Lei sancionada em SC traz mudança para pessoas com dislexia nos concursos públicos

Nova legislação garante atendimento especializado a disléxicos, além de pessoas com Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e síndrome de Down

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Apesar de pouco falada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 5% e 10% da população mundial seja afetada pela dislexia (Foto: Banco de Imagens)

Desde a infância, Nathália de Menezes teve que aprender a conviver com a dislexia, transtorno do neurodesenvolvimento que afeta, principalmente, a leitura e a escrita. Ela recebeu o diagnóstico aos oito anos, quando os professores e a mãe perceberam que por trás da dificuldade de aprendizado da menina estava uma falta de interpretação, além da troca de letras como “p” e “b”. Atualmente, aos 26 anos, a jovem é formada em Direito e se define como “concurseira”, ou seja, alguém que está se preparando para concursos públicos. Por meio dos exames, Nathália tem o sonho de, um dia, se tornar policial militar.

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Recentemente, uma lei sancionada em Santa Catarina mudou a relação que a moradora de Palhoça, na Grande Florianópolis, tem com as provas. Se trata da Lei nº 19.321, do deputado Sergio Motta (Republicanos), sancionada no dia 12 de junho deste ano.

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A lei assegura o direito ao atendimento especializado às pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia e síndrome de Down nos concursos públicos e vestibulares realizados no âmbito da administração pública estadual.

A norma estabelece que as comissões organizadoras de concursos públicos e vestibulares devem, a partir de agora, prever e divulgar as condições para o certame em atenção às diretrizes fixadas na lei, como tempo extra, profissionais de apoio como ledores e transcritores, e ambiente adequado para realização das provas.

— A lei é um passo firme na direção de uma educação mais inclusiva. Ela foi construída com base em relatos de famílias, estudantes e profissionais da educação. Agora, com a aprovação, temos uma ferramenta concreta para promover mais igualdade de oportunidades em momentos decisivos como concursos e vestibulares, especialmente ao sensibilizar as instituições e criar uma cultura de respeito às necessidades específicas de cada cidadão catarinense — afirmou o deputado ao NSC Total.

Por que a medida é importante?

Os desafios em relação à leitura e à escrita em pessoas disléxicas costumam aparecer na fase da alfabetização, de acordo com o neurologista José Araújo de Andrade Neto.

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Provas, como concursos públicos ou vestibulares, exigem uma forte habilidade de interpretação de texto por parte do candidato, além da necessidade de uma leitura rápida para otimizar o tempo — geralmente, esses tipos de exame têm duração média de cinco horas. Para as pessoas com dislexia, isso é um desafio.

— Pessoas com dislexia costumam ter dificuldades de interpretar textos e fazer leituras rápidas, mesmo que já tenham sido alfabetizadas. Isso acontece porque, para elas, o processo de leitura não é automático. Enquanto a maioria das pessoas entende a leitura como algo natural, a pessoa com dislexia precisa fazer muito mais esforço para decodificar as palavras. O cérebro encontra dificuldade em processar esses símbolos e transformá-los em informação compreensível — esclarece o médico.

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É o que Nathália enfrenta nas provas que realiza durante esta fase da vida, em que está em busca do sonho de se tornar policial.

— Eu escrevo, mas eu tenho que ler umas três vezes. E às vezes eu não consigo ver o erro que está na escrita. A prova de concurso é tempo, e eu não faço a questão tão rápido porque eu tenho que ler várias vezes para entender o que ela está pedindo — relata a jovem.

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É por isso que, mesmo que o candidato com dislexia conheça bem o conteúdo da prova, ele irá ter dificuldades de entender o que está sendo pedido, simplesmente por não conseguir interpretar os enunciados com clareza, de acordo com o neurologista José Araújo de Andrade Neto.

— Medidas como tempo extra, prova com fonte ampliada, leitura em voz alta, sala separada e
menos estímulos visuais ajudam a reduzir o impacto da dislexia no desempenho da prova — declara o médico.

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Nathália concorda. Para ela, escrever uma redação com alguém do lado, para quem ela possa ler em volta, é importantíssimo:

— Eu já escrevi perguntando, e é muito bom, para mim. Várias vezes, ao escrever uma palavra, como “perguntando”, eu já escrevi “perguntanto”, trocando o “d” pelo “t”. E eu não percebo, mesmo relendo, a não ser que alguém aponte para mim.

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“Leis para disléxicos são fundamentais”, diz ABD

Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira de Dislexia (ABD) celebrou o avanço para o estado catarinense. Em nota, a presidente voluntária da ABD, Maria Angela Nogueira Nico, disse que as leis voltadas para este público específico são fundamentais para criar um ambiente que respeite a diversidade e facilite o desenvolvimento integral das pessoas disléxicas brasileiras.

