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Opinião

Atacar o jornalismo é celebrar a pandemia

03/11/2020 - 05h00 - Atualizada em: 03/11/2020 - 11h20

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Por Marcelo Barcelos
agressão repórter praia de Florianópolis
Equipe da NSC TV foi agredida enquanto fazia reportagem em praia de Florianópolis
(Foto: )

No dia em que o Brasil ultrapassa os 160 mil mortos por coronavírus, e que Santa Catarina aparece como único estado do país com alta no número de óbitos (aumento de 38%!), as cenas de agressão contra a equipe da NSC TV, na praia do Campeche, comprovam uma situação dramática: perdemos mais um pouco a sanidade, a humanidade e o desejo de lutar pela vida. E isso não pode passar batido. 

Atos como este, que lembram tempos sombrios de um Brasil autoritário e censurado, tempos que alguns teimam em querer ressuscitar, não podem ser normalizados. Precisam ser combatidos, condenados e responsabilizados, reforçando o valor democrático de uma imprensa livre, autônoma e voltada ao interesse público, por mais que isso desagrade, incomode ou, neste caso, exponha que uma ida à praia - sem os cuidados necessários - vai custar caro.

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Gostar ou não de uma cobertura ou de reportagem é comportamento legítimo. Agora, atacar, agredir e tentar silenciar a narrativa noticiosa (condenável) de uma pandemia descontrolada, cena gravada pela equipe da NSC, é crime! Uma violação constitucional, que fere o Art.220. E que não atenta apenas contra a coletividade e às regras já tão descumpridas de uma pandemia global (e moral), mas um crime ignorante à própria vida.

Impedir que o exercício do jornalismo seja realizado de forma livre, ética e correta, sobretudo revelando o flagrante do desrespeito das medidas sanitárias enfraquecidas pelos gestores públicos, não fará com que a pandemia acabe. Impedir que a população seja informada e tenha a oportunidade de refletir sobre o próprio comportamento irresponsável, não nos levará sequer a uma “falsa normalidade”.

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Pelo contrário, o ódio que cresce diante da liberdade de imprensa e à leitura nua e crua da incivilidade celebrada pelo negacionismo científico, trarão mais prejuízos irreparáveis, materializados na escalada de mortes, da vítima desconhecida ao/a familiar/amigo/a. Depois, no fechamento de mais e mais empresas. Na sequência, no sepultamento solitário do que restar da nossa humanidade.

Por tudo isso, o jornalismo precisa caminhar destemido, sem pedir licença ou autorização, firme e forte, como bravamente defenderam a repórter Bárbara Barbosa e o cinegrafista Renato Soder neste ataque vil, covarde e simbólico. Ali, claramente, a pandemia mostrou que, mesmo sepultando 160 mil mortes no Brasil e Santa Catarina figurando como o lugar mais soberbo à Covid-19, na atualidade, não evoluímos em nada.

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A prova disso, a gente conhece (ou faz que não vê) daqui a 15 dias. Às vésperas de uma temporada de verão insólita e altamente mortal, o único desejo possível, neste momento, é que o bom jornalismo resista e, em alguma medida, ajude-nos a tomar decisões objetivas de preservação da vida. 

Tudo indica que não vimos nada do que está por vir. Para dezenas ou centenas de doentes, à espera de um leito de UTI superlotada como agora, talvez nem dê tempo, infelizmente.

*Por Marcelo Barcelos Jornalista, doutor em Jornalismo e professor da UFSC

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