O contingente de quase 60 milhões de famílias endividadas (82%) em julho de 2026 marca o sexto recorde consecutivo apurado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). A taxa supera o patamar de 81,6% observado em junho e revela que mais de quatro em cada cinco lares enfrentam compromissos financeiros abertos diante do custo de vida e dos juros altos.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic 2026) aponta que cartão de crédito lidera a lista dos vilões financeiros por atuar de forma presente no orçamento de 85,3% das famílias que estão endividadas. O meio de pagamento usado frequentemente para suprir despesas essenciais do cotidiano, esbarra em taxas do crédito rotativo que ultrapassam 400% ao ano.
Sete vilões do endividamento em 2026
O cartão de crédito é a modalidade mais comum que compromete a renda familiar em 2026, presente em 85,3% dos casos, impulsionada tanto pelo parcelamento de compras diárias, quanto pelas altas taxas do crédito rotativo.
Os carnês de loja aparecem em seguida, com 16,1%. A modalidade reúne crediários e parcelamentos diretos em varejistas para a compra de eletrodomésticos, eletrônicos e vestuário. O crédito pessoal compromete a renda de 13% das famílias. Os empréstimos bancários são contratados para cobrir emergências ou fechar as contas do mês.
O financiamento habitacional representa 9,6% dos compromissos. As prestações da casa própria formam compromissos financeiros de longo prazo. O financiamento de veículo aparece com 9%, quando pensadas em parcelas de carros ou motos, além dos custos operacionais do combustível e da manutenção.
O crédito consignado responde por 7,1% e se trata de um empréstimo com desconto direto na folha de pagamento. Como as parcelas já são descontadas, a modalidade reduz o salário líquido disponível. Já o cheque especial, que representa 3,4% dos compromissos financeiros, pode gerar juros diários elevados quando usados de forma frequente.
Comprometimento financeiro nas famílias de menor renda
Quase 20% das famílias brasileiras destinam mais da metade da renda mensal exclusivamente para quitar dívidas em 2026, o maior nível registrado desde março do mesmo ano. Em média, os lares endividados comprometem 29,5% do orçamento com o pagamento de débitos, em um prazo médio de 7,2 meses.
Embora a inadimplência (dívidas em atraso) tenha registrado um leve recuo para 29,8% em julho por conta do Desenrola 2.0, o indicador permanece em nível elevado. O tempo médio de atraso nos pagamentos também recuou e passou para 64,6 dias, uma queda que foi observada desde abril.
A dificuldade de quitação concentra-se sobretudo na faixa de menor renda (Classe D e E), que recebem até três salários mínimos. Nestas classes, 84,9% possuem dívidas e 38,5% sofrem com a inadimplência. Já quem se enquadra na classe B, com renda superior a dez salários mínimos, o percentual de endividados é de 72% e a inadimplência atinge 15,1%.
Estratégias práticas de educação financeira
Organizar o orçamento exige ações diretas e planejamento contínuo para interromper o ciclo do endividamento familiar. O Caderno de Educação financeira do Banco Central recomenda que o orçamento pessoal ou de lares familiares seja construído, inicialmente, em quatro etapas
- Mapeamento completo: liste todas as entradas e saídas mensais do seu dinheiro para identificar o que está em dia e o que está atrasado.
- Priorização de débitos: renegocie primeiro as dívidas com juros mais altos (como cartão e cheque especial) ou que envolvam bens essenciais.
- Registrar receitas e despesas: anotar também pequenos gastos, compromissos sazonais e compras parceladas.
- Priorizar despesas essenciais: reservar recursos para alimentação, moradia, saúde, educação e transporte.
- Envolver a família: definir prioridades e limites que possam ser cumpridos por todos.
- Criar uma reserva: depois de equilibrar o orçamento, formar aos poucos uma reserva para emergências.
- Substituição de crédito: troque modalidades caras por linhas de financiamento com juros menores quando houver saldo devedor acumulado.
- Uso consciente do cartão: utilize o cartão de crédito apenas com limite predefinido no orçamento, evitando o parcelamento a perder de vista.
Como a pesquisa do endividamento é feita
Realizada todos os meses desde janeiro de 2010, a pesquisa reúne cerca de 18 mil consumidores em todas as capitais e no Distrito Federal. A metodologia da Peic 2026 acompanha o nível de endividamento, as contas em atraso, o comprometimento da renda e a percepção dos consumidores sobre a capacidade de pagamento.
FOTOS: 7 pontos de atenção antes de contratar o consignado
*Sob supervisão de Luiz Daudt Junior.







