Imagine largar tudo para viver durante quatro anos na estrada, apenas com um carro e uma meta definida. A ideia de deixar familiares e o conforto da própria casa para trás tende a assustar até os mais audaciosos e exige uma boa dose de coragem. Palavra essa que define bem os indaialenses Ricardo Censi e Tamiris dos Passos Censi. O casal aventureiro decidiu viajar até o Alasca com um objetivo que vai além da conclusão de um trajeto intenso.

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Juntos, os dois partiram rumo ao desconhecido e em busca da realização de um sonho.

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Em cerca de duas décadas de companheirismo, Tamiris, de 31 anos, e Ricardo, de 37, já colecionam momentos desafiadores que viveram um ao lado do outro. Nesta nova etapa, porém, o frio na barriga é diferente.

Isso porque eles nunca passaram tanto tempo na estrada, muito menos visitando a quantidade de países que está prevista na rota — serão cerca de 17, no total. O trajeto começa, oficialmente, no Ushuaia, que fica na Patagônia Argentina, e segue até a Baía de Prudhoe, no Alasca.

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O caminho é o mesmo percorrido pela dupla Jesse Koz e o cão Shurastey, que acabou não sendo concluído pelo jovem por causa de um acidente fatal que matou os dois em maio de 2022, nos Estados Unidos.

Tamiris conta que, à época, costumava acompanhar a viagem do rapaz com o fiel companheiro, mas ela e o marido nunca chegaram a conhecer os aventureiros pessoalmente.

— Essa é uma rota clássica e a gente sempre fala que o Ushuaia ao Alasca são pontos que a gente vai passar, mas queremos muito curtir o caminho. Não é só correr para chegar lá e tirar uma foto. A gente quer vivenciar tudo o que der nesse período — ressalta ela.

Registro recente de Tamiris durante a viagem (Foto: Arquivo pessoal)

Os dois saíram de casa, em Indaial, na última terça-feira (4). Visitar a Argentina e outros países da América sempre foi um sonho do casal, segundo Tamiris. Só que partir para essa nova aventura, que deve durar de três a quatro anos, também significa abrir mão de bens materiais e de quem permanece na cidade natal.

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Na viagem, os dois seguem apenas com a companhia de quem encontram pelo caminho, além do próprio carro — um motorhome que, se falasse, também teria inúmeras histórias para contar.

— Ao mesmo tempo a gente sabe que é preciso, faz parte do processo. É um sonho que a gente quer realizar e, para isso, vamos ter que abrir mão de algumas coisas. Mas é aquele friozinho na barriga de novo — conta.

“De novo”. Esse não é o primeiro percurso que o casal de espírito aventureiro enfrenta. Faz cerca de 40 dias que eles voltaram de uma viagem que durou 1 ano e 5 meses. Uma espécie de “experiência” que ajudou a prepará-los para um percurso ainda mais desafiador e intenso, planejado para o futuro — e que vem sendo vivido, agora, pelos dois.

Como tudo começou

Em dezembro de 2021, Tamiris e Ricardo também deixaram casa e uma vida para trás em busca de um desejo antigo. A iniciativa possibilitou que os dois conhecessem 19 estados do Brasil e percorressem 30 mil quilômetros, também de carro.

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A ideia de fazer uma primeira viagem dessas proporções não era algo recente e envolveu muito planejamento. Tamiris relata que o casal, desde o início da relação, sempre gostou de trilhas e acampamentos aos finais de semana.

Só que em 2015, ao passarem a lua de mel do casamento na Itália, os dois chegaram a conclusão de que precisavam aproveitar ainda mais a vida. A vontade de conhecer novas experiências pulsava no coração de cada um e levou os dois a pensarem em alguma alternativa para isso.

— Daí a gente decidiu começar com uma viagem por ano. Era sempre uma viagem de 10, 15 dias no final do ano, para algum lugar no Brasil ou fora. E aos finais de semana a gente acampava. Mas chegou uma época que era pouco — conta Tamiris.

Casal já acampava aos finais de semana (Foto: Redes sociais)

Por isso, começaram a estudar viagens mais “longas”, com base na prática de outras pessoas. Ricardo passou a consumir vídeos de aventureiros que davam a volta ao mundo com o próprio carro e foi, ali, que os dois perceberam a possibilidade de embarcar nessa realidade também.

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— E aí a gente foi estudando algumas formas de largar os nossos empregos e viver na estrada tendo alguma renda. Mas foi um planejamento de uns três anos — relata.

Na época, Ricardo era taxista em Indaial e Tamiris atuava como profissional de educação física em academias. Quando saíram para a viagem ao Brasil, em 2021, o marido vendeu o veículo que usava no trabalho e a jovem largou o emprego que tinha na cidade.

Foi assim que eles conseguiram juntar uma boa quantia e partir, enfim, para o primeiro desafio dentro de um motorhome.

Afinal, como se sustentam na estrada?

