Não eram raros, até o ano passado, comentários que comparavam o êxito do cinema argentino no Oscar com a situação do Brasil. A Argentina, afinal, já foi indicada oito vezes e levou dois prêmios na categoria de filme internacional, enquanto o cinema brasileiro, até 2024, havia recebido apenas quatro indicações e nenhuma vitória até então. Causava estranheza que o Brasil, país das novelas e com uma diversidade cultural rica para qualquer roteiro, nunca havia conseguido levar a premiação mais importante do cinema.

Continua depois da publicidade

O cinema brasileiro já viveu boas fases. No fim dos anos 1990, o país recebeu indicações em sequência por “O Quatrilho” (1995), “O Que É Isso, Companheiro?” (1997) e “Central do Brasil” (1998). Em 2004, “Cidade de Deus” reforçou a sensação de consolidação internacional ao ser indicado em quatro categorias. A boa fase no Oscar, porém, acabou não tendo continuidade.

Nos últimos 10 anos, tivemos bons filmes, como “Que Horas Ela Volta?” (2016), “Aquarius” (2016), “Bacurau” (2020) e “A Vida Invisível” (2020). Todos tiveram boa recepção da crítica e entraram no radar internacional, mas nenhum conseguiu transformar esse prestígio em uma indicação. Toda temporada, a pergunta era a mesma: o que faltava para mais indicações ao Oscar?

A resposta começa a se desenhar nesta quinta-feira (22), dia em que “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações ao Oscar 2026: melhor filme internacional, melhor filme, melhor direção de elenco e melhor ator, para Wagner Moura. O feito dá sequência ao êxito de “Ainda Estou Aqui”, no ano passado, que teve três indicações e, pela primeira vez, trouxe o Oscar de melhor filme internacional ao Brasil.

Veja fotos de O Agente Secreto

Continua depois da publicidade

Uma mudança de percepção

Mas o que mudou, afinal? Na trajetória de ambos os filmes, o diferencial foi a campanha para chegar até o Oscar.

A campanha começa com uma boa estreia em festivais, como Cannes, no caso de “O Agente Secreto”, e Veneza, no de “Ainda Estou Aqui”, mas ganha força, principalmente, com o trabalho das distribuidoras. Essas empresas, como a Neon, no caso do filme de Kleber Mendonça Filho, são responsáveis por garantir que o filme seja visto pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsáveis pelas indicações.

Uma boa campanha ao Oscar inclui publicidade, eventos, entrevistas, exibições especiais e “tours” para promover o filme, principalmente nos Estados Unidos. É por isso que, ao final da temporada passada, Fernanda Torres resumiu o empenho envolvido em uma campanha ao Oscar ao dizer que seu cabelo “já não aguentava mais uma escova”.

Não é por acaso que Walter Salles e Kleber Mendonça Filho lideram essa nova fase do cinema brasileiro. Desde pelo menos 2004, com “Diários de Motocicleta”, Salles vem construindo uma carreira internacional e dirigindo alguns filmes em inglês. Já Kleber, ex-crítico de cinema, tornou-se presença constante nos principais festivais do mundo desde “O Som ao Redor” (2013). Ambos os cineastas têm visibilidade fora do país e entendem que o caminho ao Oscar também se constrói fora da tela.

Continua depois da publicidade

Entre a consolidação e a cautela

Ainda assim, precisamos ter calma. Apesar da aclamação recente, o Brasil ainda não está entre os países que transformaram a presença no Oscar em tradição contínua, como a França, que tem 41 indicações, e Itália, com 33. Na América Latina, estamos nos aproximando do México, que lidera em indicações, com nove, e da Argentina, com oito.

Os comentários sobre perdermos para os hermanos no quesito cinema talvez ainda demorem para ficar para trás. Mas, talvez, o conhecimento adquirido de fazer campanha permaneça e consiga garantir mais indicações ao Oscar no futuro.

No discurso de vitória no Globo de Ouro, Kleber Mendonça Filho apontou justamente para esse futuro:

— Eu dedico este filme aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para se estar fazendo cinema. Aqui nos Estados Unidos, no Brasil… jovens cineastas, façam filmes!

Veja trailer de “O Agente Secreto”