Foram quase quatro anos vivendo em apenas três metros quadrados, percorrendo cerca de 70 mil quilômetros entre o extremo sul e o extremo norte das Américas. No caminho, terremotos, vulcões, temperaturas negativas e panes mecânicas colocaram à prova a resistência do casal de advogados Anderson Morais e Ana Tondo. Mas, segundo eles, a maior mudança provocada pela jornada não foi geográfica.

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De volta a Santa Catarina desde fevereiro deste ano, Anderson, natural da Armação do Pântano do Sul, em Florianópolis, e Ana, gaúcha de Santo Ângelo, afirmam que a travessia do Ushuaia, na Argentina, até o Oceano Ártico, no Canadá, transformou a forma como enxergam trabalho, sucesso e qualidade de vida. Hoje, enquanto se preparam para uma nova expedição internacional, o maior desafio é reaprender a viver longe da estrada.

— A gente saiu menino e menina daqui da Ilha e voltou homem e mulher. A viagem mudou completamente a forma como entendemos a vida. Hoje sabemos que somos muito mais do que a profissão que exercemos — resume Anderson.

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A decisão de partir nasceu em um dos períodos mais difíceis da vida do casal. Em 2020, depois de anos de rotina intensa em escritórios de advocacia, Anderson sofreu um ataque de pânico. Pouco depois, a pandemia de Covid-19 e o trabalho remoto fizeram os dois perceberem que, pela primeira vez em muito tempo, tinham tempo para viver.

— A pandemia foi muito dura para todo mundo, mas também nos mostrou uma realidade diferente. Trabalhando em casa, conseguíamos cumprir nossas obrigações e ainda sobrava tempo para viver. Foi quando entendemos que não queríamos voltar à rotina que levávamos antes — relembra Anderson.

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A partir dessa constatação, decidiram abandonar a advocacia e apostar em um projeto que, na época, parecia improvável até para familiares e amigos.

Kombi custou R$ 5,9 mil e levou meses de reforma

Compraram uma Kombi 1986 em um ferro-velho por R$ 5,9 mil e passaram meses reformando o veículo, batizado de “Manézinha”. Em novembro de 2021, deixaram Florianópolis com apenas R$ 3 mil e um plano inicial modesto: chegar a Ushuaia, no extremo sul da Argentina.

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Quando alcançaram o destino, em fevereiro de 2022, decidiram ampliar o sonho. O novo objetivo passou a ser o Alasca e, depois, o Oceano Ártico.

A viagem foi sendo financiada aos poucos pela produção de conteúdo nas redes sociais. O primeiro vídeo publicado pelo casal, mostrando a Kombi transformada em casa, ultrapassou 1 milhão de visualizações em apenas um mês e garantiu recursos suficientes para continuar na estrada.

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— Tudo aconteceu muito rápido. Aquele primeiro vídeo praticamente pagou o primeiro mês de viagem e, depois disso, fomos conseguindo manter o projeto com a produção de conteúdo. Hoje vivemos integralmente desse trabalho — conta Ana.

Ao longo da jornada, a Manézinha enfrentou praticamente todos os tipos de terreno e clima. O casal passou por terremotos em El Salvador, presenciou atividade vulcânica na Guatemala, enfrentou temperaturas de até -30°C na América do Norte e acumulou incontáveis reparos mecânicos realizados às margens de rodovias.

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O episódio mais delicado aconteceu justamente durante um desses consertos. Enquanto trabalhava ajoelhado atrás do motor da Kombi, Anderson desenvolveu uma infecção bacteriana grave no joelho, provocada pelo calor intenso do asfalto na Guatemala.

— Foram dias de muita febre e sem saber exatamente o que estava acontecendo. A estrada ensina que nem sempre você controla as situações e precisa aprender a confiar que vai encontrar uma solução — lembra.

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Confira fotos da aventura

“Vida não é feita apenas de conforto”

Apesar dos desafios, eles afirmam que as dificuldades passaram a fazer parte do aprendizado.

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— A gente percebeu que a vida não é feita apenas de conforto. As situações difíceis também nos transformam. Conhecemos pessoas, culturas e formas de viver completamente diferentes das nossas. Isso muda a maneira como você enxerga o mundo e a si mesmo — diz Ana.

Depois de completar a travessia até o Oceano Ártico, o casal voltou ao Brasil em fevereiro deste ano. O retorno, no entanto, trouxe sentimentos contraditórios. Se, por um lado, havia a felicidade de reencontrar familiares e amigos, por outro veio a percepção do tempo que passou longe de casa.

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— Acho que o mais difícil é perceber que as pessoas envelhecem, as crianças crescem e você não acompanha esses momentos. Depois de quatro anos, essa saudade começou a pesar bastante — afirma Anderson.

Hoje, o casal vive em um sítio no interior de Santa Catarina, adquirido para servir de base entre as futuras expedições. A Manézinha, que atravessou o continente americano, divide espaço com um novo projeto: uma Kombi 1985 comprada nos Estados Unidos, apelidada de “Califinha”, que passa por reformas em San Francisco.

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O próximo destino ainda não foi definido, mas a ideia é explorar um novo continente.