“A gente nunca está sozinho”, diz autor do perfil Cartas da Pandemia, sucesso nas redes sociais

Jornalista usou as angústias do isolamento para transformar em palavras o sentimento de muitos enclausurados pela pandemia ao redor do mundo

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Felipe junto com a família de um colega da empresa, na Ilha do Mussulo, região de praias em Luanda, antes da pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Imagine-se em outro país, longe da família – separado pelo Oceano Atlântico – e em meio à uma pandemia. Sem condições de poder voltar ao Brasil. Imaginou esse cenário? Foi assim que o mês de março terminou para o jornalista Felipe Lenhart. O gaúcho nascido em Porto Alegre e que mudou-se ainda bebê para Florianópolis vive atualmente em Luanda, capital da Angola.

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Ele tranferiu-se para o continente africano há dois anos e meio, após receber uma proposta de emprego em uma empresa de tecnologia, que desenvolve softwares e sistemas. Com a chegada da pandemia do coronavírus e as restrições impostas pelo governo angolano, ele decidiu permanecer por lá. As angústias do isolamento extraíram dele a inspiração para transformar em palavras o sentimento de muitos enclausurados pela pandemia ao redor do mundo. A partir de um sonho, Felipe decidiu criar um projeto, chamado Cartas da Pandemia

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Fã de crônicas, ele passou a publicar anonimamente textos em que abordava os sentimentos, experiências e provações da vida em isolamento em um perfil no Instagram. O reconhecimento não demorou a surgir. Desde a primeira publicação, em 29 de março, até a última terça-feira, dia 6, data da entrevista, o projeto contava com 54 cartas, milhares de curtidas e comentários, recheados de identificação e engajamento dos apreciadores. 

– Eu me torneio amigo de muita gente, muita gente mesmo, que nem sabia meu nome. Isso é incrível – diz Lenhart. 

A identidade visual do perfil, com o formato de cartas e outros detalhes, foi desenvolvida pela designer catarinense Françoise Techio. Atualmente, o perfil do projeto conta com 39,1 mil seguidores e tem textos publicados aos domingos e quartas-ferias. Recentemente, quando completou seis meses, Felipe abriu mão do anonimato. 

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Saiba mais detalhes do projeto na entrevista a seguir:

Como você foi parar em Luanda, na Angola?

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Foi por uma oportunidade de emprego. Trabalhei na redação do DC digital até outubro de 2017. Aí, apareceu essa oportunidade de emprego pra cá. Fiquei alguns meses pensando e decidi: “Eu vou, não tenho nada a perder”. Resolvi apostar e deu muito certo. Uma mudança bem grande de vida.

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Angola é um país incrível, um povo incrível, adoro os angolanos. Eles nos recebem muito bem aqui, eles consideram brasileiro um povo irmão. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer oficialmente a independência de Angola (em 11 de novembro de 1975). Enfim, tem sido uma experiência bem boa.

Como surgiu a ideia do projeto “Cartas da pandemia”?

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Rapaz (risos). Foi muito ao acaso. O final do mês de março foi um trabalho insano na empresa, porque a gente tem muito expatriado (alguém que vive fora do país de origem), muito brasileiro, então a gente teve que organizar o home office, montar a infraestrutura pra todo mundo poder trabalhar de casa. E o pessoal que quisesse ir embora, fosse embora. As pessoas tinham que arrumar as malas… Foi um período frenético na empresa. Muita gente foi para o Brasil. Eu optei por ficar. Era uma sexta-feira, dia 20 de março, e aqui no dia 23, assim como em Florianópolis, é feriado. Então, a gente não trabalharia na segunda-feira e a partir da terça já era todo mundo em home office.

Então, comecei meu período de isolamento e quarentena preocupado, angustiado com o que podia acontecer, indeciso se eu tinha tomado a decisão certa em ficar, afinal de contas o espaço aéreo estava fechado e não teria mais como ir embora, enfim… E com todas as angústias de os meus pais serem idosos, estarem morando no Brasil, aí em Floripa. Preocupação com outras pessoas da família… Estava muito nervoso, muito angustiado. 

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E aí, logo na primeira semana, tive um sonho com uma ex-mulher e despertei de madrugada no meio do sonho. Isso me impactou muito. A minha reação foi puxar o computador e escrever uma carta. E essa carta acabou se tornando o primeiro texto do perfil. Na época, eu não sabia nem onde publicar. Mandei para um amigo meu, jornalista aí de Floripa também, e ele leu. Ele disse que eu tinha que publicar, porque estava muito bom. Isso foi numa terça ou quarta-feira. Fiquei com isso na cabeça. Chegou o fim de semana e vi algum amigo meu republicar no Instagram uma postagem de um perfil de textos, que tem muitos seguidores, e pensei: “Acho que também consigo fazer isso”. 

