A queda de uma das maiores araucárias do país mobilizou pesquisadores em Santa Catarina para tentar preservar o material genético da árvore centenária. Conhecida como “Pinheirão”, a araucária que tombou em Caçador, no Meio-Oeste catarinense, era considerada a quarta maior do Brasil e agora pode dar origem a clones produzidos em laboratório.

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A árvore ficava na Estação Experimental da Embrapa Florestas, em uma área compartilhada com a estação da Epagri. Com 44 metros de altura e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito, o exemplar era monitorado por pesquisadores há décadas e se tornou referência em estudos sobre árvores gigantes da Mata Atlântica.

A mobilização começou logo após a constatação da queda. Uma equipe da Embrapa foi até o local para coletar brotações ainda viáveis, na tentativa de resgatar o DNA da araucária e realizar enxertias em laboratório. O processo deve levar cerca de cem dias até a confirmação de sucesso.

Segundo o pesquisador Ivar Wendling, o ideal seria que a coleta ocorresse entre cinco e dez dias após o tombamento, mas ainda foram encontradas estruturas vivas capazes de sustentar o experimento genético.

O objetivo é preservar características consideradas raras da espécie, como o crescimento excepcional, a longevidade e a resistência natural da árvore. Parte do material coletado veio da copa da araucária, região de difícil acesso enquanto ela ainda permanecia em pé.

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Para o gerente da estação da Epagri em Caçador, Anderson Feltrim, a árvore tinha importância que ultrapassava o valor científico.

— Assim que constatamos a queda, acionamos a Embrapa, pois entendemos o valor científico de estudá-la — afirmou.

A tentativa de clonagem segue um modelo já aplicado anteriormente no Paraná, quando uma araucária monumental caiu em Cruz Machado e teve parte do material genético preservado pela mesma equipe de pesquisadores.

Idade nunca foi confirmada

A idade exata do Pinheirão nunca pôde ser determinada. O tronco oco impedia a aplicação da dendrocronologia, método que estima a idade por meio da contagem dos anéis de crescimento da madeira.

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Agora, com a árvore caída, pesquisadores devem retirar discos do tronco em uma área ainda preservada, cerca de cinco metros acima da base. Mesmo assim, o resultado indicará apenas uma idade mínima, já que os primeiros anos de crescimento não estarão registrados nessa parte da árvore.

Árvore era símbolo para pesquisadores

Desde o início dos anos 2000, o Pinheirão fazia parte da rotina de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que visitavam a estação experimental em Caçador. O local recebeu representantes de instituições internacionais e universidades interessados no estudo da Floresta Ombrófila Mista e das árvores gigantes do Sul do Brasil.

O exemplar também foi um dos destaques do projeto “Reinvenção da Natureza”, do Sesc, que percorreu árvores monumentais de Santa Catarina. O fotógrafo Zé Paiva e o cinegrafista Gustavo Fonseca fizeram os últimos registros oficiais da araucária ainda em pé, em novembro de 2025.

Mudanças climáticas podem explicar tombamento

O professor Marcelo Callegari Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina, coordena um levantamento de árvores gigantes no Sul do país e também estuda os impactos climáticos sobre essas espécies.

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Segundo pesquisas recentes, o aumento de chuvas extremas pode estar diretamente relacionado à queda de árvores centenárias. A saturação do solo comprometeria a sustentação das raízes, especialmente em exemplares de grande porte e copas largas, como as araucárias monumentais.

O estudo aponta ainda que eventos associados ao El Niño têm ampliado a vulnerabilidade dessas árvores, consideradas patrimônios ecológicos e históricos da Mata Atlântica.