O sono, como um único bloco de oito horas, considerado hoje o padrão ideal de saúde, é, na verdade, uma construção recente da era industrial que ignora a biologia humana. É o que apontam pesquisas lideradas pelo historiador A. Roger Ekirch e experimentos clínicos do Dr. Thomas Wehr, do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), sobre o “sono bifásico”.

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O sono bifásico, ou seja, dividido em dois turnos com um intervalo de vigília, foi o padrão predominante da humanidade por milênios. A investigação histórica de Ekirch aponta que, até o final do século XVII, o descanso era segmentado entre o “primeiro sono” (logo após o crepúsculo) e o “segundo sono” (até o amanhecer). Entre esses dois períodos, havia cerca de uma hora de “vigília silenciosa”, momento em que as famílias realizavam tarefas domésticas, rezavam ou refletiam sobre sonhos.

A teoria científica

A teoria ganhou força com um experimento do Dr. Thomas Wehr. Ao submeter voluntários a um ambiente sem luz artificial por 14 horas diárias, simulando o período de escuridão do inverno pré-industrial, os indivíduos naturalmente passaram a dormir em dois blocos. O padrão observado foi de quatro horas de sono, seguidas por até três horas de vigília e, por fim, mais quatro horas de repouso.

As análises científicasa sugerem que a fragmentação do sono que muitos hoje diagnosticam como insônia pode ser, na verdade, o padrão natural do corpo tentando emergir em um mundo artificial.

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O impacto da luz artificial

A mudança drástica ocorreu com a popularização da iluminação a gás e, posteriormente, da eletricidade. Ao “transformar a noite em dia”, a tecnologia comprimiu o tempo de repouso e forçou o cérebro a consolidar o sono para se adequar às jornadas de trabalho industriais.

Para os especialistas, essa transição nos afastou de um canal vital de comunicação com o inconsciente: os sonhos. No modelo bifásico, as pessoas despertavam logo após o estágio REM (fase dos sonhos mais vívidos), o que permitia uma recordação e processamento emocional muito mais profundos do que os experimentados na atualidade.

Porém, do ponto de vista da medicina do sono contemporânea, acordar repetidamente durante a noite pode impedir que você complete ciclos de sono profundos e restauradores de forma eficiente, especialmente se o tempo total de cama for curto.

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