Henriete Schultz passou pelo drama da reconstrução duas vezes. A moradora de Rio do Sul foi afetada pelas enchentes de 2011, que teve no Alto Vale do Itajaí a área mais atingida do Estado. Depois da casa de madeira ficar coberta de água, um ano depois ela ganhou uma nova residência, feita de placas de aço e isopor. Foi a mesma casa que Henriete viu ser arrastada pela enchente em novembro de 2023. Ela, dois filhos e o neto, de 3 anos, saíram do imóvel no bairro Budag com a água na cintura, já que tentaram salvar o máximo de bens possíveis.

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Primeiro, a família se abrigou na casa de uma vizinha na mesma rua, mas a água também chegou no local. Depois, foi preciso partir para um abrigo da igreja, de onde ela viu a casa se desprender da fundação e ser arrastada por cerca de 150 metros. A casa até foi trazida pela prefeitura de volta ao terreno, mas estava danificada por conta das chuvas e precisava de reparos para voltar a receber a família depois que a água baixou.

— A prefeitura não tinha verba para ajudar a montar a minha casa. Daí consegui vender a casa, porque se não ia enferrujar todo o material — relembra.

A escolha foi buscar uma outra casa para morar de aluguel. Mas, por conta dos preços, Henriete não conseguiu alugar um imóvel em uma área livre de enchentes. O novo lar, agora alugado, também fica em uma área com histórico de inundações.

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— É muito triste, porque a gente trabalha pra ter um conforto dentro de casa e vem a enchente e acaba com tudo, leva a história da vida da gente embora. Mas tive que levantar a cabeça e seguir em frente  — lamenta a diarista, de 55 anos.

A situação vivida por Henriete é o que milhares de gaúchos devem enfrentar em breve. Muitos perderam tudo o que tinham e tiveram a casa inundada pela água. Outros, como ela, tiveram os imóveis arrastados pela chuva e terão que recomeçar a vida praticamente do zero. Comércios, propriedades rurais e cidades inteiras foram arrasadas pelas cheias, considerada a maior da história do Estado.

A pesquisadora de gestão urbana e de desastres da UFSC, Franciely Veloso Aragão, destaca que ainda não é possível prever quanto tempo a reconstrução do Rio Grande do Sul irá demorar. Somente após fazer um levantamento da extensão dos danos e avaliar os recursos disponíveis será possível prever esse processo.

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— O tempo de recuperação vai depender de muitos fatores, principalmente dos recursos financeiros disponibilizados. A fase de recuperação foca em reconstruir as necessidades básicas dos atingidos, e normalmente ela é demorada e complexa. Por exemplo, a fase de reconstrução de Nova Orleans (EUA) após o furacão Katrina levou muitos anos — explica a pesquisadora.

Em entrevista coletiva na última semana, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), falou sobre a necessidade que algumas áreas críticas terão de ser mudadas de lugar. Ele afirmou que um levantamento, já em andamento, deve resultar em um grande plano, que não deve ser executado sozinho.

— Eu determinei justamente que no processo de levantamento dos impactos nós tenhamos com a Defesa Civil, a Secretaria de Planejamento, um olhar específico sobre aquelas cidades que terão a necessidade de um planejamento excepcional de transferência de locais inteiros. O que vai envolver um custo multibilionário — alegou durante a coletiva.

Indenizações às pessoas que viviam nessas áreas e transferências para novos espaços seguros são previstos para algumas cidades em localidades mais críticas, afirma o governador. Pela grandiosidade da obra, será necessário apoio para a realização do que já está no plano de ação gaúcho.

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Necessidade de migrar

O termo “refugiado climático”, que também pode ser referido como “refugiado do clima” ou “refugiado ambiental”, faz menção às pessoas que precisam deixar o país ou região onde vivem por conta do efeito das mudanças climáticas. A elevação de rios e mares, assim como tempestades mais intensas e outros fatores como escassez de água potável, estão entre as razões que podem resultar nessa necessidade de deixar o local de origem e procurar outro para viver.

A ACNUR, Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para refugiados, destaca ainda que pessoas que já eram refugiados por conta de conflitos ou outras crises são os mais afetados pela crise climática, já que vivem em áreas mais vulneráveis e expostas aos riscos.

Contudo, os “refugiados climáticos” ainda não estão protegidos pela Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, estabelecida pela ONU em 1941. A falta de uma definição exata e oficialização do termo torna a resposta ao problema mais lenta e dificulta a crise já existente.

Com a crise no Rio Grande do Sul, Santa Catarina já registra a migração de famílias gaúchas que têm buscado o Estado para se abrigar e recomeçar a vida. De acordo com o Governo do Estado de Santa Catarina, o acolhimento está sendo feito pela Assistência Social, que encaminha as famílias para abrigos, realiza encaminhamentos de documentação, solicita eventuais benefícios e até auxilia na entrada do mercado de trabalho.

