O avanço das projeções climáticas para um novo episódio de El Niño tem colocado governos, pesquisadores e órgãos de defesa civil em alerta em diferentes regiões do Brasil. Em Santa Catarina, o temor são os eventos extremos como enchentes, deslizamentos e chuvas volumosas. Mas, afinal, já é possível saber como será o fenômeno neste ano?

Continua depois da publicidade

Segundo especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) ouvidos pelo NSC Total, a resposta ainda exige cautela. Embora modelos climáticos indiquem a possibilidade de um El Niño forte, o grau de intensidade do fenômeno e seus impactos concretos ainda dependem dos próximos meses.

— O problema não é fazer previsão. Os modelos conseguem projetar cenários até décadas à frente. A questão é a confiabilidade. As previsões têm mais confiabilidade para a próxima estação. Para saber melhor a intensidade do fenômeno, teremos que esperar mais ou menos até o final do inverno — explica o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e interfere nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

No Brasil, os efeitos costumam variar conforme a região. Tradicionalmente, o Sul registra aumento das chuvas e maior risco de enchentes, enquanto Norte e Nordeste enfrentam períodos de seca e calor intenso.

Continua depois da publicidade

Marengo destaca, porém, que não existe um “padrão clássico” totalmente previsível.

— Cada El Niño é diferente. O Sul do Brasil costuma mostrar impactos mais claros, com mais chuva, mas isso não significa automaticamente eventos extremos. Eles também podem acontecer em anos sem El Niño — afirma.

Entenda o El Niño em 10 passos

El Niño forte ou moderado: o que muda?

As projeções internacionais indicam, neste momento, possibilidade de um El Niño moderado a forte. Dados do Climate Prediction Center (CPC), dos Estados Unidos, apontam cerca de 37% de probabilidade de um evento forte durante o verão.

Segundo Marengo, a diferença entre um El Niño moderado e um forte está principalmente na intensidade dos extremos climáticos.

Continua depois da publicidade

— O aquecimento é maior e os eventos extremos passam a ser mais intensos: ondas de calor, chuvas fortes, secas — explica.

Ele ressalta, porém, que intensidade do fenômeno não significa necessariamente impactos proporcionais.

— Temos observado nos últimos anos El Niños moderados com impactos muito grandes na população.

Santa Catarina no radar

Em Santa Catarina, a preocupação é maior porque o Estado costuma sentir de forma mais direta os efeitos do fenômeno. Historicamente, episódios de El Niño aumentam o volume de chuva no Sul do país, especialmente entre primavera e verão.

Marengo afirma que os modelos climáticos atuais apontam justamente para esse cenário.

— Na região Sul aparecem projeções específicas de aumento de chuva, particularmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Se o padrão anterior se repetir, esses impactos podem começar já na primavera.

Continua depois da publicidade

Nos últimos episódios de El Niño, cidades catarinenses enfrentaram enchentes, enxurradas e deslizamentos. Em vista disso, o governo de Santa Catarina assinou no dia 18 de maio um decreto de “alerta climático” para antecipar ações de prevenção diante da previsão de um El Niño mais intenso no fim de 2026. A medida, segundo o governador Jorginho Mello (PL), busca reduzir burocracias e permitir que Estado e municípios atuem antes da chegada das chuvas fortes.

Em Blumenau, no Vale do Itajaí, a prefeitura chegou a mapear ribeirões em situação crítica para limpeza preventiva diante do risco de chuvas intensas. Na última quarta-feira (27), governo estadual também assinou um decreto de estado de alerta climático e ampliou medidas de preparação para eventos climáticos extremos.

Segundo meteorologistas da Defesa Civil do Estado, o aumento das chuvas deve começar de forma progressiva a partir de junho de 2026. Durante o inverno, o fenômeno já deve influenciar o clima no Estado, mas ainda com impactos menores. A maior preocupação está concentrada na primavera.

O auge do fenômeno está previsto para os meses de novembro, dezembro e janeiro

Amazônia, Nordeste e risco de incêndios

Enquanto o Sul teme excesso de chuva, Norte e Nordeste acompanham o risco oposto: seca severa e ondas de calor. Ainda, segundo Marengo, a combinação entre estiagem e altas temperaturas pode elevar significativamente o risco de queimadas e incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal.

Continua depois da publicidade

— Em 2023 e 2024 tivemos combinação de seca com calor extremo. Isso aumenta o risco de incêndios florestais e de crises hídricas — afirma.

O pesquisador lembra ainda que o El Niño não age sozinho. O aquecimento do Atlântico Tropical Norte também influencia diretamente os períodos de seca na Amazônia e no Nordeste brasileiro.

Aquecimento global pode piorar os efeitos

Para os pesquisadores, um dos fatores mais preocupantes é a combinação entre El Niño e aquecimento global.

— Um grau de aquecimento nos anos 1970, quando o planeta era mais frio, tinha impacto menor do que um grau de aquecimento hoje. O planeta mais quente potencializa os extremos — explica Marengo.

Continua depois da publicidade

Isso significa que fenômenos considerados moderados no passado podem gerar impactos muito mais severos atualmente.

Os reflexos atingem diferentes setores: agricultura, abastecimento de água, energia, saúde pública e biodiversidade. Marengo cita como exemplo a morte de quase 300 botos-cor-de-rosa no Lago Tefé, na Amazônia, durante a seca extrema de 2023.

Além da chuva: impactos sociais e na saúde mental

Os especialistas alertam que os efeitos dos eventos climáticos vão muito além dos danos materiais.

— Depois das enchentes no Rio Grande do Sul houve aumento de casos de depressão, suicídio, violência familiar e feminicídios. A saúde mental ainda é pouco estudada dentro dos desastres climáticos — afirma Marengo.

Continua depois da publicidade

Para Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden, o principal desafio agora é aprender a conviver com uma nova realidade climática.

— Já estamos em um novo regime climático. A mudança já está acontecendo — afirma.

Segundo ele, a comunicação sobre riscos precisa deixar de ser apenas alarmista e passar a orientar prevenção e preparação.

— A comunicação sensacionalista precisa ser regulada. O mais preocupante hoje não é alarmismo ou subestimação, mas a pouca comunicação sobre riscos já existentes no território.

O que esperar agora?

Apesar das projeções, os especialistas reforçam que ainda é cedo para cravar a intensidade definitiva do próximo El Niño.

Continua depois da publicidade

Os modelos climáticos continuarão sendo atualizados mês a mês, e as previsões tendem a ganhar mais precisão ao longo do inverno e da primavera. Até lá, a principal recomendação é de preparação.

— Não se trata de um problema futuro. É uma nova condição climática com a qual precisamos lidar diariamente — resume Marchezini.