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Blumenau alcança menor índice de morte de crianças em 15 anos; veja evolução

Taxa de mortalidade infantil da cidade em 2020 ficou em 6,6 para cada mil nascidos vivos

01/07/2021 - 05h32

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Talita
Por Talita Catie
Das 4.239 crianças nascidas vivas no passado, 28 evoluíram para óbito antes do primeiro aniversário
Das 4.239 crianças nascidas vivas no passado, 28 evoluíram para óbito antes do primeiro aniversário
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Blumenau alcançou o menor índice de mortalidade infantil dos últimos 15 anos. Dados da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive/SC) mostram que das 4.239 crianças nascidas vivas no passado, 28 morreram antes do primeiro aniversário. A relação entre esses dois números gera o índice de mortalidade, que serve de balizador para ações de saúde pública.

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É com base nesse cálculo que a cidade chegou a um coeficiente de 6,6 mortes a cada mil nascidos vivos. A última vez que Blumenau teve um resultado tão positivo foi em 2005. Naquele ano, com 3.899 nascidos vivos e 22 mortes, o indicador ficou em 5,6. O resultado obtido em 2020 também é significativamente expressivo se comparado com 2019. Houve uma queda de 44%.

Santa Catarina, por exemplo, fechou o ano passado com o indicador de 9,3/1000. A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que se mantenha o coeficiente abaixo de 10 para cada mil nascidos vivos. No ano retrasado, Blumenau tinha ficado em 11,8/1000, por isso o avanço é tão celebrado pela Secretaria Municipal de Promoção da Saúde.

Elisandra Dall'Agnol, coordenadora de Atenção Primária em Blumenau, considera o bom desempenho da cidade como o resultado do trabalho articulado de assistência pré-natal. Ela conta que o município trabalha com um protocolo de atendimento pactuado com a Rede Cegonha e prevê o acompanhamento considerado ideal para uma gestação. A última atualização do documento ocorreu em 2019 e pode ter refletido diretamente nos dados do ano seguinte.

— A qualidade na assistência garante cada vez melhores indicadores de mortalidade infantil e fetal no município. O protocolo prevê, por exemplo, a regularidade das consultas e os exames em cada fase. Também têm sido observados os batimentos cardiofetais nas consultas nas unidades de saúde, o que é fundamental. Que vai acontecer, isso vai. Mas quanto menos, obviamente é melhor — aponta Elisandra.

Desempenho excelente

Na visão do doutor em Saúde Pública e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Lúcio José Botelho, o desempenho de Blumenau é considerado excelente diante do contexto social da população. Isso porque, no entendimento dele, a mortalidade de infantil é fruto da desigualdade e precisa ser observada de forma ampla. 

O grau de escolaridade, por exemplo, está diretamente relacionado, segundo ele, pois mede o subemprego, a renda, prole grande e consequentemente crianças menos cuidadas.

— 6,6/1000, com a condição de pobreza que a sociedade está vivendo, é um indicador mais do que excelente. Ele é fruto de boa assistência. Por que com as condições sociais que a gente vive, mesmo em Blumenau que sabemos ter uma periferia complicada, se tem bom acesso à atenção básica de saúde. Mas é claro que as metas poderiam ser mais audaciosas, baixar mais — ressalta o especialista.

Desde 1996, quando o levantamento da taxa de mortalidade iniciou, 1.180 crianças residentes em Blumenau morreram antes do primeiro ano aniversário. É uma média anual de 47,2 óbitos, mas os dados mostram uma oscilação. Em 1998, a cidade teve o pior indicador, com 17,8 falecimentos a cada mil nascidos vivos. A partir daí os casos começaram a reduzir, como mostra o gráfico abaixo.

Gráfico mostra evolução anual de mortes de menores de um ano em Bumenau
Gráfico mostra evolução anual de mortes de menores de um ano em Bumenau
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Mortes evitáveis

Apesar da queda, um fator importante precisa ser observado: a quantidade de mortes classificadas como evitáveis. Nestes 25 anos de levantamento, 667 óbitos de menores de um ano aparecem no site da Dive/SC como reduzível “por diagnóstico e tratamento precoce” e outros 208 com adequado “controle da gravidez". 

Ou seja, poderiam não ter ocorrido com intervenção médica adequada.

Das 28 mortes registradas em Blumenau em 2020, 18 estão classificadas nestas duas categorias. Conforme explica o especialista, as mortes nesta faixa etária são divididas em três classificações e, em cada uma delas, fatores diferentes estão atrelados às mortes. Normalmente os óbitos entre o parto e o sétimo dia estão ligados a problemas genéticos ou hereditários, que não têm solução.

Entre o oitavo e o 27º dia de vida, os falecimentos costumam estar relacionados com doenças da mãe, como a sífilis (que disparou em 2019) e a e eclampsia, por exemplo. Duas doenças passíveis de controle e por isso o entendimento de que a morte da criança poderia ter sido evitada. A partir do 28º, as causas são outras, segundo Botelho:

— Ainda temos mortes por ausência de vacinação, por pneumonia, meningite, doenças infeciosas que são doenças determinadas por um processo social. Nesse está integrando a ausência de cuidado maior, de renda familiar. São essas as mortes que se o Estado se organiza, evita.

Atenção básica de saúde adequada é considera primordial para evitar mortes infantis
Atenção básica de saúde adequada é considera primordial para evitar mortes infantis
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Realidade regional

Brusque: apesar de ter registrado em 2020 a maior quantidade de mortes em números absolutos – com 24 vidas perdidas -, a taxa de mortalidade ficou em 11,6 para cada mil nascidos vivos. O cenário é pior do que no ano retrasado, quando o coeficiente estava 8,2/1000. Porém, em 2003, tinha enfrentado patamar próximo a 20 mortes em cada mil nascidos vivos.

Itajaí: os dados da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina apontam aumento da mortalidade de crianças com menos de um ano na cidade no ano passado. Dos 3.673 nascimentos, 40 óbitos ocorreram, deixando o índice em 10,8/1000. Em 2019 essa taxa estava em 7,3/1000, com 3.658 nascimentos contra 27 falecimentos.

Balneário Camboriú: a cidade conseguiu reverter um cenário negativo e fechou 2020 com 14 óbitos entre as 1.676 crianças nascidas vidas. Chegou ao índice de 8,3/1000, enquanto no ano anterior estava 11,9/1000, quando perdeu 19 pequenos com menos de um ano de vida dentro de um universo de 1.588 nascidos vivos no mesmo período.

— Nascer biologicamente com algum problema, mas socialmente forte, com acesso a serviços e renda familiar, é menor o risco de morrer do que nascer biologicamente perfeito e com déficit social muito grande — afirma o doutor em Saúde Pública e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Lúcio José Botelho.

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