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A Secretaria de Estado da Assistência Social, Mulher e Família (SAS) afirma que está realizando o mapeamento do número de famílias que estão migrando para Santa Catarina, e com base nesse levantamento pensa em lançar um programa específico para esse público. Na cidade de São João do Sul, já foram mais de 100 pessoas, e em Passos de Torres, 89 pessoas que acolhidas por conta das enchentes.

Desafios com enchentes não são exclusivos do Brasil

Outras partes do mundo buscam por projetos eficientes que consigam minimizar os impactos das chuvas, que têm se tornado cada vez mais frequentes e se intensificado com o passar dos anos e por influência das mudanças climáticas. É o caso do conceito das “cidades-esponja”, do arquiteto chinês Kongjian Yu. O modelo considera que a natureza é viva e se adapta, regulando a água.

Assim, são criadas áreas porosas próximas aos rios para que a água da chuva seja absorvida assim que cai. A criação de lagos, com vegetação, também desacelera a velocidade dos rios, o que possibilita com que a água escoe sem provocar destruição.

Além de cidades chinesas, o conceito foi adotado em Berlim, capital da Alemanha, e Copenhague, na Dinamarca, que incentivam cada vez mais a construção de áreas com capacidade de absorção da água da chuva. O concreto tem dado espaço a áreas verdes, parques, lagos e telhados verdes, que possuem capacidade de absorver a chuva e dar continuidade ao ciclo da água.

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Na Tailândia, um parque foi construído no centro da capital Bangkok para reter e redirecionar as águas da chuvas. Já no Japão, um sistema de canais subterrâneos faz o escoamento por baixo das ruas de Tóquio, em um sistema com mais de 6,3 quilômetros de extensão.

Mas o que poderia ser aplicado em Santa Catarina?

A professora Franciely Veloso Aragão afirma que soluções como essas, mais avançadas dentro do planejamento urbano, podem sim ser consideradas para Santa Catarina, já que elas aumentam a resiliência das cidades frente aos desafios climáticos que se aproximam.

Porém, ela afirma que é preciso realizar estudos das características das cidades para que essas medidas sejam adaptadas. Outro ponto necessário é o compromisso entre governo e sociedade para a implementação de forma eficaz.

— Muitas vezes focamos na criação de tecnologias mas não nos atentamos que áreas de riscos estão ocupadas e que o plano diretor é falho, ou seja, muitas vezes o básico não está sendo executado de forma eficiente — destaca.

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Entre as ações já existentes no Estado, a professora relembra de medidas como construção de barragens e sistemas de alerta precoce, já adotados em Santa Catarina devido ao histórico de inundações, assim como a existência de um centro de operações contra desastres.

— Mas essas estruturas muitas vezes não possuem manutenção preventiva, ainda há desafios em termos de financiamento, planejamento integrado e conscientização pública — afirma a pesquisadora.

Como conter o avanço da emergência climática

A oceanógrafa Regina Rodrigues, que realiza pesquisas dentro da área de mudanças climáticas, explica que entre as principais ações para parar o avanço do aquecimento global e da emergência climática está a contenção da emissão de gases do efeito estufa, com ações como o combate ao desmatamento.

— São dois fatores principais para a emissão: parar de queimar combustível fóssil e o desmatamento aqui no Brasil, que é onde a gente peca muito, porque 40% das nossas emissões vem de desmatamento. A gente tem que parar o desmatamento e fazer uma transição para a energia renovável e sair dessa dependência de petróleo — destaca a pesquisadora Regina.

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Ela também reforça a necessidade das autoridades e população trazerem questões ambientais para as políticas públicas, com pautas nos âmbitos locais, estaduais e nacionais.

— O custo que está sendo isso aí, em termos de vidas, de infraestrutura, de tudo. Agora imagina todo ano, em algum lugar do Brasil. O ano passado já foi a seca na Amazônia, já tivemos chuvas torrenciais. O Brasil não vai ter condições de ficar se reerguendo de todos esses desastres naturais — finaliza.

Além do combate aos fatores que geram as mudanças climáticas, o investimento em pesquisa e infraestrutura também precisa ser levado em consideração, com sistemas de alerta, planejamento urbano sustentável e políticas de resiliência climática.

— Se não tomarmos medidas efetivas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e mitigar os efeitos das mudanças climáticas, podemos esperar enfrentar desafios ainda maiores nas próximas décadas. Isso inclui mais eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, enchentes, secas prolongadas e ondas de calor, que podem ter consequências devastadoras para as comunidades, economias e ecossistemas locais — afirma a professora Franciely.

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Entre os principais investimentos estão a pesquisa científica e uma abordagem que considere os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), assim como a conservação de áreas naturais para reduzir os impactos das mudanças climáticas

— Investir em pesquisa científica e adotar uma abordagem transparente e colaborativa são passos essenciais para desenvolver soluções eficazes e sustentáveis. Em última análise, é fundamental reconhecer a urgência de agir agora para mitigar os impactos das mudanças climáticas e construir cidades mais resilientes e preparadas para enfrentar os desafios do futuro — finaliza Franciely.

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