O novo salário mínimo de R$ 1.621,00 está em vigor no Brasil desde 1º de janeiro. Embora o primeiro pagamento com o reajuste só ocorra em fevereiro, podemos dizer que o impacto no bolso é imediato: o trabalhador já enfrenta os preços de janeiro com um poder de compra que parece não ter saído do lugar. Na prática, mesmo com o aumento, o valor reajustado é realmente “mínimo”: ele cobre somente 23% do necessário diante do custo de vida.
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O montante de R$ 1.621,00 serve de baliza para a remuneração e benefícios de 60,3 milhões de pessoas no país. Esse grupo abrange desde aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) até trabalhadores da iniciativa privada e informais. O reajuste seguiu a política de valorização real: a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que fechou em 4,18%, somada à variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores — limitada pelo teto de 2,5% das regras fiscais vigentes.
Mesmo assim, há um abismo entre o valor definido e o que seria o “mínimo digno”, conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
“Mínimo oficial” vs. “mínimo digno”
O contraste mais severo vem dos dados do Dieese. Segundo a entidade, para suprir as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas, o salário mínimo “ideal” deveria ser de R$ 7.067,18. Na prática, a distância entre o valor decretado e o que o custo de vida exige criou um “fosso” de R$ 5.446,18 mensais.
Isso significa que os R$ 1.621 que começarão a cair nas contas em fevereiro cobrem apenas 23% do necessário para uma vida digna. Conforme reportado pelo jornal Estadão, essa discrepância força as famílias a escolhas dramáticas, priorizando o prato de comida em detrimento de saúde ou educação.
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Florianópolis e São Paulo lideram o custo da sobrevivência
A metodologia do Dieese baseia-se no valor da cesta básica na capital mais cara do país. Atualmente, Florianópolis e São Paulo se alternam no topo desse ranking. A capital catarinense consolidou-se como a segunda mais cara do Brasil, impulsionada pela alta em itens básicos.
“O trabalhador sente o peso de uma inflação seletiva: enquanto eletrônicos podem baixar, itens básicos como arroz e feijão acompanham o ritmo das commodities”, aponta análise técnica do setor.
Por que a sensação é de que o salário “encolhe”?
Embora o número no contracheque seja maior, o poder de compra é corroído por dois fatores principais:
- Inflação de itens essenciais: o g1 destaca que, enquanto o índice oficial — o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — pode parecer controlado, a “inflação do prato feito” frequentemente corre acima da média, punindo quem ganha menos.
- O “teto” da recuperação: a política atual garante aumento real, mas o limite de 2,5% de ganho real impede uma correção rápida das perdas históricas. Segundo a revista Exame, seriam necessárias décadas de crescimento para que o mínimo oficial convergisse para o valor do Dieese.
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*Vale destacar que o IPCA mede a inflação geral (consumo amplo), enquanto o INPC (usado no reajuste) foca nas famílias de baixa renda.
O ciclo do endividamento: onde o dinheiro escapa
Com o salário mínimo insuficiente, o recurso ao crédito tornou-se uma ferramenta de sobrevivência. De acordo com reportagem do g1, o Brasil atingiu o recorde de quase 72 milhões de inadimplentes, um cenário agravado pela alta dos alimentos. Como os preços permanecem elevados, famílias usam o cartão para despesas básicas, gerando juros que drenam a renda futura.
Os números de 2026 em detalhes
- Salário mínimo 2026: R$ 1.621,00
- Reajuste nominal: 6,79%
- Salário ideal (Dieese): R$ 7.067,18
- O “abismo” (diferença): R$ 5.446,18
- Poder de compra coberto: 22,9%
O que mais “drena” o orçamento
Para quem vive em cenários onde a cesta básica é “cara”, alguns itens pesam mais no bolso quando tomamos como referência o salário mínimo. Veja alguns exemplos práticos:
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1. Alimentação (a cesta básica)
É o item de maior peso. Em capitais como Florianópolis e São Paulo, a cesta básica compromete mais de 50% do salário mínimo líquido (após o desconto do INSS).
- Proteínas: carne bovina, frango e ovos tiveram altas acima do índice geral. O ovo, muitas vezes a única proteína acessível, sofre com o custo da ração (milho e soja);
- Hortifruti: itens como tomate, cebola e batata são extremamente voláteis. Uma semana de chuva excessiva em Santa Catarina, por exemplo, pode elevar o preço da alface em 30% em poucos dias.
2. Habitação e energia
- Aluguel: em Florianópolis, o mercado imobiliário é pressionado pelo turismo, o que empurra os trabalhadores para as periferias ou cidades vizinhas (Palhoça, Biguaçu);
- Conta de luz: além do consumo, as “bandeiras tarifárias” (causadas por secas ou crises energéticas) atingem proporcionalmente mais quem tem renda fixa, já que a geladeira e o chuveiro consomem o mesmo, independentemente do salário.
3. Logística de sobrevivência
- Gás de Cozinha: o botijão de 13 quilos é um dos itens mais “cruéis” no orçamento. Em muitas regiões, ele já custa cerca de 8% a 10% de um salário mínimo;
- Transporte: para quem mora longe do trabalho, o gasto com passagens (ou combustível para moto/carro antigo) é fixo e inegociável.
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4. Higiene e limpeza
- Sabão em pó, detergente e papel higiênico são produtos que sobem muito acima da inflação média. Porém, são itens que não podem ser “cortados”, e que não têm substitutos baratos de longo prazo.
“O valor do salário mínimo é muito baixo no Brasil”, afirma Lula
Em cerimônia de 90 anos do salário mínimo no Brasil, o próprio presidente Lula (PT) reconheceu que o valor é insuficiente. Confira:

