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    Eleições 2020

    “O racismo é velado em Joinville”, diz primeira vereadora negra eleita na cidade

    Ana Lúcia Martins (PT) foi eleita com 3.126 votos no último domingo

    17/11/2020 - 14h32 - Atualizada em: 17/11/2020 - 16h08

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    Patrícia
    Por Patrícia Della Justina
    Ana Lúcia tem 54 anos e atuou como servidora pública desde jovem
    Ana Lúcia tem 54 anos e atuou como servidora pública desde jovem
    (Foto: )

    Nascida e criada no bairro Floresta, zona Sul de Joinville, Ana Lúcia Martins (PT) é a primeira vereadora negra eleita na maior cidade de Santa Catarina. Aos 54 anos, Ana Lúcia atuou como servidora pública e tem uma história marcada pela luta contra o racismo, desenvolvimento na educação, além de diversos desafios que precisou enfrentar desde muito cedo.

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    Ela recebeu 3.126 votos e é a sétima mais votada dentre os 19 vereadores eleitos para o Legislativo da cidade. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, suas principais pautas giram em torno da educação, cultura, promoção da igualdade racial, defesa do serviço e dos servidores públicos, dos refugiados, da população LGBTQI+, da juventude e, prioritariamente, de todas as mulheres.

    Racismo velado

    Desde criança, Ana sentiu na pele os impactos do racismo. Ela conta que na escola era comum outras crianças a isolarem, por exemplo. Ou ser chamada por apelidos pejorativos pela própria vizinhança, como “macaca”, "resto de asfalto”, "negrinha”, dentre outros.

    - O racismo sempre esteve presente na minha vida desde que saí de casa para frequentar a escola. Infelizmente, essa é a realidade da maioria das crianças negras. Passar o recreio sozinha nos cantos da escola, enfim. Não foram poucas as experiências racistas. É nesses espaços que entendemos a importância do movimento negro. Não tem como ficar mais evidente o racismo das pessoas. Não tem como não identificar no olhar, nos gestos. O racismo é velado em Joinville - ressalta.

    Aos 16 anos, Ana se tornou mãe. Antes de atuar na educação, já que seu maior sonho era ser professora, a vereadora eleita também foi empregada doméstica, babá e vendedora. Após passar pelo magistério, Ana começou a trabalhar na educação infantil, depois partiu para o ensino fundamental como educadora física e, depois, passou a dar aulas de dança para alunos do ensino municipal de Joinville.

    No fim da década de 1980 ela entrou para o movimento negro como simpatizante. Foi nesse ambiente que Ana Lúcia começou a perceber ainda mais a necessidade da luta contra o racismo enquanto uma ação política. Ela participou da primeira organização de mulheres negras de Joinville, o Coletivo Ashanti.

    - As mulheres e, principalmente, as mulheres negras precisam estar no poder – destaca.

    Outro exemplo vivenciado por Ana diz respeito ao período em que foi casada com o advogado e consultor da Câmara de Vereadores de Joinville, Maurício Eduardo Rosskamp, vítima de um latrocínio em dezembro de 2018 em Joinville. Com ele, Ana teve um filho, atualmente com 16 anos, e conta que os episódios racistas eram ainda mais evidentes.

    - Eu sentia o olhar das pessoas nos locais onde frequentávamos. Meu marido vinha de uma família rica e a realidade dele era totalmente diferente da minha. Meu filho tem o tom de pele mais claro que o meu. Ele é pardo, mas não deixa de ser negro. As pessoas sempre se direcionavam a mim como cuidadora ou babá dele, nunca viram a possibilidade de eu ser a mãe. Não me agrediam  verbalmente, o racismo geralmente é velado, mas esse tipo de situação não acontece com mulheres não negras – detalha.

    Desafios e principais pautas

    Entre 2017 e 2018, o nome de Ana passou a surgir como possibilidade à candidatura enquanto vereadora dentro do partido. 

    Neste ano, após ser eleita vereadora, Ana Lúcia também fala sobre a responsabilidade e os desafios que deve enfrentar dentro da Câmara por representar um partido mais à esquerda com relação aos demais. 

    - Não vamos abrir mão de trazer ao centro a população mais vulnerável. Acreditamos que possa haver uma sensibilização para que a atuação da Câmara seja para todas as pessoas da cidade, não para grupos específicos. Se a gente pensa desenvolvimento, equilíbrio para a cidade, com menor número de violência, precisamos olhar pra esses grupos excluídos - afirma. 

    Ela considera que a falta de acesso à educação de qualidade, ao trabalho, à moradia, ao próprio acesso à cidade, resultam em aumento da violência.  

    - É preciso investir em educação, serviço público qualidade, políticas públicas que venham suprir essas necessidade porque o impacto é a longo prazo. É preciso pensar em habitação para quem vive condição subumana. Temos pessoas morando em condições subumanas em vários bairros de nossa cidade. Justamente nessas condições está a populção negra - ressalta. 

    Representatividade feminina no Legislativo 

    Ana Lúcia também considera que a cidade passou por uma regressão com relação à representatividade feminina no poder, tanto em comparação com os mandatos atuais e anteriores, quanto às demais regiões brasileiras que apresentaram aumento nessa representatividade. 

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    Atualmente Joinville possui três mulheres vereadoras. A partir do próximo ano serão apenas duas: Ana Lúcia (PT) e Tânia Larson (PSL).  

    Ela também ressalta que a morte de Marielle Franco em 2018 impulsionou ainda mais a necessidade da representatividade de mulheres negras, além de justificar esse aumento, especialmente em partidos mais à esquerda em todo o Brasil.

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    - As necessidades das mulheres negras são diferentes das mulheres brancas ou não negras. Podíamos ter escolhido um homem negro como representante, mas decidimos escolher uma mulher negra. Está na hora das mulheres falarem por elas - pontua. 

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