O esgotamento mental enfrentado em escritórios de advocacia em Florianópolis deu origem a uma jornada de 70 mil quilômetros pelas Américas. Anderson Morais, manézinho da Armação do Pântano do Sul, e Ana Tondo, gaúcha de Santo Ângelo, ambos advogados, decidiram romper com o mundo corporativo para percorrer, nos últimos quatro anos, o trajeto do Ushuaia ao Alasca em um espaço de apenas três metros quadrados: uma Kombi 1986, batizada de “Manézinha”.
A decisão de largar o trabalho foi resultado de um ciclo de desgastes psicológicos que resultou em um ataque de pânico no ano de 2020, relata Anderson. O período de isolamento, devido à Covid-19, também representou uma virada de chave para o casal.
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— A pandemia foi um período muito duro, porque todos ficaram confinados. Mas, ao mesmo tempo, ela nos deu algo que há muito tempo não tínhamos: tempo de vida. Em home office conseguíamos trabalhar, dar conta das tarefas e, ao mesmo tempo, viver. Foi quando entendemos o que significava ter tempo de verdade — relembra Anderson.
O casal conta que familiares e amigos não compreendiam a decisão de largar empregos estáveis para criar conteúdo enquanto viajavam pelo mundo. Anderson e Ana contam que foram as primeiras pessoas de suas famílias a concluir o ensino superior.
— Naquela época, dizer que você ia largar o emprego para viajar de Kombi fazendo vídeos para a internet parecia algo difícil de compreender. Foi um choque generalizado para todo mundo, desde os amigos até a família. Principalmente porque começamos isso há cerca de seis anos, quando a internet ainda não era o que é hoje. A profissão de influenciador, por exemplo, nem era tão consolidada — diz Ana.
Confira fotos da aventura
O começo de um sonho
Após o ataque de pânico e a percepção de melhora na qualidade de vida durante o home office, o casal resolveu comprar uma Kombi em 2020. O veículo foi adquirido em um ferro velho por R$ 5.900. Após realizar reformas e pintar o automóvel, em 15 de novembro de 2021, o casal partiu de Florianópolis com apenas R$ 3 mil no bolso e a esperança de que o projeto se sustentasse.
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O primeiro vídeo publicado pelo casal, em novembro de 2021, alcançou um milhão de visualizações em 30 dias e garantiu o financiamento de um mês de viagem. Atualmente, o vídeo possui mais de 3 milhões de acessos.
— As coisas se alinharam de uma forma impressionante já no primeiro mês. Fizemos um tour da nossa “casa” na internet e esse vídeo viralizou, é um dos maiores do nosso canal. Só esse vídeo na época pegou quase R$ 5 mil e pagou o primeiro mês de viagem. E a nossa viagem foi sequencialmente sendo paga dessa forma. Hoje vivemos 100% da produção de conteúdo para internet — conta Ana.
Eles saíram de Florianópolis com o objetivo de ir ao Ushuaia, no extremo-sul do continente americano, na Argentina. Quando chegaram no local, em fevereiro de 2022, decidiram que o final da jornada seria no Alasca, no extremo-norte das Américas.
Entre terremotos a vulcões
Do Usuhuia ao Alasca, o casal enfrentou situações extremas. Ana e Anderson passaram por terremotos diários em El Salvador, erupções vulcânicas na Guatemala e temperaturas de -30°C nos Estados Unidos.
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Eles avaliam que o momento mais difícil da jornada aconteceu na Guatemala, quando Anderson contraiu uma grave infecção bacteriana no joelho após trabalhar em um conserto mecânico do veículo sob o asfalto quente.
— A gente fala que é preciso trabalhar rezando para conseguir consertar a Kombi, porque é preciso ficar ajoelhado atrás do motor. Só que na Guatemala o asfalto era muito quente e isso fez com que abrisse uma ferida na minha perna — conta Anderson.
Foram 10 dias de febre e incertezas até acertarem o tratamento. O casal avalia que a recompensa veio ao atingirem o Oceano Ártico, na cidade de Tuktuyaktuk, no extremo-norte do Canadá.
— Conseguimos chegar até o topo do continente. A gente saiu menino e menina aqui da Ilha e nos moldamos como homem e mulher na estrada — considera Anderson.
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A experiência de chegar ao outro lado do continente transformou a visão de mundo do casal e os tornou mais confiantes.
— Quando fomos para a estrada e passamos a ser constantemente desafiados que percebemos que, na verdade, podemos ser quem quisermos. A gente percebeu que a vida não é apenas viver em busca do conforto e do prazer, mas que situações desconfortáveis também fazem crescer. A gente percebeu que somos muito mais do que nossas profissões. A estrada trouxe contato com diferentes culturas, formas de viver e maneiras de enxergar a vida, o que nos transformou — pondera Ana.
O retorno para casa
Em fevereiro deste ano, Anderson e Ana voltaram a Florianópolis. Eles adquiriram um sítio no interior de Santa Catarina para servir de base entre as expedições.
— Depois de quatro anos na estrada a gente estava com muita saudade de voltar para o Brasil, saudade da nossa comida, dos nossos familiares. Acho que um dos pontos mais difíceis é a dor de ver as pessoas mais velhas ficando mais velhas, as crianças crescendo e a gente não poder acompanhar isso. No final da nossa jornada essa saudade começou a pesar mais — diz Anderson
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Mas o casal não pretende parar de viajar. Eles compraram um novo motorhome quando estavam nos Estados Unidos, uma Kombi 1985 apelidada de Califinha. Atualmente o veículo está passando por reformas em San Francisco.
Para o futuro, o casal pretende continuar a jornada em um novo continente, a bordo da Califininha.
*Sob supervisão de Luana Amorim