“As legislações oferecem apoio e proteção necessárias para garantir que os disléxicos tenham acesso igualitário a educação, saúde e inclusão social, além de incentivar campanhas de conscientização sobre a dislexia nas escolas e na sociedade”, reforçou a fonoaudióloga e psicopedagoga clínica.

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Vida com dislexia é “aprender a conviver”

Viver com dislexia se trata de aprender a conviver. Isso foi algo que a primeira psicopedagoga que Nathália de Menezes teve, durante a infância, disse à ela. Hoje, ela diz que a constatação é verdadeira:

— Como a dislexia não é uma neurodivergência muito comentada, eu tive que aprender a conviver com ela.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 5% e 10% da população mundial seja afetada pela dislexia. Nathália considera que teve sorte no aprendizado durante o ensino fundamental. Isso porque estudou em uma escola que aplicava o método Montessori, que, para ela, foi uma experiência positiva.

— Foi muito bom porque eu tinha um método diferente de prova para que eu conseguisse raciocinar e absorver o conteúdo da mesma forma. Eu tinha uma atenção mais redobrada dos professores também. Eu lembro que eles me falavam sempre para eu não “comer” letras, porque além de trocar o “d” pelo “t” ou o “b” pelo “p”, eu esquecia de completar algumas palavras — relembra.

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Métodos como estes, ao invés de diferenciar, na verdade incluem, segundo o neurologista José Araújo:

— Dizer que todos devem ser avaliados da mesma forma é como julgar a habilidade de um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore. Precisamos promover equidade, não apenas igualdade. Enquanto igualdade trata todos de forma igual, a equidade trata cada pessoa de acordo com suas necessidades — pontua o médico.

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Mesmo quando a leitura já foi adquirida, estudar e compreender conteúdos de diferentes matérias continua sendo um desafio maior para os disléxicos, de acordo com o neurologista.

— Durante as provas, além de levar mais tempo, a pessoa pode ter dificuldade em expressar o que sabe da forma esperada. Por isso, avaliações comuns podem não ser a melhor estratégia — afirma.

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Avanços acontecem em outros estados

O avanço para a garantia de equidade em concursos públicos e vestibulares não ocorre somente em Santa Catarina. Mato Grosso do Sul, por exemplo, instituiu, em 29 de maio de 2023, a Lei nº 6.058/2023, que garante tempo extra de uma hora, além de profissional ledor, transcritor e sala diferenciada, para candidatos com TDAH e dislexia em concursos e vestibulares.

Já o Piauí aprovou em 20 de outubro de 2021 a Lei nº 7.607/2021. Ela assegura uma hora e meia de tempo adicional, ledor, transcritor, sala especial e correção por banca preparada para estudantes com TDAH e/ou dislexia. A norma entrou em vigência após regulamentação prevista em janeiro de 2022.

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Em 6 de novembro de 2023, o Amazonas sancionou a Lei nº 6.570/2023, alterando regras dos concursos estaduais para incluir atendimento especializado — ledor, transcritor e sala diferenciada — para pessoas com TDAH e dislexia.

Já em Minas Gerais, está tramitando o PL 250/2023, já com parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) de abril de 2023, prevendo tempo adicional de uma hora e meia aos candidatos neurodivergentes, além de ledor, transcritor, sala diferenciada e banca especializado na correção.

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No Projeto de Lei (PL) do deputado catarinense Sérgio Motta, inicialmente, era prevista uma hora a mais de tempo de prova para pessoas com dislexia, TDAH ou Síndrome de Down. Na lei sancionada, no entanto, essa definição ficou a cargo da comissão organizadora de cada concurso ou vestibular, com base nas diretrizes da própria lei.

O profissional transcritor também não foi mencionado diretamente na versão sancionada, de acordo com o deputado, o que muda um pouco a operacionalização do atendimento especializado.

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— No entanto, a lei garante a possibilidade de apoio técnico-profissional para orientações e procedimentos específicos, o que pode sim incluir transcrição, dependendo do caso e da comissão organizadora — afirma.

Leia a nota da ABD na íntegra

“Todos os tipos de leis brasileiras para indivíduos com dislexia têm uma importância bem significativa. As legislações oferecem apoio e proteção necessárias para garantir que os disléxicos tenham acesso igualitário a educação, saúde e inclusão social. A legislação brasileira promove a identificação precoce através de uma avaliação multidisciplinar dos indivíduos com dificuldades de aprendizagem, garantindo que desde as crianças disléxicas até ao que frequenta uma universidade, recebam apoios necessários como tutoria e recursos educativos. As leis também incentivam campanhas de conscientização sobre a dislexia nas escolas e na sociedade ajudando a combater estigmas e preconceitos além de proporcionar um ambiente acolhedor. As leis para disléxicos são fundamentais para criar um ambiente que respeite a diversidade e facilite o desenvolvimento integral das pessoas disléxicas brasileiras”.

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*Sob supervisão de Luana Amorim

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