José Alfredo de Campos, um dos 11 bebês que receberam antídoto para veneno de cobra por engano, morreu na última terça-feira (2) em Joinville, após quase um ano da falha na aplicação de uma vacina em Canoinhas, no Planalto Norte catarinense. Até o momento, a causa da morte do bebê, de 10 meses, está relacionada com uma doença viral que se agravou no início da semana. No entanto, a família aponta negligência no atendimento e baixa imunidade do bebê desde o episódio de erro na vacinação.
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Em julho de 2025, 11 doses de soro antibotrópico foram administradas no lugar da vacina da hepatite B no Hospital Santa Cruz de Canoinhas. Na época, nenhum dos recém nascidos apresentou complicações de saúde ou efeitos colaterais após a aplicação do soro usado contra picadas de serpentes como jararacas e jararacuçus.
Veja fotos do bebê que morreu e relembre o caso
Baixa imunidade e falta de assistência
Ao NSC Total, Leila de Campos revelou que, desde a ocasião em que o filho recebeu a dose de soro, ele passou a apresentar baixa imunidade, com idas frequentes à unidade de saúde de Major Vieira. José apresentava, em intervalos curtos de recuperação, sintomas gripais.
Após o caso, a família chegou a levar o filho até o hospital onde o erro aconteceu, mas afirmou que a assistência prestada era superficial.
— Ele não tinha uma saúde normal. Ele sempre vivia no antibiótico. […] Ele apresentava tipo sinal de “gripezinha”, que eles falavam “gripezinha”, né? Eu cheguei a levar duas vezes ele lá [no Hospital Santa Cruz de Canoinhas]. Eu moro longe, eu moro no interior de Major Vieira e nós somos pessoas simples. Eu chegava lá e eles só examinavam, “nós não podermos dar nenhum medicamento”, falavam — relata.
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Durante o período, o posicionamento do Hospital era por aguardar a evolução do caso, mas nenhum sintoma grave surgiu. Além disso, a família afirma que há um processo em andamento na Justiça, mas que não houve atualizações relevantes.
Em nota ao NSC Total, o Hospital Santa Cruz de Canoinhas manifestou profundo pesar pelo falecimento da criança. Também afirmou que a aplicação de soro antibotrópico, ocorrida em julho de 2025, correspondeu a um quantitativo de apenas 0,5 ml, não possuindo qualquer relação causal conhecida com o quadro clínico de bronquiolite, apontada como a provável causa da morte de José.

Já a prefeitura de Canoinhas, onde o caso ocorreu, esclareceu que todas as medidas de acompanhamento definidas à época foram adotadas pelos serviços responsáveis e que se solidariza com a família de Major Vieira.
Bebê apresentou quadro grave de saúde no último fim de semana
No último domingo (31), José, de apenas 10 meses, começou a apresentar febre e foi medicado pela mãe em casa. Já na segunda-feira (1º), o bebê continuou com o quadro, com percepção de piora pela mãe, mesmo após uso de remédios para conter os sintomas.
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Leila ainda relatou que levou o filho no início da noite até o Hospital São Lucas, administrado pela prefeitura de Major Vieira, onde a família mora.
— Ele estava bem caidinho, abatido e não queria comer. Ainda mamava no peito e não queria mamar e a gente conhece o filho da gente, né? Mesmo quando estava doentinho ele era bem travessinho e sempre alegre — lembra.
Na unidade de saúde, a médica identificou que o paciente estava desidratado, pálido e com saturação baixa.
— Dava para ver que ele estava, assim, bem rouco, o pulmão dele bem estufado também, sabe? Dava para ver que a respiração dele estava muito pesada. E daí ela [a médica] disse para mim: “Mas nem se preocupe, mãe, é só uma gripezinha e vamos dar um soro para ele” — conta.
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Mãe do bebê aponta negligência no atendimento
Durante o período de atendimento no hospital público, Leila relembra algumas situações que apontou como falhas. Entre elas, a mãe cita que o filho tinha uma consulta marcada em Penha com um especialista, após ter caído da escada e batido com a cabeça no mês anterior.
