“Super” El Niño pode provocar perdas nas lavouras de SC e reduzir produção de trigo, alho e cebola

Fenômeno tem 81% de chance de atingir categoria "super" e deve intensificar chuvas e desafios para os produtores catarinenses

Compartilhe:

Entre as hortaliças, alho e cebola tendem a ser as culturas mais impactadas em SC pelo El Niño (Foto: Arny Mohr, Divulgação e arte de Ben Ami Scopinho, NSC Total)

A influência do “super” El Niño na segunda metade de 2026 deve afetar principalmente as produções de trigo, cebola e alho na safra de inverno em Santa Catarina, segundo um levantamento da Epagri divulgado em junho. Na última terça-feira (14), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou os primeiros efeitos do fenômeno na região Sul, onde favorece o aumento das chuvas.

Continua após a publicidade

A produção de alho deve recuar 17% e a de cebola, 9%, pois as duas culturas podem sofrer com encharcamento do solo, doenças bacterianas e dificuldades nas operações de campo. Entre os grãos de inverno, o trigo pode cair produção em 29%, devido à maior incidência de doenças e dificuldades no manejo durante fases importantes do desenvolvimento.

Veja as previsões da Epagri para a safra em SC

  • Alho: A área plantada deve cair 13%, para 647 hectares, e a produção recuar 17%, para 7,3 mil toneladas. A região de Curitibanos segue como principal polo produtor, com destaque para Fraiburgo e Frei Rogério, que concentram 52% da área cultivada.
  • Cebola: A área cultivada deve diminuir 9%, para 17,4 mil hectares, e a produção cair 9%, para 576,4 mil toneladas, após preços abaixo do custo de produção no início de 2026. A região de Ituporanga segue como principal polo produtor, concentrando 46% da área cultivada no Estado.
  • Trigo: A estimativa é de redução de cerca de 27% na área plantada e de 29% na produção, que deve ficar em 271 mil toneladas. A produtividade média também deve recuar 2,8%.
  • Aveia-grão: A produção deve crescer 12,8%, para cerca de 60 mil toneladas, acompanhando o aumento de 12,3% na área cultivada, impulsionado principalmente por novas áreas na Serra.
  • Cevada: A cultura deve registrar aumento de 13,6% na área plantada, para 500 hectares, e alta de 3,8% na produção, estimada em cerca de 2 mil toneladas, mantendo participação ainda pequena no Estado.

Quais são os efeitos do El Niño em SC

Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, o El Niño tem 81% de chances de atingir a categoria “super” ainda em 2026 e pode ser o El Niño mais intenso desde 1950, quando começaram as medições do fenômeno, segundo atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) de 9 de julho.

Continua após a publicidade

Segundo a Epagri, em Santa Catarina, a previsão climática para a safra indica temperaturas amenas, elevada umidade e chuvas frequentes nos próximos meses, cenário associado à atuação do El Niño.

— Em anos do El Niño, episódios de frio tardio são muito raros. Excessos de chuva estão previstos para a primavera, em especial em outubro e novembro, o que traz um problema maior, porque pode resultar em encharcamento do solo, dificultar o manejo agrícola, entrada de máquinas e afetar estradas, transporte de mercadorias e até o fornecimento de energia — prevê a meteorologista Marilene de Lima, da Epagri/Ciram.

O El Niño em 10 passos

Quais os efeitos esperados no restante do Brasil

No Brasil, segundo um boletim publicado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em 29 de junho alerta que a tendência é de chuvas acima da média na Região Sul e precipitações abaixo da média em parte do Norte e do Nordeste.

Segundo o instituto, a pecuária deve ser uma das atividades mais afetadas no Centro-Oeste e no Norte pela redução da disponibilidade de água para as pastagens. Já no Sul, o excesso de chuva pode favorecer culturas de inverno, mas também aumenta o risco de doenças e perdas em lavouras.

Continua após a publicidade

Impactos previstos por região, segundo o Inmet

  • Sul: chuvas acima da média tendem a favorecer as culturas de inverno, mas o excesso de umidade pode elevar a incidência de doenças fúngicas. Em contrapartida, a maior nebulosidade e as temperaturas mais elevadas reduzem o risco de geadas tardias.
  • Sudeste: chuvas próximas da média devem beneficiar as culturas de inverno. Para o café, o cenário é favorável à colheita e à florada, desde que as chuvas retornem após o período seco. As temperaturas mais altas, porém, aumentam o risco de doenças nas lavouras.
  • Norte: chuvas abaixo da média e calor acima do normal aumentam o risco de seca, com possíveis prejuízos às pastagens, culturas perenes e à agricultura familiar.
  • Nordeste: menor volume de chuvas pode favorecer a colheita do feijão de terceira safra em áreas mais adiantadas, mas comprometer lavouras em desenvolvimento e reduzir a disponibilidade de água para a pecuária.
  • Centro-Oeste: condições favorecem a colheita do milho de segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. No entanto, o calor pode intensificar a deficiência hídrica no fim da estação seca, afetando pastagens e a preparação da próxima safra.

Como os agricultores de SC podem se preparar?

O presidente da Epagri, Dirceu Leite, afirma que a instituição está mobilizada para apoiar os agricultores catarinenses diante dos desafios que podem afetar as safras, com equipes de pesquisa e extensão acompanhando as condições de clima e solo, emitindo orientações, alertas e reforçando práticas de conservação, como o plantio direto e o terraceamento.

— Orientamos aos produtores a acompanharem os avisos e boletins da Epagri e a procurarem o escritório mais próximo do município. Com informação, planejamento e trabalho conjunto, vamos enfrentar mais este desafio climático e buscar uma boa safra para Santa Catarina — recomenda Leite.