Nos últimos dias, Santa Catarina registrou ocorrências relacionadas à ressaca marítima, com casas e ruas danificadas em cidades como Florianópolis e Barra Velha. As prefeituras chegaram a decretar estado de emergência devido aos estragos e à erosão costeira. Os recentes episódios surgem como um verdadeiro símbolo do que pode-se esperar do futuro. Pelas projeções, se o aquecimento global não for freado, em menos de 80 anos lugares que hoje possuem imóveis terão de ceder espaço ao oceano, que ficará com o nível médio mais elevado (veja na galeria abaixo).

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Na semana passada, os danos à infraestrutura costeira, erosão de orlas, riscos a edificações próximas ao mar e bloqueios dos acessos viários fizeram a prefeitura de Barra Velha assinar o decreto de emergência. O documento, com validade de 180 dias, permite facilitar os gastos com ações imediatas de contenção. Itapema e Florianópolis, já nesta semana, fizeram o mesmo e se juntaram a um grupo de sete municípios que declararam emergência devido ao assunto apenas neste ano. Na capital, as fortes ondas atingiram propriedades à beira-mar e até postes de iluminação.

Como será em 2100?

Estudo da Climate Central mostra como podem estar algumas cidades de SC daqui a 80 anos por conta do aumento do nível do mar. Veja:

Santa Catarina, conforme dados federais do Atlas Digital de Desastres no Brasil, é o estado que mais sofre com erosão entre todos do Sul e Sudeste. Oficialmente, nos últimos 15 anos, foram 66 registros reportados à Defesa Civil nacional, com Florianópolis no topo da lista. Professora da UFSC, Marinez Scherer acredita que já passou da hora das cidades costeiras entenderem que a necessidade por se adaptar é mais que urgente:

— Santa Catarina vai ser um estado com muita vulnerabilidade por causa da crise climática em relação aos processos erosivos, a gente já tem levantamento sobre isso. O aquecimento global e do oceano já está dado.

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Futuro pessimista ou realista?

Pelas projeções já mostradas em reportagem especial do NSC Total em 2024, a Praia da Península, em Barra Velha, bem castigada nesta última ressaca, será uma das primeiras a ser “engolida” pelo mar. Conforme o mapa da Climate Central, que se baseia em diferentes dados científicos já publicados e revisados, caso os níveis de poluição não sejam controlados, o oceano vai ocupar também a ponta da Barra Sul, no encontro com o Rio Camboriú, tornando o espaço habitável menor em Balneário Camboriú.

Outro ponto que pode ter uma mudança significativa está em Tijucas, com a água atravessando a BR-101 nas áreas mais baixas. Em Laguna, no Sul, o mar mais elevado faria as lagoas também terem o nível mais alto, o que geraria uma grande inundação ao redor da Lagoa Jaguaruna.

Esses são apenas alguns dos impactos que devem ser observados em Santa Catarina a longo prazo. A preocupação sobre o futuro, no entanto, não tem parecido ser prioridade para as gestões locais no presente.

Erosão costeira, maré e aumento do nível médio do mar

A erosão costeira é um processo natural, assim como a maré (que sobe e desce diariamente), mas se torna um problema devido à urbanização que avança sobre a orla, expondo a necessidade de políticas de uso e ocupação do solo que considerem riscos costeiros, mostra um estudo da Associação Brasileira de Recursos Hídricos.

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Agravados pelas mudanças climáticas e por moradias à beira-mar, os desastres relacionados à erosão costeira são um problema global. No Brasil, aproximadamente 60% da população reside em uma faixa de 60 quilômetros ao longo da costa, e parte dela está exposta a eventos como os registrados neste mês em Santa Catarina.

O que houve foi uma “tempestade perfeita”, como detalhou o professor Paulo Horta. Ou seja, a combinação da maré astronômica com a meteorológica. A primeira, como o nome sugere, é caracterizada pela interferência da atração gravitacional exercida pela lua e pelo sol sobre a Terra. Desta forma, há o movimento periódico das águas do mar, que se elevam ou abaixam em relação a um ponto fixo da costa.

Quando as forças gravitacionais dos dois astros se alinham, geralmente durante a lua cheia e a nova, a amplitude da maré aumenta significativamente, fenômeno conhecido como maré de sizígia, a maré alta.

Já a maré meteorológica resulta da influência dos ventos sobre determinado ponto do oceano. Quando eles são positivos, de Sul/Sudeste, no caso da costa catarinense, “empurram” ainda mais as águas, aumentando o avanço delas sobre a faixa de areia. E é aí que ocorre a ressaca (a união das marés astronômica e meteorológica). Ambas são comuns em Santa Catarina, mas ganham contornos cada vez mais dramáticos devido à urbanização muito perto da praia e à intensificação causada pelas mudanças climáticas.

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Isso porque, o aquecimento global interfere diretamente no aquecimento das águas e no derretimento das geleiras nos polos do planeta. O derretimento origina o aumento no nível do mar, que já é uma realidade há décadas, com 20 centímetros a mais em relação ao que era no começo dos anos 1990. Parece pouco, mas o que preocupa a ciência é que, nos últimos anos, o comportamento do derretimento indica um processo de aceleração nessa elevação. Com o nível mais alto, as marés também ficam mais fortes e invasivas (apesar de que, na realidade, a invasão mesmo é do ser humano).

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