Para isso, precisava sair da pequena cidade do Planalto Norte às 1h30min da madrugada de terça-feira (2). Preocupada com o horário, conversou com a médica sobre o assunto, já que teria que viajar com o carro da Secretaria de Saúde de Major Vieira.
— Ela [a médica] disse: “Não, mãe, você pode ir, vamos medicar ele aqui e conforme eu avaliar, você pode ir igual na consulta”. Imagina, ela falou para mim levar o menino igual na consulta, sendo que eu vi que ele não estava bem, sabe? — argumenta.
Após a conversa, a profissional sugeriu que o bebê passasse por um exame de raio-x no pulmão. Em seguida, o resultado teria apontado um quadro de bronquiolite viral, uma infecção respiratória comum em bebês e crianças menores de 2 anos, conforme o Ministério da Saúde. A doença causa inflamação dos bronquíolos, pequenas vias aéreas dos pulmões, gerando acúmulo de secreção e dificuldade para respirar.
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— Aí eu penso comigo: “Por que eles não transferiram ele na hora? Porque esperar até o outro dia para pedir transferência?” — relata a mãe de José.
Em nota ao NSC Total, a prefeitura de Major Vieira alegou que o atendimento de José foi realizado de forma prioritária, seguindo os protocolos assistenciais vigentes para pacientes pediátricos com sinais e sintomas respiratórios. Ainda, que durante a permanência na unidade, o paciente permaneceu em observação e sob os cuidados da equipe multiprofissional de saúde, com monitoramento contínuo dos sinais vitais e avaliação clínica periódica.
A administração municipal também reforçou que, como parte da investigação diagnóstica, foi realizado exame de imagem (radiografia de tórax), cujo laudo descreveu pequena alteração em lobo inferior esquerdo, não caracterizando diagnóstico.
Piora rápida no quadro de saúde
Diante da situação, o menino foi colocado sob observação na própria unidade, sob a administração de medicamentos até às 2h, já da madrugada de terça-feira (2). Leila conta que o filho foi piorando e que não teria recebido medicamentos até às 6h da manhã.
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— Não colocaram oxigênio nele. Colocaram esse soro que ela [a médica] disse que era um antibiótico para dor. Das 2h da manhã até às 6h, meu filho ficou sem nenhum remédio. Sem nenhum remédio. Passando dor, sem oxigênio, sem nada — relata.
Transferência de hospital mobilizou equipe
Ao longo da manhã de terça, o hospital solicitou a transferência do bebê José para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville, referência na região. Para o trajeto, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado.
— Aí o Samu já chegou indignado. Até o Samu falou aqui, “como é que deixaram a criança ficar desse jeito para pedir transferência?” — conta a mãe.
Ainda no hospital, a criança foi entubada para a transferência entre cidades. No entanto, Leila foi impedida de acompanhar o filho dentro da ambulância e precisou se deslocar de carro, chegando uma hora e meia após o Samu em Joinville.
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— Eu não entendo porque eles não deixaram eu ir com ele. Eu não sei daí o que aconteceu nessas horas — lamenta.
O NSC Total entrou em contato com o órgão para esclarecer o motivo da restrição. Em nota, o Samu se solidarizou com a família e afirmou que a Superintendência de Urgência e Emergência está apurando a situação junto à equipe que prestou o atendimento.
Bebê teria chegado em Joinville “quase sem vida”
Ao chegar na recepção do Hospital Infantil, a mãe foi informada que José passava por procedimentos médicos. Cerca de 10 minutos depois, chegou a notícia que abalou a família de Major Vieira: a morte do bebê de apenas 10 meses.
— Me chamaram numa outra sala lá. Aí o médico me deu essa notícia, né, que nunca na minha vida ia esperar. Aí ele disse: “É, mãezinha, infelizmente seu filho chegou, bem dizer, sem vida aqui. Eu disse: “Meu Deus, mas como? — relembra.
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Ainda segundo a mãe, a causa da morte será confirmada por meio de um laudo em até 45 dias a partir da data de falecimento do bebê.
Em contato com o Hospital Infantil, a reportagem foi informada que, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e em respeito ao sigilo médico, a unidade não está autorizada a fornecer informações sensíveis de pacientes a terceiros.
