“Poncho Miliquero” emociona e vence Sapecada da Canção Nativa 2025 em Lages

Composição homenageia o sacrifício dos pais pela educação dos filhos

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"Poncho Miliquero" venceu a Sapecada com uma homenagem comovente ao esforço dos pais pela educação dos filhos (Fotos: Fernando Moraes, Nilton Wolff)

A composição “Poncho Miliquero” foi a grande vencedora da 31ª Sapecada da Canção Nativa, encerrada na noite deste domingo (15), em Lages, durante a 35ª Festa Nacional do Pinhão. 

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Com letra de Evair Suarez Gomez e música de Juliano Marciom Gomes Ávila, ambos de Santana do Livramento (RS), a obra foi interpretada com emoção por Pirisca Grecco, que também recebeu o prêmio de Melhor Intérprete.

A letra comovente, que narra o gesto de um pai que troca seu poncho de estimação por material escolar para o filho, arrancou aplausos e lágrimas do público no calçadão central de Lages, novo palco do festival. A composição toca em uma realidade familiar comum, marcada por renúncias silenciosas em prol do futuro dos filhos.

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— Há 25 anos eu venho aqui. Eu sou das gerações mais antigas que participam da Sapecada. Foi uma Sapecada incrível, é o meu tricampeonato. O discurso convence, mas o exemplo, ele arrasta. Eu espero, do fundo do coração, ser referência para alguma criança que esteve na plateia —disse o intérprete, Pirisca Grecco. 

Premiações e destaques da noite

Além da campeã, outras composições também se destacaram:

— É uma letra que eu não gostaria de ter escrito, mas, infelizmente, a gente acaba tendo que escrever. Fico muito feliz pela visibilidade que isso tomou e como as pessoas estão reconhecendo isso como uma verdade. Eu acho que a identidade cultural de um povo, a cultura que envolve tudo isso, é algo mais valioso que qualquer outra coisa. A composição se chama Coxilha Pobre e fala justamente disso, de estarmos perdendo os nossos campos para a monocultura, principalmente do pinus. Essa mensagem precisa chegar até as pessoas, para que tenham poder e autonomia para mudar essa realidade. Não adianta a gente estar aqui, no ano que vem, falando sobre os campos, sobre um cavalo, sobre um galpão, se a gente não vai ter mais nada disso para as futuras gerações verem — explicou o autor da letra, Luiz Pedro Zambam.

3º lugar: “Rabisco” – José Maurício Rigon (letra) e Joca Martins (música e interpretação), vencedor também na categoria Melhor Melodia

— Cada edição é um aprendizado pra gente, especialmente pra mim, que já sou dos veteranos, e eu posso aprender com a gurizada. O próprio pessoal que me acompanha também na estrada são jovens. Então eu fico muito feliz, porque eu venho aqui, me renovo, me desafio. Estar no palco cantando uma música inédita é um desafio para o intérprete, mesmo com estrada, a gente fica nervoso, quer fazer o melhor. Então eu saio daqui com um aprendizado e com um carinho maravilhoso desse público, que é incrível — revelou Joca Martins. 

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Veja imagens da premiação

Outros premiados

  • Melhor Tema Campeiro: “Rima Guaxa” – Francisco de Assis Morador Brasil (letra) / Gabriel Jardim (intérprete)
  • Melhor Arranjo: “Presilha de um Laço” – Marcelo Mendes (letra), Odair Teixeira (música) e Juliana Spanevello (intérprete)
  • Melhor Letra: “Sem Temer da Própria Sorte” – Fábio Maciel (letra), interpretada por André Teixeira e Roberto Borges
  • Melhor Instrumentista: Rodrigo Maia (baixo), em “O Bugio Ressuscitado”

Mudanças de local e data impulsionaram o festival

Com o evento transferido para o coração da cidade e realizado no fim de semana, a Sapecada teve recorde de inscrições, mais de 700 composições, e uma participação expressiva do público. Segundo a Polícia Militar, cerca de 25 mil pessoas circularam pela Praça João Costa ao longo do domingo.

Sobre a inspiração da campeã

O poncho miliquero, também conhecido como poncho pátrio, era tradicionalmente parte do fardamento militar em regiões do pampa uruguaio e argentino. A composição homenageia esses objetos carregados de história e valor afetivo, ressignificando-os como instrumentos de resistência e amor familiar.

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Segundo os autores, a música foi inspirada no esforço silencioso de pais que abrem mão do pouco que têm para garantir a educação dos filhos, um retrato fiel da realidade de muitos brasileiros. O “poncho” trocado na venda por cadernos e lápis simboliza esse gesto simples, mas poderoso, de quem carrega nos ombros o peso do sacrifício e da esperança.

Letra na íntegra – “Poncho Miliquero”

Este poncho miliquero, dormindo por sobre a anca

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Basteriado das andanças, ungido a fogão tropeiro

Desbotado o azulego, poncho véio do estado

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Anda lobuno, já pardo, dando pouso pra’os “aujeros”

Este poncho miliquero, que entrego pra o bolicheiro

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De garoas e pampeiros, tem de sobra pra contar

Foi parte do pagamento, por essas coisas da vida

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Já me serviu de guarida, hoje pra o guri estudar

Este poncho miliquero, lhe troco por material

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Um cadernito comum, desses sem o aspiral

Anda escasso o peão mensal, tudo é na volta da changa

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Essa bombacha paysana, me acolhera com a alpargata

Lápis de cor, uma borracha e um tubito de tenaz

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Com este poncho, quanto mais material levo por ele?

A mochila na parede, quanto falta pra eu levar?

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Peão de tropa, capataz, alambrador ou caseiro

Peão pra cima dos arreios, peão por dia, tanto faz…

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Este poncho miliquero, que ganhei faz muito tempo

Lhe entrego, seu Manoel Bento, em troca de material

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Lápis de cor, borracha, caderno sem aspiral

Um tubito de tenaz, mochila, umas alpargatas

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Era o que fazia falta… outro dia volto por mais!

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