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    Da insegurança às novas ideias: como os catarinenses estão se reinventando na pandemia

    Moradores de SC precisaram encontrar alternativas em seus trabalhos para lidar com as mudanças trazidas pelo coronavírus

    04/12/2020 - 10h57 - Atualizada em: 04/12/2020 - 11h23

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    Luiza
    Por Luiza Morfim
    Catarinenses de áreas diferentes precisaram se reinventar para continuar seus trabalhos durante a pandemia
    Catarinenses de áreas diferentes precisaram se reinventar para continuar seus trabalhos durante a pandemia
    (Foto: )

    O mundo mudou em 2020. A vida de todos nós foi afetada de algum modo pela pandemia - e para os catarinenses não foi diferente. De adaptações mais básicas, como os novos hábitos de higiene para tentar evitar a Covid-19, até aprender a lidar com situações mais difíceis, como cortes de salários e transformações profissionais. 

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    Desde março, cada setor foi afetado pelo novo coronavírus. Eventos foram proibidos, salas de aulas precisaram ficar vazias e importantes decisões econômicas foram tomadas, com o aval do governo, para buscar manter empregos e renda aos brasileiros. Nesse cenário, medo, dúvidas e incertezas misturaram-se àquela sensação de “e agora, o que vou fazer?”.

    A solução para Liana Gualberto veio rápido. A assessora de comunicação e produtora de eventos trabalhava numa das áreas mais afetadas pela pandemia, mas não perdeu tempo quando percebeu que as restrições não iriam embora tão cedo. Junto com sua sócia, ainda em abril, já lançou a Fun!box, uma empresa de entrega de caixas personalizadas.

    — Como as pessoas não estavam mais saindo para comprar presentes, mas ainda queriam encontrar uma maneira de agradar quem elas gostavam, a gente decidiu lançar esse produto para que elas pudessem demonstrar um carinho, sentir um abraço.

    Em um momento em que todos ficamos mais distantes uns dos outros, comemorar alguma data ou ocasião especial não é mais igual, e por isso ela acha que a novidade pode ter dado tão certo.

    — A gente faz um produto totalmente personalizado, é como um abraço de quem está dando a caixa em quem está recebendo. As pessoas precisavam sentir esses abraços. A gente até pensou “comemorar?, no meio dessa pandemia?”. Mas criamos a ideia muito mais no sentido de acalentar, de levar um abraço e mostrar que a pessoa estava pensando na outra.

    É como um abraço de quem está dando a caixa em quem está recebendo. As pessoas precisavam sentir esses abraços Liana Gualberto

    Da escola para a casa dos alunos

    Além do setor de eventos, outra área também diretamente impactada foi a da educação. Com aulas presenciais suspensas, muitos professores precisaram se reinventar e adaptaram suas casas para as aulas on-line. Outros buscaram um novo nicho nesse mercado tão primordial.

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    Josiane Pauli foi um desses casos. Pedagoga e professora da educação infantil, ela havia recém-começado o emprego em uma nova escola quando o coronavírus atropelou todos os planos de ensino. Primeiro foi a redução salarial, depois a reorganização das turmas e professores para as aulas virtuais e, por fim, a suspensão do contrato. 

    Nesse meio tempo, Josiane, que também trabalha como recreadora de eventos infantis, começou a pensar no que poderia fazer para garantir o sustento da casa que mora com a mãe e um filho. Hoje, meses depois, conduz a própria empresa de reforços escolares, alfabetização e letramento e acompanhamento de aulas on-line.

    — Em julho começou a bater o desespero, então eu comecei a pensar no que eu poderia fazer. Foi aí que pensei na possibilidade de começar com aulas de reforço escolar. No começo eu não tinha alunos, mas aí surgiu uma oportunidade em um grupo de WhatsApp que participo e eu resolvi tentar. Deu certo, depois um foi indicando para o outro e hoje atendo em várias cidades da Grande Florianópolis.

