A esposa de Matheus Silveira, detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) durante uma entrevista para obtenção do visto permanente nos Estados Unidos, afirma que o serviço transferiu o marido para Louisiana, mesmo após um juiz autorizar que ele deixasse o país em um voo comercial. O relato foi publicado nas redes sociais de Hannah Silveira no início da semana, e vem repercutindo na imprensa norte-americana e comovendo brasileiros.
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“Não consigo encontrar meu marido”. É assim que Hannah começa o vídeo que, até a manhã desta terça-feira (27), acumulava mais de 2 milhões de visualizações no TikTok. No relato, ela diz que o marido havia recebido autorização de saída voluntária e que a justiça determinou que ele poderia embarcar em um voo regular saindo de San Diego para o Brasil, onde o casal planejava iniciar uma nova vida.
Hannah continua dizendo que, ao acessar o aplicativo usado para se comunicar com pessoas presas pelo ICE, o perfil de Matheus desapareceu. Ao ligar para o centro de detenção de Otay Mesa, em San Diego, ela ouviu: “Nós não sabemos onde ele está”.
No vídeo, Hannah conta que a atendente disse que isso poderia significar que o brasileiro está em processo de liberação. O problema, contudo, é que ele “não tem um voo organizado, não tem comunicação com o mundo externo e vocês [o ICE] não falaram com o meu advogado para acertar a volta dele”, continuou ela ao se dirigir aos espectadores.
Veja fotos do casal
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Hannah disse que, algum tempo depois da ligação, um amigo de Matheus, que estava detido com ele, a ligou para dizer que os agentes tinham levado o marido dela para Louisiana durante a noite. Para Hannah, isso indica que o ICE está ignorando a ordem judicial que determinava um voo comercial. “Isso significa que eles vão colocá-lo em um voo de deportação saindo da Louisiana até o Rio”, desabafa.
Ela termina o vídeo questionando as autoridades sobre o porquê da informação chegar por meio de outro detido, e por que o centro de detenção afirmou não saber onde o brasileiro estava.
“Você [o ICE] sabe exatamente onde ele está e sabe que o motivo de não me dizer é porque ele não deveria estar lá. Não sei se ele está em um avião, não sei se está em um ônibus, não sei quando vou falar com ele novamente, e tudo isso está acontecendo de uma forma que nunca foi acordada pelo tribunal”, disse no vídeo.
Hannah falou, ainda, que a insistência em acompanhar o caso se deve ao receio de que outras pessoas estejam em situação ainda pior. “Se isso está acontecendo comigo, que estou em cima do caso todos os dias, imagina o que acontece com quem não tem ninguém procurando. Não consigo nem imaginar as famílias que são exploradas quando não têm como se comunicar constantemente com seus entes queridos. Estou farta dessa administração enrolando as pessoas”, termina ela.
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Assista ao vídeo publicado por Hannah
Matheus foi detido pelo ICE no dia 24 de novembro
Matheus Silveira, de 30 anos, foi detido por agentes do ICE durante uma entrevista para obtenção do visto permanente nos Estados Unidos. Ainda em janeiro, antes do vídeo relatando o desaparecimento do marido, Hannah havia dito ao g1 que estava com o “coração partido” por ter que escolher entre o marido ou o país que nasceu e serviu ao Exército.
Apesar da dor, ela havia tomado a decisão de vir para o Brasil, para onde o marido voltaria. Ela disse que não se sentia mais segura em solo americano.
Veterana do Exército, Hannah é americana e atualmente trabalha como advogada na Califórnia. O casal está junto desde 2022, e se casou em agosto de 2024. Eles se conheceram depois que ela se mudou para a Califórnia para estudar Direito após deixar o Exército, onde atuou por dois anos como paramédica.
Com o marido preso há dois meses e o termo de autodeportação foi assinado por Matheus, Hannah iria se mudar para o Brasil, onde teria que recomeçar a vida profissional já que a formação de Direito dela não tem certificação no país.
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— É de partir o coração saber que dei tanto pelo meu país e eles não têm problema nenhum em me tirar o meu marido e me forçar a escolher entre o meu país e ele — desabafou.
