O incêndio que matou 242 jovens e deixou mais de 600 feridos na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), completa 10 anos nesta sexta-feira (27). Uma década depois, familiares de quatros catarinenses que foram vítimas da tragédia ainda tentam encontrar formas de lidar com o luto e manter a memória das jovens viva. Em paralelo, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes (AVTSM) trava intensa luta por justiça, já que o caso segue sem responsáveis e o júri popular realizado foi anulado.

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As quatro catarinenses que morreram moravam na cidade gaúcha em busca de um sonho em comum: a carreira profissional. Marina de Jesus Nunes, 20 anos, era natural de Maravilha, no Oeste, e fazia cursinho pré-vestibular para cursar Medicina. Já Isabella Fiorini e Thaís Zimmermann Darif, 19 anos, eram naturais de São Miguel do Oeste e Guaraciaba, respectivamente, e estavam no primeiro semestre de Medicina Veterinária na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Mais velha entre as quatro, Bruna Karoline Occai, 24 anos, era natural de Belmonte, formada em Biomedicina na Unoesc de São Miguel do Oeste, e fazia o mestrado em Bioquímica Toxicológica também na UFSM. A reportagem do NSC Total conversou com os familiares das vítimas para saber como eles estão dez anos depois.

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Desde o ocorrido, a principal busca das famílias e sobreviventes do incêndio é por condenação dos culpados. Quatro pessoas chegaram a ser presas no dia seguinte ao incêndio. São eles: os sócios da boate Kiss, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, e dois músicos da banda que possuía os artefatos pirotécnicos, “Gurizada Fandangueira”, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Porém, eles ficaram quatro meses detidos em 2013, e depois, passaram a responder o processo em liberdade.

Ao longo da última década, a Associação de Familiares e Vítimas (AVTSM) teve papel fundamental na cobrança das autoridades por respostas e manteve viva a memória das vítimas, com diversas atividades.
O presidente do grupo, Gabriel Rovadoschi Barros, acredita que as ações pressionaram o poder público e, que se não fosse por isso, “o julgamento nem teria ocorrido”.

— A justiça nos é tão cara porque a falta dela trava todo caminhos de elaboração, tanto da cidade entender e incorporar na história, quanto entender esse propósito coletivo — conta.

Somente em 1 de dezembro de 2021, o processo da Kiss foi a julgamento, em júri popular, e durou dez dias, em Porto Alegre, se tornando o mais longo na história do Rio Grande do Sul. O júri decidiu que os quatro acusados eram culpados e o juiz determinou as sentenças de cada um, que variaram entre 18 e 22 anos de prisão. Eles se entregaram em diferentes presídios no dia seguinte, um deles, Mauro Hoffman, se apresentou em Tijucas, na Grande Florianópolis – posteriormente ele foi transferido para Canoas.

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Oito meses depois, o júri foi anulado e os condenados soltos. A decisão foi tomada pela 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) devido ao desrespeito de alguns procedimentos formais, como provas entregues fora do prazo e conversa particular do juiz com os jurados. Gabriel afirma que a associação “não reconhece” a anulação do processo, nem os motivos indicados pela justiça. Segundo ele, ainda no ano passado, a AVTSM entrou com um recurso para que a decisão fosse cancelada, mas ainda aguarda resposta.

Veja linha do tempo do incêndio da Boate Kiss

Conheça as famílias das quatro catarinenses vítimas da Kiss

Marina de Jesus Nunes, 20 anos, estudante

“Não existiu e não vai existir um dia que não fale da minha filha”, conta Leandra Nunes, 52 anos, pedagoga e mãe de Marina de Jesus Santos. Com os olhos cheios de lágrima, ela lembra da filha como uma “pessoa maravilhosa e muito determinada”. A menina de 20 anos terminou o Ensino Médio em Maravilha, no Oeste de SC, e foi para o RS se preparar para o vestibular pensando em seguir a carreira de médica.

Segundo Leandra, Marina queria ajudar as pessoas e trabalhar no “Médicos Sem Fronteiras” – organização internacional que oferece ajuda a populações em situações de emergência, conflitos, epidemias, fome e exclusão social. Já a escolha da cidade, a mãe conta que nem sabe de onde veio, acredita que foi o “lugar que ela escolheu para partir”.

Falar sobre o assunto faz bem para Leandra. Ela demonstra felicidade ao comentar sobre a filha e reforça, várias vezes, que sabe que Marina está bem e acredita que ela mesma “se tornou uma pessoa muito melhor”, passando por esse sofrimento. De acordo com a psicóloga Ariádini de Andrade, integrante do Coletivo de Psicanálise de Santa Maria, que trabalha com o eixo Kiss, “falar pode auxiliar no processo de luto, mas também de luta”. Essa ferramenta, aliada à fé, aos amigos e familiares, foi o que a ajudou a lidar com o luto.

