“Todo mundo para quem eu pergunto de comércio exterior me fala de você”. Foi essa frase que a catarinense Tatiana Lacerda Prazeres ouviu do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, ao ser convidada a assumir o cargo de secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em 2023. Natural de Florianópolis, a profissional tem mais de 20 anos de carreira e esta é a segunda vez que atua na pasta. Entretanto, neste ano, ela enfrenta um novo desafio na carreira: estar na linha de frente da negociação do tarifaço, imposto pelos Estados Unidos ao Brasil no início de agosto.
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— Eu lembro que estava de férias em Florianópolis. Comprei uma passagem, vim para Brasília e eu lembro que fiquei muito emocionada quando ele me olhou e disse: “Ah, muito prazer em conhecer você. Todo mundo para quem eu pergunto de comércio exterior me fala de você”. Eu falei: “Nossa, que bonito, que momento de carreira, recompensador” — relembra Tatiana.
Veja fotos da carreira de Tatiana Lacerda Prazeres
Quem é a catarinense secretária de Comércio Exterior
Nascida em Florianópolis, capital do Estado catarinense, Tatiana Lacerda Prazeres é graduada em direito e relações internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade do Vale do Itajaí (Univali), respectivamente. Tatiana conta que os temas internacionais, que impactam todo o mundo, sempre despertaram o seu interesse. Entre 2002 e 2003, realizou um mestrado em direito internacional também na UFSC. Durante seus estudos, encontrou uma área que conecta suas duas graduações: o direito do comércio internacional.
— Sempre me perguntei, ao longo da minha trajetória, como trabalhar com isso. Como colocar a dedicação ao tema em prática, em algo que pudesse fazer diferença. E aí apareceu a oportunidade de um concurso público que é da carreira a qual eu pertenço, de analista de comércio superior, em Brasília. Eu lembro que fiz o meu mestrado sobre uma coisa muito específica que chama “O acordo de barreiras técnicas da Organização Mundial do Comércio”. E aí quando eu vi o edital deste concurso que tinha lá “o acordo sobre barreiras técnicas”, [pensei] “uau, isso é para mim”. E, de fato, foi assim — recorda.
Com a oportunidade, Tatiana mudou-se a Brasília com a convicção de que teria que gostar da vida na capital federal. Segundo ela, para atuar na área é importante estar na cidade, sobretudo pelo seu interesse em atuar no serviço público, ou, como Tatiana mesmo define: “trabalhar pelo país.”
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— E me adaptei muito bem, muito facilmente. Essa reunião de pessoas, de diferentes lugares do Brasil, que são movidas pelo mesmo propósito, foi algo para mim super interessante. Acho que eu passei a conhecer o Brasil mudando para Brasília — revela.
Na capital federal, Tatiana continuou seus estudos. Ingressou na Universidade de Brasília (UNB) para cursar um doutorado em relações internacionais. Nesse período, atuou em diferentes agências do governo, como a de promoção de exportações. Em janeiro de 2011, foi convidada a assumir o cargo de secretária de Comércio Exterior do MDIC. Com isso, tornou-se a pessoa mais jovem a ocupar a função, aos 32 anos.
— Foi uma experiência incrível, muito desafiadora por ser mulher e jovem ao mesmo tempo. Então, aprendi muito, foi fascinante — conta.
Durante a experiência profissional, sua vida pessoal também passou por mudanças. Ela casou-se nessa época e, como seu marido é diplomata, logo surgiu uma nova oportunidade para ambos atuarem em Genebra, na Suíça. A cidade é conhecida como um importante centro diplomático e abriga escritórios da Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização Mundial da Saúde (OMS). Então, Tatiana se licenciou do MDIC para atuar como assessora sênior do diretor-geral da OMC.
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— Esse trabalho no exterior foi incrível. Foi um período muito interessante em que eu não representava o Brasil, mas eu atuava na organização a favor de entendimentos entre os vários países — explica.
A família permaneceu em Genebra durante cinco anos. De lá, seguiram para um novo desafio em Pequim, na China. No país asiático, Tatiana tornou-se professora da Universidade de Negócios Internacionais e Economia, a qual possui vínculo até os dias de hoje.
— Foi uma experiência incrível morar por três anos na China, um país fascinante. A sensação era de estar onde as coisas estão acontecendo. E para quem se dedica ao comércio internacional, viver na China é algo é muito interessante. Eu acho que fez todo o sentido para a minha trajetória de vida.
Durante esse período, Tatiana foi convidada a escrever, semanalmente, uma coluna sobre a China para o jornal Folha de S.Paulo. Para ela, a oportunidade se revelou um desafio intelectual enorme, mas também um período de aprendizado rico.
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Ao retornar para o Brasil, em 2022, foi chamada para ser diretora de comércio na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Permaneceu na instituição até dezembro do mesmo ano, quando saiu para assumir novamente o cargo de secretária de Comércio Exterior do MDIC a convite do vice-presidente Geraldo Alckmin.
Sobre planos futuros, Tatiana revela que vive em um exercício constante de administrar a ansiedade, expectativas e ambições.
— Se você tivesse me perguntado se eu me veria a colunista da Folha de S.Paulo, eu diria: “de jeito nenhum”. Foi algo que surgiu em função das circunstâncias. Mas administrar a ansiedade e não saber onde estarei daqui a “x” tempo e o que estarei fazendo é algo que é um exercício. De maneira que eu tenho ambições na vida, mas elas não têm nome e sobrenome. Eu estou aberta para o que as circunstâncias vierem a me oferecer — afirma.
