O hábito de consumir pinhão atravessa gerações em Santa Catarina. Na chapa, na água, na farofa, na paçoca ou no entrevero, a semente da araucária não apenas alimenta, mas também reúne pessoas ao redor do fogão à lenha e, entre goles de mate amargo, embala histórias. Mas para chegar à mesa do consumidor, a iguaria percorre um caminho arriscado.
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— Eles continuam acessando as árvores basicamente da mesma maneira que há muitos anos: subindo na araucária — explica o gerente regional da Epagri Lages, José Márcio Lehmann.
Suspenso no alto das copas, o pinhão exige de quem o colhe mais do que técnica: pede força, equilíbrio e coragem. Para alcançar as pinhas, é preciso vencer a altura e subir em árvores que ultrapassam 20 metros.
Alguns coletores apoiam escadas no tronco para vencer os primeiros metros. Outros avançam com a espora presa aos pés, fincando o ferro na casca, passo a passo, até a copa.
— No começo usavam um laço de corda. Depois faziam escadas na própria casca da araucária. Hoje a gente usa a espora, um ferro no pé que a gente finca na árvore — explica o extrativista Jailson de Liz Rosa, de Painel, na Serra catarinense.
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Ele diz que, atualmente, combina a espora com uma escada de alumínio de nove metros.
— Usar a escada junto com a espora deixa o serviço mais fácil. Eu subo até certo ponto com a escada, depois sigo com a espora. Subir apenas com a espora é muito cansativo. Quanto menos forçar braço e a perna, mais rende o serviço — pontua.
Tradição familiar que ultrapassa gerações
Aos 7 anos, Jailson já acompanhava o pai na colheita do pinhão na Serra Catarinense. Hoje, mais de três décadas depois, ele tem a floresta de araucárias como local de trabalho. A prática, transmitida de geração em geração há mais de um século, sustenta famílias e ajuda a manter viva a cultura da região.
— Meu bisavô já colhia pinhão, daí depois meu avô, meu pai e agora eu estou na sucessão. Daqui a pouco eu paro de colher e passo a tradição para o meu filho — conta Jailson.
Na Serra Catarinense, o extrativismo do pinhão é uma herança familiar. O aprendizado começa cedo, muitas vezes ainda na infância, acompanhando pais e avós nas matas de araucária. Ele reconhece que os equipamentos aumentam a segurança, mas diz que, na prática, acabam sendo deixados de lado.
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— Não uso equipamentos de segurança, mas tenho experiência. A gente conhece a árvore, sabe o lado que deve subir. O equipamento nos protege, mas deixa o serviço enrolado. O tempo para amarrar, às vezes não compensa — afirma.
No vídeo, Jailson usa as esporas para subir na araucária e carrega uma haste de alumínio, que é usada para derrubar as pinhas.
Segundo ele, há dificuldades técnicas para adaptar os equipamentos existentes às características das araucárias, que variam em espessura e possuem galhos que dificultam o uso de cintos e cordas. Ainda assim, Jailson chama atenção:
— Mesmo que leve mais tempo, quem está começando na atividade precisa tomar esses cuidados.
Em 2025, duas pessoas morreram durante a colheita
A colheita do pinhão resulta, todos os anos, em ocorrências com feridos e mortes, afirma o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. Entre os principais acidentes estão quedas de grandes alturas, choques elétricos, queda de galhos e casos de pessoas que ficam presas nas árvores sem conseguir descer.
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Em 2025, ao menos oito casos de queda foram registrados em Santa Catarina. Entre eles, dois foram fatais: a morte de um homem de 82 anos, em Anita Garibaldi, e de outro, de 49 anos, em São Joaquim.
Já neste ano, um acidente fatal envolvendo a colheita foi registrado na última quinta-feira (16), em Painel. O vereador Edu Vieira de Melo (PP) morreu após cair de uma araucária.
