O recente alerta sanitário emitido no Rio Grande do Sul em 17 de abril, confirmando focos de raiva herbívora em Tiradentes do Sul e São Nicolau, é preocupante. Embora o alerta citado esteja em solo gaúcho, a dinâmica do vírus da raiva não respeita fronteiras geográficas, e a proximidade com o nosso estado mantém as autoridades sanitárias em atenção constante.
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Em Santa Catarina, a raiva em herbívoros é uma realidade monitorada de perto pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (CIDASC), que registrou focos em bovinos em municípios como São Bento do Sul (dezembro de 2025), Major Gercino (junho de 2025) e Mafra (março de 2024).
Esses registros reforçam que o vírus circula em nosso território através de morcegos, tornando o alerta vizinho um sinal para que os produtores catarinenses mantenham a vacinação de seus rebanhos rigorosamente em dia.
Letalidade da raiva humana é perto de 100%
Para compreendermos a gravidade desse cenário, a raiva humana trata-se de uma encefalite, ou seja, uma infecção no cérebro progressiva e aguda, causada pelo vírus do gênero Lyssavirus, que ataca o sistema nervoso central com uma taxa de letalidade que beira os 100%.
A transmissão ocorre quando a saliva de um mamífero infectado, seja um morcego, um animal de produção ou um cão e gato, entra em contato com o sangue humano através de mordidas, arranhaduras ou lambeduras em pele lesionada.
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Embora Santa Catarina tenha passado décadas sem registros de raiva humana, o caso fatal ocorrido em Gravatal em 2019, após a mordida de um gato infectado, serviu como um trágico lembrete de que o risco é real.
Quais os sintomas da raiva em humanos?
Os sintomas iniciais da raiva em humanos podem ser sutis, como mal-estar e alterações de sensibilidade no local do ferimento, mas evoluem rapidamente para quadros de agitação, espasmos musculares involuntários ao tentar deglutir líquidos (a chamada hidrofobia) e paralisia.
Uma vez que os sintomas clínicos aparecem, a cura é praticamente inexistente, com pouquíssimos casos de sobrevivência documentados no mundo.
Casos no Brasil
Em 2025 o Brasil registrou três casos de raiva humana, todos com desfecho fatal, no estado de Pernambuco, Ceará e Amapá. O perfil dessas infecções mostra uma mudança no perfil epidemiológico da doença: o desaparecimento do ciclo urbano (transmitido por cães) e a predominância do ciclo silvestre (transmissão por animais selvagens).
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Em um dos casos, em Pernambuco, a paciente foi mordida por um sagui e só buscou ajuda quando os sintomas já eram irreversíveis. No Amapá, o vírus identificado em um primata tinha origem em morcegos, mostrando como a cadeia de transmissão na natureza é complexa.
Regra de ouro é a prevenção
Por isso, a regra de ouro na infectologia é a prevenção: a vacinação anual de animais domésticos e de produção é a nossa principal barreira.
Em caso de qualquer contato suspeito com animais silvestres ou domésticos alterados, a busca imediata por uma unidade de saúde para a profilaxia pós-exposição, que inclui vacina e, se necessário, soro antirrábico, é a única medida capaz de salvar vidas antes que o vírus atinja o sistema nervoso e cause a morte.
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.
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