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Aí entrei num site de banco de imagens, baixei lá uma textura de papel de carta e fui criando o perfil numa tarde de domingo, tomando uma série de decisões editoriais, que a experiência de jornalista nos proporciona. Quando eu publiquei o texto, eu falei: “Bom, como eu não vou abrir a autoria do texto, não vou assinar o texto, preciso patrocinar esse negócio para ver se alcança leitores”. Então peguei um dinheiro que eu tinha guardado para as férias, que não iam rolar mesmo, e investi o dinheiro das férias nesse projeto (no impulsionamento da publicação). 

E aí, deu certo. Quando eu acordei no dia seguinte, tinham muitos comentários, muitos likes, senti um incentivo muito grande, mesmo sem saber quem era o autor. Aí escrevi a segunda carta, criei uma periodicidade de sempre publicar aos domingos e às quartas-feiras. E o resultado tem sido incrível.

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A primeira carta foi publicada em 29 de março, e na postagem você faz uma pergunta: “E você, já sonhou pela última vez com a pessoa que amou um dia?”. Nos comentários, muitas pessoas compartilham identificação e experiências similares à relatada no texto. Isso ocorre em outros textos. Qual é o sentimento ao ver esse retorno das pessoas?

Pra mim é muito emocionante. Sempre gostei de escrever crônica. No DC, em algumas oportunidades substituí o Sérgio da Costa Ramos, quando ele tirava férias. Mas desde a minha mudança para cá, faz dois anos e meio, eu tinha largado esse mundo. Não escrito mais. Tinha focado só no meu trabalho aqui e não escrito mais nessa pegada da crônica. Então, esse projeto, é um retorno ao gênero, porque escrevo as cartas como crônica.

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E é incrível. Procuro sempre tratar de assuntos do isolamento. Lá no começo é o sonho, pegar sol na sacada, são coisas bem do isolamento, da quarentena, e tem milhões de pessoas fazendo a mesma coisa. Isso foi muito forte, as pessoas se reconheceram, se identificaram e mesmo sem saber quem era que estava escrevendo, se era homem, mulher, branco, preto, cristão, evangélico, brasileiro, português, morador do Brasil ou não, as pessoas gostaram e o resultado sempre foi positivo.

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Fiquei muito impressionado. Estou orgulhoso do que foi construído ali. Formou-se uma comunidade, o índice de engajamento é bem alto, as postagens chegam a muita gente. Os comentários são muito verdadeiros, as pessoas dão depoimento do que estão passando na quarentena delas, fazem confissões, se expõem, é bem tocando, bem emocionante.

A carta mais recente, anterior à entrevista, foi publicada no dia 4 de outubro, e nela você traz uma reflexão sobre o retorno às aulas. E defende o retorno apenas em 2021. Pelo que você tem acompanhado aí em Angola, como tem sido essa experiência das aulas on-line?

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Aqui em Angola, o ano letivo parou em março. Tudo fechou. E voltou esta semana, e esse foi o gancho que usei para escrever essa carta. Voltaram ontem (segunda-feira, dia 5) as aulas do ensino universitário. E algumas turmas do primário e do secundário. Até publiquei nos stories as regras de como seria o retorno, para as pessoas que estavam curiosas.

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Então nesse período não teve aula nem on-line, nem nada assim. Algumas escolas particulares de idiomas, algumas coisas assim implementaram aula on-line, e deu certo. Para algumas. Eu fiz curso de inglês on-line nesse período. 

Você se manteve anônimo por seis meses. Em 29 de setembro, você abriu a identidade. Por que essa decisão?

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Foi uma forma de comemorar esses seis meses. No começo, achava que um dos atrativos do perfil era não ter autoria, não ter assinatura, justamente por isso: para que as pessoas tivessem mais empatia pelo que estava sendo narrado e pudessem se identificar mais. Agora, com seis meses, achei que as pessoas já estavam acompanhando e a questão da autoria sempre tinha muita gente perguntava, então decidi como forma de comemorar me revelando como o autor, para que as pessoas pudessem me chamar pelo meu nome. Tanto nos comentários quanto nas mensagens que vinham. O resultado foi bom. O retorno foi bem legal, gostei. 

Qual é o maior ensinamento que esse projeto lhe deu?

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(Pausa). Bah, que a gente nunca está sozinho. Por mais que a gente esteja isolado em casa. Estou em uma cidade, Luanda, que está sob seca sanitária – que é como eles dizem aqui –, então a gente não pode sair da cidade também. Então você pode estar em um apartamento, numa cidade fechada, num país com espaço aéreo fechado também, e mesmo assim tu consegue conversar com muita gente. Acho que esse foi o melhor resultado do perfil. 

Eu me tornei amigo de muita gente, muita gente mesmo, que nem sabia meu nome. Isso é incrível. E mesmo assim toda quarta-feira e todo domingo ia lá no Instagram para ler a carta e sempre comentando que esperavam com grande ansiedade o dia da carta. 

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