O caso de um homem em situação de rua atacado com uma arma de choque por dois estudantes de direito, em Belém, ganhou repercussão nas redes sociais após a circulação de vídeos das agressões.

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Diante da divulgação das imagens, o Ministério Público Federal (MPF) abriu, na segunda-feira (13), uma apuração para investigar o ataque. A medida foi adotada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) no Pará, que também determinou o envio de um pedido de informações à universidade para onde o suspeito teria retornado após o crime, com prazo de 48 horas para resposta.

Além disso, o MPF informou que fará uma representação criminal ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), que deverá apurar o caso na esfera penal.

Ataques são frequentes, diz moradora

Uma moradora que vive na área onde o ataque ocorreu afirmou ao g1 que as agressões contra a vítima são frequentes e vêm se intensificando desde o início de 2026.

Segundo relato dela, grupos de jovens chegam ao local em carros de luxo e praticam atos de violência contra o homem em situação de rua, arremessando bombinhas, garrafas e utilizando jatos de extintor de incêndio. Não há confirmação se os estudantes citados participaram dessas outras ações.

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— Eles usavam aquelas bombinhas de São João. Jogaram umas 3, 4 vezes. Eles davam voltas no quarteirão, jogavam, riam, davam volta de novo, até que na quarta vez eles vieram já com extintor — relatou a moradora sobre agressões registradas em fevereiro.

A mulher, que prefere não ser identificada, afirma que os episódios começaram ainda em janeiro e que grupos de jovens vêm gravando vídeos de “trotes”, usando o homem como alvo.

— Esse comportamento da vida do morador em situação de rua ser tratado como chacota em vídeo é corriqueiro, vem desde janeiro — disse.

Ela afirma que as agressões já foram registradas em boletim de ocorrência. Moradora do bairro há cerca de dez anos, ela contou que, na madrugada de 16 de fevereiro, acordou assustada com estrondos que pareciam tiros.

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— Vi um carro branco avançando na via e, em seguida, pessoas no veículo jogando uma garrafa com líquido em direção ao homem em situação de rua — disse.

No dia seguinte, segundo ela, os ataques se repetiram de forma ainda mais violenta.

— Naquele dia, os carros voltaram e os ocupantes começaram a rir, filmar com celulares e cobrir o rosto com roupas. Um rapaz desceu com um extintor de incêndio e passou a direcionar o jato em cima do homem, enquanto outras pessoas registravam a cena em vídeo — descreveu.

A moradora afirmou ainda que o homem tem problemas de saúde mental, mas não costuma causar transtornos quando não é provocado.

— Essa situação por completo me deixou muito mal. Muito mal mesmo — desabafou.

Segundo a polícia, os agressores foram identificados como Altemar Sarmento Filho, apontado como a pessoa que utilizava a arma de choque, e Antônio Coelho, que teria filmado a ação. A instituição de ensino onde os jovens estudam informou que ambos foram afastados.

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O g1 não conseguiu retorno da defesa até a última atualização da reportagem. Os dois prestaram depoimento nesta terça-feira (14). Na delegacia, o advogado de Altemar afirmou que aguardará a perícia dos vídeos e a conclusão do inquérito policial.

O homem foi atacado em frente a uma universidade particular na avenida Alcindo Cacela. Um dos estudantes foi levado à delegacia e liberado.

Agressão ao homem em situação de rua

Testemunhas relataram que entregadores de aplicativo presenciaram a cena e tentaram alcançar os suspeitos. Os estudantes correram para dentro do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), enquanto os trabalhadores foram atrás, mas não conseguiram entrar após serem impedidos por seguranças.

Em nota, o Cesupa lamentou o ocorrido e informou que adotou medidas imediatas de colaboração com as autoridades policiais. Segundo a instituição, os estudantes foram afastados de suas atividades acadêmicas e foi aberto um procedimento administrativo interno. O coordenador do curso de Direito acompanhou as providências na delegacia.

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A instituição informou ainda que o Regulamento Geral e o Código de Ética e Conduta serão aplicados para definir as punições cabíveis.

Até a última atualização da reportagem, não havia informações sobre o estado de saúde da vítima.

A Polícia Civil informou, por meio de nota, que Altemar Sarmento Oliveira Filho foi apresentado pela Polícia Militar para prestar depoimento na Seccional de São Brás. Um boletim de ocorrência foi registrado e o caso será investigado.

Na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), a deputada Lívia Duarte (Psol) enviou ofícios ao MPPA cobrando providências da reitoria do Cesupa e solicitou a abertura de inquérito criminal. Ela classificou a agressão como lesão corporal ou tortura, além de apontar humilhação e aporofobia.

“Segundo os relatos, o ato de violência gratuita teria sido perpetrado como parte de um jogo denominado ‘verdade ou desafio’, evidenciando um completo desprezo pela dignidade humana e pela integridade física de um cidadão em estado de extrema vulnerabilidade”, argumentou ela.

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Nos pedidos, a deputada também solicitou que o MPPA peça imagens do sistema de vigilância do Cesupa e colha o depoimento da direção da instituição para identificar os alunos envolvidos.

Em nota, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Executiva de Direitos Humanos, informou que acompanha o caso, acionou a Polícia Civil e notificou a instituição de ensino.

“A Prefeitura ressalta que não compactua com qualquer tipo de violação de direitos e reforça que todas as medidas cabíveis estão sendo adotadas pelas autoridades competentes. A gestão municipal também informa que a pessoa em situação de rua já foi identificada”, diz o comunicado.