ao Estado para venda direta de vacinas Coronavac. Alguém que se apresentava como representante da chinesa Sinovac, produtora do imunizante, teria 30 milhões de doses para venda – sem intermediação do Instituto Butantan – ao custo de 32 dólares cada. A proposta foi enviada por e-mail ao secretário de Saúde, André Motta Ribeiro, e estava em análise nos órgão de controle.

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Ação para punir compra de respiradores está pronta no Ministério Público

Dener Alano desconfiou daquele negócio da China e, junto com o repórter Júlio Ettore, apurou a história. Em contato com a Sinovac, ouviu da empresa chinesa que não existem intermediários no Brasil além do Butantan. Era o suficiente, jornalisticamente e até como trabalho auxiliar ao trabalho da Controladoria-Geral do Estado – criada no governo Moisés para impedir que o Estado se meta em roubadas como essa.

No entanto, a cereja do bolo foi a entrevista com o próprio suposto representante da Sinovac. Eram tantos os desencontros na fala do falso intermediário, além do próprio constrangimento de quem se vê apanhado, que a picaretagem ficou mais do que explícita. Valer ver a reportagem completa no Globoplay.

É possível que o governo chegasse à mesma conclusão por outras vias, pelo trabalho da CGE, da Secretaria de Integração e Governança, pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica e pela verdade universal de que cachorro picado por cobra tem medo de linguiça. Mas é importante ressaltar que o jornalismo profissional bem feito como o dos colegas Dener e Júlio também é um importante órgão de controle. 

Fiquemos atentos – e esse alerta vale agora para Daniela Reinehr e os nomes que escolher para o governo interino a partir de terça-feira: o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar, mas há muitos raios varando as madrugadas da pandemia.

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