O presidente Lula (PT) anunciou nesta quarta-feira (22) a liberação de R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para empresas afetadas pela tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida integra o programa Brasil Soberano 3.
O anúncio foi feito no mesmo dia em que entrou em vigor a tarifa aplicada pelo governo do presidente Donald Trump sobre parte das exportações brasileiras aos EUA. Segundo estimativas citadas pelo governo, a medida pode provocar prejuízo de até US$ 11 bilhões às exportações brasileiras.
Segundo o governo federal, o programa também atenderá empresas prejudicadas pelos impactos da guerra no Oriente Médio, especialmente aquelas com exportações afetadas para países do Golfo Pérsico.
Como será o pacote
Os R$ 18,5 bilhões serão divididos da seguinte forma:
- R$ 13,5 bilhões provenientes de recursos não utilizados no Brasil Soberano 1 e de renegociações de dívidas rurais;
- R$ 5 bilhões disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O crédito será destinado a empresas exportadoras e o governo prevê regras para adesão ao programa, como a manutenção de pelo menos parte dos empregos.
Quem poderá acessar o crédito
O Brasil Soberano 3 atenderá empresas de diferentes segmentos, entre eles:
- Setores afetados pelas tarifas comerciais dos EUA, como aço, alumínio, automotivo, madeira e máquinas;
- Setores industriais estratégicos, incluindo fertilizantes, farmacêutico, têxtil e minerais críticos;
- Empresas com exportações para o Golfo Pérsico afetadas pelos conflitos no Oriente Médio.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, cerca de mil empresas exportadoras podem ser beneficiadas. Entre os segmentos mais afetados pelas tarifas estão madeira, móveis, produtos cerâmicos, máquinas e equipamentos, calçados e açúcar.
As linhas poderão ser utilizadas para
- capital de giro
- aquisição de máquinas e equipamentos
- investimentos produtivos;
- inovação tecnológica;
- adaptação de produtos e processos;
- abertura e prospecção de novos mercados.
Produtos brasileiros taxados em 25%
Brasil Soberano chega à terceira fase
Além do lançamento do Brasil Soberano 3, Lula sancionou a lei que libera R$ 15 bilhões em linhas de crédito do Brasil Soberano 2, ampliando o programa criado no ano passado para responder ao primeiro tarifaço dos Estados Unidos.
O governo informou que outras medidas continuam em estudo e poderão ser adotadas caso as empresas enfrentem dificuldades para escoar os produtos atingidos pelas tarifas.
Governo mantém negociações com os EUA
Durante o anúncio, Lula afirmou que o Brasil continuará buscando uma solução negociada com os Estados Unidos.
— Nós estamos na mesa de negociação, propusemos a mesa de negociação, já mandamos vários documentos e várias propostas de negociação. Eu, pessoalmente, fui aos EUA, ficamos 3 horas discutindo negociação. [Os ministros] Márcio, Alckmin, o Dario, e o Haddad, quando era ministro, fizeram várias tentativas de negociar e a gente nunca encontrou reciprocidade na conversa — declarou Lula.
Segundo integrantes do governo envolvidos nas conversas, as negociações avançaram no início, mas representantes da Casa Branca passaram a adotar uma postura considerada mais inflexível nos últimos meses.
De acordo com o governo brasileiro, os norte-americanos passaram a defender mudanças envolvendo o Pix e a legislação sobre minerais críticos. Integrantes da diplomacia também afirmam que informações apresentadas pelo Brasil sobre desmatamento foram desconsideradas pelos Estados Unidos.
Alckmin descarta retaliação neste momento
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, na terça-feira (21), que a intenção do governo não é retaliar os Estados Unidos neste momento e que a prioridade segue sendo a negociação.
— A ideia não é retaliação. Não é retaliação. ‘Olho por olho’, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos, né? — afirmou o vice-presidente, em entrevista após a primeira rodada de reuniões com os setores produtivos que serão atingidos pela decisão do governo de Donald Trump.
Santa Catarina está entre os estados mais atingidos pelo tarifaço
Santa Catarina está entre os estados brasileiros mais atingidos pelo novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Segundo dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), 68% das exportações catarinenses destinadas ao mercado norte-americano serão afetadas pela tarifa adicional de 25%, o maior nível de exposição proporcional entre os estados.
Ao lado de São Paulo, Santa Catarina concentra 52% de todo o impacto econômico da medida. Do total de US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras atingidas pelas novas tarifas, US$ 3 bilhões correspondem a produtos paulistas. Embora São Paulo concentre o maior volume financeiro afetado, Santa Catarina aparece como o estado mais vulnerável em termos proporcionais, devido à forte dependência do mercado americano.