    Mas Josi não ficou só no boca a boca para garantir que iria realizar seu trabalho. Ela também investiu em seu marketing pessoal, criou uma página no Facebook e fez anúncios em seu perfil do Instagram. O resultado começou a aparecer.

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    — No começo não foi fácil de me adaptar, eram novos hábitos, nova rotina, novos horários. Hoje já está um pouco mais organizado. Eu trabalho de segunda a sábado, começo às 10h e vou até às 20h. E ainda estou me adaptando, a cada criança, a cada família, e assim segue.

    Os desafios e as incertezas sobre o futuro

    A reinvenção não foi fácil para ninguém e continua sendo um desafio, principalmente para os pequenos empresários. Pablo Nima é figura conhecida por estudantes e servidores da UFSC pelos seus doces. Os famosos “Brownies do Pablo” eram vendidos na porta do restaurante universitário e garantiam o sustento dele, mas desde a suspensão das aulas a situação ficou difícil.

    — A gente vendia cerca de 600 brownies por dia. O trabalho era intenso. Algumas das pessoas que trabalhavam comigo eram estudantes de mestrado da UFSC, mas eu tive que dispensar todos porque não tínhamos como manter o emprego delas.

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    Com vendas na universidade interrompidas, Pablo conta que já precisou vender os doces nas ruas, em sinaleiras e até em aplicativos de delivery. Mas o retorno tem sido baixo e a preocupação com as contas continua.

    — Achamos que ia durar no máximo três meses e estávamos preparados para segurar a barra no início, mas não foi assim. Nossa venda caiu 90%, vamos continuar até onde der, mas estamos quebrando financeiramente, com pagamentos atrasados e tentando nos virar o máximo que dá para pagar as contas — explica Pabro.

    Achamos que ia durar no máximo três meses e estávamos preparados para segurar a barra no início, mas não foi assim Pablo Nima

    Mesmo após oito meses nessa situação, a reinvenção e o trabalho de todas as áreas seguem em constante adaptação. O sentimento de incertezas e as dúvidas com profissões, empreendimentos e novos negócios não foram embora. Porém, a esperança e força de vontade desses catarinenses podem servir de inspiração e mostram que é possível e preciso trabalhar para fazer a diferença.

    — O começo não foi fácil, a adaptação não é fácil. Você está num ambiente escolas, dentro da casa da família e precisa fazer a criança entender que você está ali para ajudá-la. Toda vez que uma família entra em contato comigo, eu vou não só pelo dinheiro, o dinheiro é a consequência do meu trabalho. Eu vou pela criança, para fazer a diferença na vida daquela criança – conta a pedagoga Joseli.

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    Liana Gualberto também destaca que, além de pensar em novos negócios e ir atrás, é preciso tentar arriscar em algo novo. Estudar, analisar e buscar referências podem fazer a diferença e ela acredita que ainda há espaço em todas as áreas.

    — Quando a gente viu que não ia voltar tão cedo ao normal, pensei “sou obrigada a me mexer” e em uma semana tive a ideia, criei a marca, fui montando a empresa, fiz as primeiras caixas, as fotos e lancei. Hoje recebemos feedbacks emocionantes, não só de quem envia, mas quem recebe também manda mensagem para agradecer pelo carinho. É isso que nos fortalece e nos faz ter certeza da escolha que tomamos.

    O dinheiro é consequência do meu trabalho, eu vou pela criança, para fazer a diferença na vida daquela criança Josiane Pauli

    — Eu amo a minha profissão e a lição que eu tiro desse ano é que eu pude me conhecer melhor e ver do que eu sou capaz. Aprendi a fazer vídeos, fui fazendo anúncios e aí as famílias e os alunos começaram a me conhecer e me procurar. Hoje já comecei a fazer parceria com a empresa de uma outra amiga, me tornei líder de recreação e isso foi um grande salto não só profissional como pessoal também. A gente precisa ter fé em Deus e acreditar mais na gente mesmo, ainda mais em períodos como como esse – conclui Josiane. 

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