O que diz a prefeitura de Major Vieira, na íntegra
“A Administração Pública de Major Vieira manifesta profundo pesar pelo falecimento do infante José Alfredo de Campos e solidariza-se com seus familiares neste momento de dor.
Em relação aos questionamentos apresentados, esclarece que a criança deu entrada na Emergência do Hospital São Lucas na noite do dia 1º de junho de 2026, conforme relato da mãe, apresentando sintomas iniciados na manhã do dia anterior. O atendimento foi realizado de forma prioritária, seguindo os protocolos assistenciais vigentes para pacientes pediátricos com sinais e sintomas respiratórios.
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Durante sua permanência na unidade, o paciente permaneceu em observação e sob os cuidados da equipe multiprofissional de saúde, com monitoramento contínuo dos sinais vitais e avaliação clínica periódica. Como parte da investigação diagnóstica, foi realizado exame de imagem (radiografia de tórax), cujo laudo descreveu pequena alteração em lobo inferior esquerdo, não caracterizando diagnóstico.
Diante da evolução do quadro clínico e da necessidade de suporte especializado em unidade de referência pediátrica, a equipe médica acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) para realização da transferência ao Hospital Infantil de Joinville, referência regional para atendimento de maior complexidade.
Quanto ao acompanhamento da criança durante o transporte, esclarecemos que os protocolos operacionais do SAMU são de responsabilidade da própria instituição, cabendo à equipe reguladora e assistencial definir os critérios de composição da equipe durante o deslocamento. Paralelamente, a Secretaria Municipal de Saúde providenciou o transporte da mãe até Joinville, bem como prestou todo o suporte necessário para seu acompanhamento durante o atendimento na cidade de destino.
Por fim, ressaltamos que a Secretaria Municipal de Saúde aguarda o resultado oficial da autópsia e dos exames complementares realizados pelos órgãos competentes. Somente após a conclusão destas análises será possível o esclarecimento definitivo acerca da causa do óbito e demais circunstâncias relacionadas ao caso.
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A Secretaria Municipal de Saúde permanece à disposição das autoridades competentes e da família para prestar todos os esclarecimentos necessários, reafirmando seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a qualidade da assistência prestada à população.”
O que diz o Hospital Santa Cruz de Canoinhas, na íntegra
“O Hospital Santa Cruz de Canoinhas manifesta seu profundo pesar pelo falecimento da criança José Alfredo de Campos e solidariza-se com seus familiares e amigos neste momento de dor.
A instituição tomou conhecimento do óbito por meio de contato realizado pela imprensa de Canoinhas/SC e, imediatamente, buscou informações junto aos serviços envolvidos no atendimento da criança. Até o momento existe a suspeita de uma infecção viral (bronquiolite) que provavelmente tem relação ao óbito. O caso foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) para confirmação diagnóstica.
Diante das informações que vêm sendo divulgadas, o Hospital esclarece que a aplicação de soro antibotrópico, ocorrida em julho de 2025, correspondeu a um quantitativo de apenas 0,5 ml, não possuindo qualquer relação causal conhecida com o quadro clínico de bronquiolite ou com o desfecho ocorrido. O Hospital também informa que, após o incidente envolvendo a administração inadvertida do produto, todas as crianças foram prontamente avaliadas e acompanhadas pela equipe multiprofissional durante o período de monitoramento recomendado pelo Instituto Butantan, fabricante do soro.
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Durante todo o acompanhamento, não foram observados eventos adversos graves ou alterações clínicas relacionadas ao produto administrado, sendo que todas as crianças permaneceram em boas condições de saúde ao término do período de observação. Também é necessário esclarecer que a bronquiolite causada pelo Vírus Sincicial Respiratório não possui relação com a vacina contra Hepatite B nem com a administração de soro antibotrópico, tratamentos destinados a finalidades médicas completamente distintas e sem vínculo científico com o desenvolvimento da doença.
O Hospital Santa Cruz de Canoinhas reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade na prestação de informações à comunidade e o respeito à memória da criança e à dor de seus familiares, aguardando a conclusão oficial da investigação e a confirmação da causa do óbito pelos órgãos competentes.”
*Sob supervisão de Leandro Ferreira







