A Cidade do México, capital de uma das maiores áreas metropolitanas do planeta, com mais de 22 milhões de habitantes, está afundando em um ritmo que já pode ser acompanhado com precisão por radares espaciais. Imagens captadas pelo satélite NISAR, desenvolvido em parceria entre a NASA e a agência espacial indiana ISRO, e divulgadas em maio de 2026 pelo Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, mostram que áreas críticas da metrópole cedem entre 25 e 35 centímetros por ano, ou cerca de 2 centímetros por mês em pontos específicos.

Continua depois da publicidade

O fenômeno, chamado tecnicamente de subsidência, é provocado pela compactação irreversível das camadas de argila após décadas de extração intensiva de água dos aquíferos subterrâneos, principal fonte de abastecimento da capital mexicana. Em pouco mais de um século, algumas regiões da cidade já afundaram mais de 12 metros.

E os efeitos estão por toda parte: o icônico monumento do Anjo da Independência precisou ganhar 14 degraus extras ao longo das décadas para que a população continuasse alcançando sua base, a Catedral Metropolitana apresenta inclinações visíveis, e o Aeroporto Internacional Benito Juárez está entre os pontos de maior preocupação. A seguir, o que dizem os cientistas, por que a Cidade do México afunda tanto, quais áreas estão mais ameaçadas e o que isso representa para o futuro da metrópole.

Cidade monitorada via tecnologia de ponta

Sensores avançados de banda L e banda S seguem mapeando a gravidade do colapso, capazes de enxergar diversas variações na superfície mesmo através de vegetação densa. O novo mapa de subsidência, fenômeno caracterizado pelo afundamento gradual do solo, evidencia áreas destacadas pela cor azul-escuro em bairros onde o terreno chega a ceder mais de 24 centímetros por ano, segundo dados divulgados pelo Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA.

Continua depois da publicidade

Além da análise de regiões urbanas, a missão NISAR também possui outras funções ambientais, como o monitoramento do derretimento das calotas polares e o acompanhamento das condições das florestas ao redor do planeta.

A tecnologia revelou que, na Cidade do México, o afundamento do solo ocorre de maneira desigual, atingindo principalmente regiões erguidas sobre sedimentações mais frágeis de antigos lagos. Dessa forma, o satélite passou a desempenhar um papel essencial no monitoramento de áreas onde construções e infraestruturas podem enfrentar riscos elevados de danos estruturais causados pela instabilidade do terreno.

Herança lacustre: o paradoxo dos degraus

O afundamento da capital mexicana fica cada vez mais evidente em sua arquitetura. O monumento do Anjo da Independência, no Paseo de la Reforma, inaugurado em 1910, teve o terreno ao redor rebaixado tão drasticamente que, ao longo dos anos, foi necessário construir 14 degraus extras para que a população continuasse tendo acesso à base da estrutura.

Continua depois da publicidade

Além dos impactos urbanos, a crise enfrentada pela Cidade do México também está diretamente ligada às características geográficas históricas da região. O processo de afundamento do solo reflete transformações acumuladas ao longo de séculos, agravadas pela exploração intensa dos aquíferos subterrâneos. Entre os principais fatores apontados por especialistas estão:

  • Fundação sobre antigos lagos: grande parte da cidade foi construída sobre o leito seco de lagos históricos, como Texcoco e Chalco;
  • Canais que desapareceram: áreas do atual centro histórico já funcionaram como canais navegáveis no passado;
  • Ecossistemas ameaçados: regiões úmidas remanescentes, como o Lago Nabor Carrillo, ainda servem de habitat para o axolote, espécie ameaçada pela degradação ambiental e pela instabilidade do solo;
  • Compactação do terreno: a retirada constante de água dos aquíferos para abastecimento provoca a compressão do solo, que perde volume de forma irreversível.
cidade do méxico
NASA flagra do espaço uma das maiores cidades do mundo afundando 2 cm por mês. (Foto: Banco de Imagens)

Patrimônio histórico ameaçado

Os impactos provocados pelo afundamento do solo atingem tanto monumentos históricos quanto estruturas essenciais da cidade. A Catedral Metropolitana, construída no século XVI, já apresenta inclinações perceptíveis aos visitantes que passeiam pelo local. Além disso, áreas estratégicas para a mobilidade e a economia da capital mexicana, como o Aeroporto Internacional Benito Juárez, principal terminal da cidade, também aparecem entre os pontos de maior preocupação identificados pelos radares da NASA.

Continua depois da publicidade

A constatação científica reforça um alerta global sobre como outras cidades do mundo enfrentam riscos parecidos ligados à crise climática e à exploração de recursos naturais, questão que também afeta o litoral brasileiro, incluindo cidades de Santa Catarina ameaçadas pelo avanço do mar até 2100.

Jean Lindemute