Viver mais de um ano na estrada, sem um trabalho fixo que garanta uma renda para sobreviver, pode gerar questionamentos àqueles que observam essa experiência pelo “lado de fora”.

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Afinal, como conseguem se manter por tanto tempo longe de casa?

No caso dos aventureiros indaialenses, Tamiris explica que os dois já costumavam publicar vídeos no Youtube sempre que faziam trilhas aos finais de semana. Com isso, passaram a ganhar dinheiro da plataforma, mas que, inicialmente, mal pagava a gasolina do carro.

Foi aí que o casal focou em investir ainda mais em conteúdos para a internet com o objetivo de conseguir a quantia necessária para pagar as viagens. O que acabou dando certo.

Ricardo e Tamiris em viagem pelo país (Foto: Redes sociais)

Depois de uns 8 meses na estrada, conhecendo o Brasil, os indaialenses começaram a ganhar da plataforma o equivalente ao que gastavam na estrada. E, hoje, 99% da renda deles vem do Youtube, de acordo com Tamiris. O restante eles recebem através de produtos que vendem pelo Instagram, como coleção de camisetas e adesivos.

Na rede social, já são mais de 100 mil seguidores que acompanham as aventuras do casal de Santa Catarina. Ali, eles fazem questão de compartilhar registros dos lugares que conhecem e curiosidades sobre o dia a dia na estrada.

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Tamiris reforça que as pessoas têm interesse em saber como é a rotina de um viajante, ainda mais quando se mora em um carro comum, adaptado para esse estilo de vida. Não se trata de uma van ou uma kombi. No caso deles, o veículo usado é uma Suzuki Grand Vitara 4×4 — também conhecida como “Dorinha”.

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Dorinha como fiel companheira de viagem

Foi com esse veículo, apelidado carinhosamente de Dorinha, que o casal viajou o Brasil. O nome foi uma sugestão dos próprios seguidores nas redes sociais e faz referência ao desenho animado da “Dora aventureira”, segundo Tamiris. Já que o automóvel acompanhava cada passo dos viajantes, ele precisava também ser reconhecido.

Um fiel companheiro que não deixou o casal na mão nem por um minuto no percurso de 30 mil quilômetros pelos estados do país. É dentro do carro que os dois encontram tudo o que precisam para sobreviver. Até chuveiro, geladeira e fogão os indaialenses conseguiram instalar no veículo.

Com mobília completa, eles transformaram o automóvel em uma segunda casa para as viagens.

A Dorinha chegou na vida do casal pouco antes da primeira temporada na estrada, em 2020. A escolha por um carro mais robusto veio, justamente, do objetivo de se aventurar em lugares de difícil acesso, além de permitir uma liberdade geográfica aos viajantes.

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É assim, com quatro rodas e equipamentos adequados, que a Dorinha leva os moradores de Santa Catarina rumo a novas experiências ao redor do mundo.

Muito além de lugares: é sobre pessoas

Quando decidiram viajar para o Brasil como uma forma de “test drive” para o que ainda pretendiam encarar futuramente, o casal foi surpreendido por uma vivência que nem eles imaginavam se deparar. A busca por uma nova aventura se tornou, no fim, aprendizado e a adrenalina foi substituída pela emoção de novos encontros.

— As experiências que a gente viveu em 1 ano e 5 meses não teríamos vivido em uma vida inteira — ressalta Tamiris.

De Norte a Sul, o casal conheceu diferentes culturas e realidades. Os dois também reforçam que foram muito acolhidos pelos moradores de cada região e construíram amizades que “não tem valor que pague”. Mesmo distantes de casa, o amor que recebiam parecia ajudar a suportar a saudade de quem ficou em Santa Catarina.

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Registro do casal com amigos que fizeram na estrada (Foto: Redes sociais)

— Em cada estado tem um Brasil, na verdade. É muito diferente. E a gente descobre que o Brasil não é só aquilo que a gente vê na TV. Vai muito além. A gente acaba vivendo um pouquinho de cada estado. Acaba sendo um “morador temporário” das cidades — brinca Tamiris.

Agora, eles seguem em busca de uma nova aventura, com diferentes temperaturas e línguas. Ricardo até consegue se comunicar em inglês, mas não é fluente. Nenhum dos dois fala outro idioma além do português, o que, para eles, deixa a viagem ainda mais divertidade e desafiadora.

— E no espanhol a gente vai ter que se virar — comenta Tamiris achando graça da situação.

Uma experiência que, segundo eles, não se trata mais de lugares, mas, sim, de pessoas. Isso porque o objetivo principal não é chegar até o último quilômetro para alcançar uma meta radical. Hoje, eles já entenderam que viver intensamente o percurso e os encontros que ele proporciona é o que torna, de fato, a viagem única e inesquecível.

— Tudo começou com um sonho. Então, agora, estamos conseguindo tudo o que planejamos. É um sentimento muito bom — finaliza Tamiris.

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Ricardo, Tamiris e a “Dorinha” (Foto: Redes sociais)

*Sob supervisão de Augusto Ittner

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