De acordo com o executivo municipal da cidade, que é reconhecida como a Capital Nacional do Pinhão, o vereador estava em cima da árvore quando caiu. Não se sabe exatamente de qual altura foi a queda, mas uma araucária possui mais de 20 metros de altura.
— Todo ano acontecem acidentes durante a colheita. São árvores muito altas — afirma o gerente regional da Epagri Lages, José Márcio Lehmann.
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Perigos vão de quedas à risco de choque elétrico
Órgãos públicos e especialistas alertam para os perigos e aconselham mudanças na forma de coleta. A recomendação da Epagri, por exemplo, é o uso de cintos de segurança e atenção redobrada com araucárias próximas à rede elétrica.
O Corpo de Bombeiros também orienta a coleta de pinhões já caídos no chão e desaconselha subir nas árvores. Quando isso for inevitável, a indicação é utilizar equipamentos de proteção, como cinto de segurança, calçado com solado que dificulte o escorregamento e capacete.
Outra importante medida é não trabalhar sozinho. O Corpo de Bombeiros recomenda, ainda, evitar coletar pinhão, mesmo do chão, em momentos de chuva e tempestades, devido ao risco de raios.
Além da queda, há um perigo menos evidente: a eletricidade. A Celesc alerta que a proximidade com redes elétricas pode ser fatal, mesmo sem contato direto. Um fenômeno conhecido como arco elétrico permite que a corrente “salte” para objetos próximos, como varas utilizadas na colheita.
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O risco aumenta devido às condições da Serra, como umidade, geada e orvalho, que tornam materiais como madeira e bambu condutores de energia.
No último fim de semana, um adolescente de 16 anos sofreu um choque elétrico enquanto realizava a colheita de pinhão na cidade de Painel, na Serra de Santa Catarina. O caso ocorreu no último domingo (19). O adolescente teve queimaduras pelo corpo e perda momentânea da consciência.
Ele sofreu o choque e ficou em cima do pinheiro, a cerca de 20 metros de altura, à espera do socorro. As equipes dos bombeiros e do Samu foram até o local e encontraram o adolescente ainda na árvore, consciente e orientado, com queimaduras no rosto, mãos e costas, além de relatar ter perdido a consciência por um momento.
A vítima contou que manuseava um cano de alumínio e que se aproximou da rede elétrica quando sofreu o choque. Segundo os bombeiros, o adolescente teve cerca de 20% da superfície corporal queimada.
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Através do uso de equipamentos de salvamento em altura e cadeirinha de resgate, os bombeiros conseguiram chegar até a vítima e retirá-la do local em segurança até o solo. A operação levou cerca de 30 minutos e a vítima foi encaminhada ao hospital para acompanhamento médico.
Escassez da semente pode aumentar riscos de queda
Segundo estimativa do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), a safra deve chegar a 3,7 mil toneladas, uma queda de 32% em relação ao ano anterior. De acordo com a Celesc, a escassez pode levar o extrativista a arriscar-se em pinheiros de difícil acesso ou perigosamente perto da fiação.
— O risco não escolhe tensão. O perigo está tanto nos cabos que alimentam os transformadores, de média tensão, quanto nos que chegam às residências, de baixa tensão. Qualquer contato ou mesmo a proximidade pode ser fatal. Em solo úmido, condição comum nas manhãs da serra, o risco é ainda maior — alerta Helton Julio Perraro, gerente de Segurança, Saúde e Bem-Estar da Celesc.
Apesar das recomendações, o método de coleta segue praticamente inalterado. Para o extrativista Jailson de Liz Rosa, os anos de prática são seu principal instrumento de segurança. Antes de subir, ele utiliza a experiência acumulada há mais de três décadas para analisar a árvore, verificar galhos secos e possíveis falhas na casca.
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— O tempo que ficamos para amarrar o equipamento, às vezes não compensa. Mas eu penso que para quem está começando, deve usar o equipamento, pois a pessoa que não tem muita prática — considera Jailson.
* Sob supervisão de Luana Amorim