Negociações internacionais
Comparando a primeira e a segunda atuação à frente da secretaria de Comércio Exterior, ela afirma que o mundo está mais complexo e que as questões comerciais estão cada vez mais relacionadas a uma agenda de segurança nacional e de meio-ambiente, além da utilização do comércio como um instrumento para a concepção de objetivos não comerciais.
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— O trabalho se tornou muito mais desafiador e ao mesmo tempo mais interessante em função das circunstâncias externas. A utilização de ferramentas comerciais para objetivos não comerciais é algo que se intensificou num período muito recente da história e algo com o que o mundo inteiro está tentando lidar. Então essa questão, dos Estados Unidos em particular, me fez trabalhar muito mais. É um desafio, mas eu fico contente de poder colocar todo meu conhecimento, experiência e capacidade de trabalho em favor do país num momento tão único como este que nós vivemos na agenda de comércio exterior — diz.
Brasil x Estados Unidos
Tatiana Lacerda Prazeres faz parte da linha de frente das negociações do tarifaço, junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin e toda a equipe do MDIC. Por ser catarinense, a secretária conta que está em contato constante com representantes do Estado, como deputados e a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).
Para a secretária, a união de esforços, incluindo líderes de partidos de oposição, é importante para encontrar soluções para os desafios impostos pelo tarifaço. Ela cita encontros com o senador Esperidião Amin e o deputado federal Valdir Cobalchini para tratar de mitigações e o que o governo pode ou não fazer para auxiliar os estados neste momento.
— É muito bacana quando as pessoas aqui em Brasília, quando eu me apresento e digo: “Ah, eu sou de Santa Catarina”, eu sinto que dá um conforto também para os nossos interlocutores saber que há alguém aqui em Brasília nessa posição, nesse momento histórico, com um olhar atento à realidade do Estado — relata.
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As negociações do Tarifaço
Senadores dos Estados Unidos tentam revogar o tarifaço contra o Brasil. A pasta acredita que realmente esse tarifaço pode ser revogado, qual é a expectativa?
São vários movimentos que se complementam com o objetivo da reversão dessa decisão. Esse que você se referiu talvez seja mais recente. É muito interessante porque vem do congresso americano envolvendo congressistas de diferentes partidos, né? Então esse é um movimento no congresso, mas há um movimento no judiciário também que questiona a legalidade das medidas. Há todo um esforço de negociação do governo brasileiro, há um esforço do setor privado brasileiro que busca atuar junto aos seus parceiros, aos seus compradores nos Estados Unidos. Então, eu diria que esse movimento no congresso se soma a esses outros esforços que estão em curso e o objetivo é, enfim, reverter essas medidas que na nossa visão não se justificam.
Com relação aos programas divulgados pelo Governo Federal e pelo Estado de Santa Catarina, a expectativa é que ajude a longo prazo para frear os impactos negativos [do tarifaço]?
O objetivo é mitigar o impacto negativo do tarifaço para as empresas especialmente afetadas. Várias medidas já foram anunciadas, algumas requerem aprovação do congresso. Então, inclusive nós trabalhamos com o congresso nesse sentido. Diria que uma medida muito importante, inclusive para o Estado, é o Reintegra. Reintegra vai devolver para as empresas especialmente afetadas pelo tarifaço 3%, vai agregar três pontos percentuais a uma devolução que hoje é de 0,1%. Então, a empresa exportadora, especialmente afetada pelo tarifaço americano, vai ter a devolução de 3,1% do valor exportado, seja para os Estados Unidos, seja para outros destinos, com a aprovação dessa medida.
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Então, essa é uma entre outras, mas uma na qual nós estamos muito empenhados em implementar. Precisamos, no entanto, que o congresso dê autorização legal. Mas o objetivo é mitigar o impacto ao mesmo tempo em que a gente busca negociar com os americanos e busca também abertura de novos mercados. Na terça-feira (16), nós assinamos o acordo Mercosul-EFTA. Um acordo muito recente que se soma os esforços do governo brasileiro para conclusão de acordos comerciais. Nós esperamos assinar ainda neste ano o acordo Mercosul-União Europeia, que também, com ainda mais força, vai ajudar na diversificação dos mercados brasileiros. Estamos trabalhando com promoção de exportações. A Apex fez todo um plano voltado a ajudar a busca de mercados alternativos nesse contexto. Vice-presidente Alckmin esteve no México buscando oportunidades, vai à Índia buscando oportunidades também. Então é uma mobilização em várias frentes.
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Conselho para meninas e mulheres que gostariam de atuar na área de Comércio Exterior:
Eu acho que uma boa formação é fundamental inclusive com idiomas. Não vai muito longe nessa área sem um domínio efetivo de idiomas. Mas eu diria que, além dessa formação técnica sólida, eu não paro de estudar nunca e é importante valorizar essa dimensão da formação, do conhecimento, tem essa outra camada que tem a ver com confiança, que tem a ver com apetite, vontade, interesse em assumir desafios maiores, posições de liderança. É importante que isso seja cultivado, valorizado e que as meninas e mulheres sintam que esse é um espaço também para elas. Então, eu acho que essa combinação de uma formação sólida, com a confiança e o apetite. Isso precisa ser valorizado, valorizado pela sociedade, valorizado pelos parceiros ou parceiras que essas meninas desejam ter, alguém que apoie o crescimento profissional e a função de responsabilidades maiores, posições de liderança.
Antonietas
Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.
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