Cada bairro, cada cantinho da Ilha conta com uma característica própria, um mundo à parte, com seus costumes, tradições, paisagens, e estilos de viver, diversidade que acolhe que vem de todo canto. Neste aniversário de Florianópolis (23) o NSC Total celebra os 353 anos da cidade com quatro perfis que representam os quatro cantos da ilha. Confira abaixo:
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De família açoriana, uma das que vieram para o Sul da Ilha de Florianópolis em 1748, Arante José Monteiro Filho, o Arantinho, é filho de Seu Arante, do famoso “bar dos bilhetinhos” no Pântano do Sul. Em funcionamento desde 1958, o Bar do Arante é um dos restaurantes mais tradicionais e conhecidos da Capital.
Arantinho conta que os antepassados, de origem açoriana, chegaram principalmente no Ribeirão da Ilha, e dali se espalharam pelo Sul da Capital. A sua família ficou na praia do Pântano do Sul, onde até hoje reside. O sobrenome, Monteiro, tem origem na Ilha Terceira, nos Açores.
Os avós eram agricultores e pescadores, e trabalharam nesses ramos até 1957, quando o seu pai, Arante José Monteiro, casou-se com Osmarina Maria Monteiro, sua mãe. No ano seguinte, abriram uma “vendinha”, que depois virou um bar, depois um restaurante, e se transformou, finalmente, no Bar do Arante.
— Se formou mesmo como bar e restaurante a partir da década de 70, quando começaram a aparecer aqui os turistas, que vinham aqui pro Sul da ilha, tanto as pessoas aqui da nossa cidade, que não conheciam o Sul da ilha, quanto pessoas que vinham de Porto Alegre, São Paulo e de outros estados, e depois até de outros países — relembra.
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Como os bilhetes surgiram
Nessa época, o turismo na região era principalmente de acampamento. Muitos estudantes, encantados com a beleza das praias preservadas da região, por ali montavam seus acampamentos, em uma época em que a prática também era autorizada. Os bilhetinhos surgiram então como uma espécie de meio de comunicação, em um período sem telefones.
— Eles vinham acampar e aqui não tinha estrada direito, aqui não tinha telefone. Então eles já sabiam que vinham outras pessoas depois, também procurar por eles, procurar onde eles estavam acampando. Vinha o namorado, vinha a namorada, vinha o pai, vinha a mãe. Então eles queriam fazer um bilhetinho para dizer onde é que estavam acampados, para o meu pai botar na gaveta, porque ia vir alguém depois procurar — explica Arantinho.
Assim nasceu a tradição que tornou o espaço tão especial. Ao longo dos anos, milhares de bilhetinhos se acumularam nas paredes do bar. O local se tornou ponto de referência para estudantes e viajantes, que deixavam recados anotados para quem chegasse em seguida.
A tradição da pesca no sul de Florianópolis
A pesca também desempenha papel importante na família. O avô de Arantinho era de Governador Celso Ramos, e veio para a região em 1900 para pescar. Por ali se casou e ficou, e a tradição da pesca foi passada a diante. Hoje, Armando Monteiro, irmão de Arantinho, é pescador profissional, e abastece o restaurante familiar com o pescado capturado na região.
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Ao longo do tempo, Arantinho esteve presente como forte liderança da comunidade, e lutou com conquistas como a chegada do telefone, do asfalto, e melhorias na infraestrutura. Hoje, afirma que a maior batalha é pelo esgoto, para que as praias do Sul da Ilha, que chama de “galinha dos ovos de ouro”, não fiquem poluídas.
Como equilibrar desenvolvimento e sustentabilidade
Arantinho defende o crescimento e desenvolvimento do Pântano do Sul, especialmente através da melhora da infraestrutura, porém sem perder a característica própria do bairro, da colonização açoriana, do jeito manezinho e da natureza preservada.
— A gente não quer um turismo de massa, nem construir prédios. Nós queremos que o turista venha, mas para conviver harmonicamente com o que já existe, com nós, que já existimos. Nós não precisamos ser expulsos aqui para dar lugar exclusivamente ao turismo, como aconteceu em muitas praias daqui de Florianópolis — destaca.
O que é morar no sul da Ilha
A Lagoinha do Leste, lugar onde a sua mãe nasceu e o avô possuía engenho, é o seu preferido na Ilha. Muito pela preservação, que continua, e remete a como era o local há 40 anos, em sua juventude.
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Ainda, explica que ele, como muitos moradores mais antigos, e especialmente do interior da Ilha, não dizem que moram em Florianópolis, e sim em uma localidade específica, como o Pântano do Sul, o Ribeirão da Ilha, ou a Barra da Lagoa. A “cidade”, no caso, a região central da Capital, é vista de forma separada da comunidade.
— Demorou muito até pra cidade nos reconhecer, pra dizer que nós também somos parte da cidade. Agora a cidade está se integrando com o interior da ilha, coisa que era muito difícil há 10 anos. Era tudo fragmentado mesmo. Agora a cidade tá reconhecendo que nós existimos — diz.