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Através da crença no espiritismo, Leandra diz ter encontrado Marina de diversas maneiras: em cartas, sonhos e até em conversas. Conta que, em todas as vezes, a filha a acalmava e dizia: “Meu lugar é aqui, estou livre”. A mãe também conta que recebeu um “aviso” da morte da jovem, quando sonhou com a própria mãe (avó da jovem), já falecida, passando com um pano branco. Já o pai da menina, acordou naquela noite de 27 de janeiro com latidos desesperados do cachorro da menina. Carlos, ou Betinho, como era apelidado, teve outro momento marcante com a filha. Ele sonhou que encontrava Marina, dava um abraço e dizia: “Estou pronto”. No dia seguinte, segundo Leandra, o esposo faleceu após ter um infarto.

Irmão, mãe e pai de Marina de Jesus Nunes com camisetas em homenagem a ela (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre a Justiça no caso da Kiss, Leandra diz que “na pior das prisões eles já estão: a consciência”. O que fica para ela é a necessidade de garantir a segurança das casas noturnas.

Nesse sentido, uma lei federal de prevenção e de combate a incêndio e desastres, também conhecida como “Lei Kiss”, foi sancionada em 2017. Estabelece diretrizes sobre o assunto e o principal diferencial é que o Estado passou a ser o único responsável pela fiscalização da segurança contra incêndio das edificações.

Pedro Uczai, deputado federal de Santa Catarina pelo PT, participou da comissão especial da Câmara dos Deputados para a criação da lei. Ele avalia que a medida teve um papel jurídico importante e que aperfeiçoou, principalmente, a atuação do Corpo de Bombeiros. No entanto, acredita que “é preciso isso se transformar em consciência social” e que a lei “seja cumprida no Brasil inteiro”.

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Bruna Karine Occai, 24 anos, mestranda

Bruna fazia mestrado na UFSM e sonhava com doutorado (Foto: Reprodução)

Uczai também é tio de uma das vítimas da tragédia, Bruna Karine Occai, 24 anos, natural de Belmonte, Oeste de SC. A jovem havia começado o mestrado em Bioquímica Toxicológica, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), após se formar em Biomedicina na Unoesc, em São Miguel do Oeste.

Segundo o tio, Bruna era muito “dedicada” e tinha “muita convicção do que queria na vida”. Ele diz que sente “uma saudade boa” pois sabe que ela “viveu intensamente”. Para ele e a família de Bruna, o que mais revolta é a demora nas decisões sobre a responsabilização do crime.

— Se alguém mata uma pessoa com revólver a punição é mais rápida e imediata, porque está mais clara na lei. Mas quando tem mais de 240 jovens que perderam a vida, quase todos estudantes, a não-resposta do judiciário, a protelação, passa uma mensagem para a sociedade que a impunidade vale a pena — desabafa.

Além da Justiça, Uczai também reforça a importância da memória. Ele acredita que a vida das jovens catarinenses, assim como todas outras vítimas da tragédia, devem ser lembradas. Isso é essencial para “evitar novas tragédias”.

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Thaís Zimmermann Darif e Isabella Fiorini, 19 anos, estudantes de Medicina Veterinária

Isabella, à esquerda, e Thaís, à direita, moravam juntas e estudavam Medicina Veterinária na UFSM (Foto: Reprodução)

Uma das famílias destroçadas pela perda decidiu usar a memória para continuar com o sonho da filha: cuidar dos animais. Thaís Zimmermann Darif, 19 anos, estudava Medicina Veterinária na UFSM e, desde quando morava em Guaraciaba, no Oeste catarinense, era voluntária da ONG Amigo Bicho, em São Miguel do Oeste.

Após a morte da filha, Rogério Darif começou a participar da organização e atualmente cumpre a função de tesoureiro no projeto. Ele conta que, entre a metade de 2013 e o início de 2014, o grupo fez uma rifa para construir um espaço físico para a ONG e também um centro de reabilitação para os animais resgatados. O último levaria o nome de Thaís. No entanto, o centro acabou não saindo do papel por falta de verba, mas a sede da ONG leva o nome da jovem voluntária, logo abaixo do logo, como forma de homenagem.

ONG Amigo Bicho, em São Miguel do Oeste, tem nome em homenagem a voluntária

Apesar de contar sobre a história da ONG, Darif preferiu não falar sobre a filha. A jovem dividia apartamento com uma colega da mesma região, Isabella Fiorini, 19 anos, natural de São Miguel do Oeste. Ela também cursava Medicina Veterinária na UFSM. Procurados pela reportagem, a família não quis comentar sobre o assunto e pediu para que os nomes dos parentes não fossem mencionados.

— A escritora Chimamanda Ngozi Adichie nos diz que o “luto tem a ver com as palavras, a derrota das palavras e a busca delas”. Essa derrota e essa busca pelas palavras dizem dos lutos que vivemos, em que as palavras simplesmente nos faltam e não conseguimos nomear. Mesmo que se tenha algo urgente a dizer, não conseguimos — afirma a psicóloga Ariádini Andrade dizendo que a escolha de não falar, também é uma forma de lidar com o luto.

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Apesar do processo ser singular, ela também explica que rituais públicos de despedida e homenagem “auxiliam individual e socialmente” no processo de elaboração da perda e que é necessário o “reconhecimento social” e “não compactuar com a impunidade e o silenciamento”.

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