Ciclones extratropicais formados na Argentina podem estar por trás da boa safra da tainha em Santa Catarina. Caio Magnotti, doutor em Aquicultura e engenheiro do Laboratório de Piscicultura Marinha da Universidade Federal de Santa Catarina (Lapmar/UFSC), afirma que o fenômeno pode ter favorecido a movimentação do peixe em direção ao litoral do Estado.
Continua depois da publicidade
— Tivemos dois ciclones extratropicais na Argentina, exatamente onde os cardumes se adensam, na região da Lagoa dos Patos e na saída do Rio da Prata. Então, provavelmente, esses ciclones podem ter empurrado de forma mais violenta e rápida esses cardumes que batem aqui em Santa Catarina — detalhou ao NSC Total.
Os ciclones mencionados apresentaram intensidade para impactar na movimentação dos peixes e também coincidiram com local e data de migração. O pesquisador considera essa uma possibilidade, mas ressalta que a movimentação das tainhas é complexa e envolve “condições climáticas, de vento, das correntes e da maturação dos peixes”.
FOTOS: Como foi a safra da tainha em 2025
O especialista da UFSC destacou que, para que os cardumes se movimentem, a água deve estar entre 19 °C e 21 °C, temperaturas que estão sendo observadas no litoral catarinense nos últimos dias.
— Passamos praticamente maio inteiro nesse intervalo de temperaturas. É a água ideal para esses peixes. Enquanto essa água não esfriar e não houver vento sul predominante por mais tempo, é possível que esses peixes fiquem mais tempo aqui na costa e tenham oportunidade de serem pescados — disse Magnotti.
Continua depois da publicidade
A modalidade arrasto de praia, tradicional em Santa Catarina e conhecida pelos grandes lanços, já ultrapassou 50% da cota prevista para 2026, segundo o PesqBrasil – Monitoramento, do Ministério da Pesca e Aquicultura.
O que explica a vinda de tainhas para Santa Catarina?
Mignotti afirmou que uma série de fatores impacta a movimentação das tainhas. Entre eles, as questões climáticas, como correnteza e ventos, por exemplo.
— Os mais antigos dizem que, quando temos uns três dias de vento sul, ele traz os cardumes para a costa e, quando entra o vento nordeste, esses peixes encostam na praia. Há uma série de questões, na verdade. As tainhas viajam nas margens das praias, mas a maior parte dos cardumes passa a até 60 metros de profundidade. O peixe que vemos não é tudo que passa — relatou.

A Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca de Santa Catarina, por sua vez, destacou que os volumes expressivos de captura de tainha no litoral são resultado de “condições ambientais, oceanográficas e climáticas favoráveis que contribuíram para a forte presença de cardumes no Estado em um curto período de tempo”.
Continua depois da publicidade
El Niño não deve impactar safra da tainha em 2026, afirma especialista
Caio Mignotti descartou uma possível influência do El Niño na safra da tainha de 2026. O fenômeno está previsto para o segundo semestre deste ano e a safra da tainha encerra em 31 de julho.
— Há um indício da formação do El Niño, com aquecimento do mar na região do Pacífico, mas provavelmente vai influenciar a partir de agosto. Para o ano que vem é possível que afete. Se a previsão se concretizar, é possível que exista alguma modificação nesses padrões de migração. Não podemos descartar 100%, mas não acredito que tenha impacto já nessa safra — afirmou.
Entenda o El Niño em 10 passos
O especialista também avalia que o fenômeno pode vir a alterar a “estocagem de juvenis”, os pequenos peixes que circulam no mar.
— A influência de chuvas, de temperatura e de mudança climática, talvez afete muito mais o crescimento desses juvenis e a sobrevivência deles nas lagoas, como a Lagoa dos Patos e o Rio da Prata — concluiu.
Continua depois da publicidade
Santa Catarina registra “supersafra” da tainha
Laurentino Benedito Neves, subsecretário de pesca, maricultura e agricultura de Florianópolis e que comanda o Rancho Saragaço, na Barra da Lagoa, classifica o período de pesca em 2025 como uma “supersafra”.
— Está sendo uma supersafra, com a pesca bem adiantada, na verdade. A venda está sendo feita na praia mesmo, para a comunidade e pequenas pescarias. Mas, quando se trata de grande quantidade, precisamos vender para a indústria, que paga um preço bem baixo, dificultando para os pescadores — relatou Laurentino ao NSC Total.
O pescador afirmou que, mesmo com 30 toneladas de tainhas pescadas em seu rancho até o momento, os peixes não foram descartados. Ele declarou que os pescadores “não vão deixar isso acontecer”.
A Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca reconheceu que o cenário tem gerado desafios para a absorção da produção pelo mercado.
Continua depois da publicidade
— Diante desse cenário, a Secretaria mantém diálogo permanente com representantes do setor pesqueiro, colônias de pescadores e demais órgãos envolvidos, buscando apoiar os profissionais da pesca — destacou em nota ao NSC Total.
