De acordo com a mãe de Matheus, Luciana de Paula, ele assinou o termo de autodeportação na última semana. Segundo ela, ele foi informado de que o processo deve terminar em algumas semanas. Matheus não pode voltar para os Estados Unidos dentro de 10 anos.
Nesse tempo preso, Hannah, que o visitou, conta que ele perdeu peso e que a alimentação “não é suficiente para um homem adulto, como se servissem lanches estudantis”.
Ela também relatou que ele está preso em uma cela onde cabem 16 camas, mas que, por superlotação, chegou a dormir no chão por dias. A mãe fala em apreensão enquanto o filho não chega.
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— Dois meses ele nessa situação é muito tempo, é muito tempo pra mim, é muito tempo pra ele, é muito tempo pra todos nós. Então, a gente só tá pensando agora na chegada dele aqui, urgente, o mais rápido possível — afirma Luciana.
Luciana conta que Matheus tem o sonho de ser piloto de avião, curso que começou ainda no Brasil e pretendia continuar nos Estados Unidos depois que aperfeiçoasse o inglês. O visto dele de estudante venceu em 2023 e ele deu entrada no green card em 2024, logo após o casamento com Hannah.
Entenda como ocorreu a prisão
Matheus foi preso em 24 de novembro de 2025, durante uma entrevista para obtenção de green card (residência permanente) em um escritório do U.S. Citizenship and Immigration Services (USCIS) em San Diego, Califórnia — etapa final do processo migratório. Hannah estava com ele.
Ela afirmou que era a última etapa antes da aprovação da residência permanente legal e que o pedido tinha sido aprovado, mas que em algum momento da entrevista a agente que conduzia disse que “pessoas no corredor” aguardavam por eles.
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Nesse momento, Hannah afirma que quatro agentes do ICE invadiram o escritório e o prenderam, alegando que tinham um mandado de prisão relacionado ao fato de ele ter permanecido no país após o vencimento do visto.
Matheus continua sob custódia no Centro de Detenção de Otay Mesa, em San Diego, e ganhou direito à saída voluntária dos Estados Unidos, em vez de deportação.
O acordo de saída impede Matheus Silveira de retornar aos Estados Unidos por 10 anos. A secretária-assistente do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, confirmou ao Newsweek que Matheus Silveira permaneceria sob custódia do ICE enquanto aguardava os procedimentos de remoção.
Na nota, McLaughlin disse que Matheus foi preso em 24 de novembro como um “estrangeiro ilegal criminoso do Brasil que permaneceu no país após o vencimento do visto de estudante F-1”. Em contato com o g1, a família criticou o emprego do termo “criminoso” e disse que ele não tem nenhuma anotação criminal.
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A esposa de Matheus relatou que o visto dele venceu durante a pandemia de coronavírus. O g1 tenta contato com o ICE desde sexta-feira (23), mas não teve retorno.
O NSC Total procurou o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, para questionar a pasta sobre a situação de Matheus. Em nota, o ministério afirmou que presta assistência consular ao nacional brasileiro e a seus familiares. A pasta, contudo, não forneceu mais informações sobre o paradeiro de Matheus ou a forma que a família dele está sendo assistida, com a justificativa de que “não divulga informações pessoais de cidadãos que requisitam serviços consulares e tampouco fornece detalhes sobre a assistência prestada a brasileiros”.
Leia a nota do Itamaraty na íntegra
“O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral em Los Angeles e do Consulado Honorário em San Diego, presta assistência consular ao nacional brasileiro e a seus familiares.
O atendimento consular prestado pelo estado brasileiro é feito a partir de contato do cidadão interessado ou, a depender do caso, de sua família. A atuação consular do Brasil pauta-se pela legislação internacional e nacional. Para conhecer as atribuições das repartições consulares do Brasil, recomenda-se consulta à seguinte seção do Portal Consular do Itamaraty.
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Em atendimento ao direito à privacidade e em observância ao disposto na Lei de Acesso à Informação e no decreto 7.724/2012, o Ministério das Relações Exteriores não divulga informações pessoais de cidadãos que requisitam serviços consulares e tampouco fornece detalhes sobre a assistência prestada a brasileiros”.
*Com informações do g1






