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    Como abraçar durante a pandemia

    Não só sentimos falta de abraços como precisamos deles

    15/06/2020 - 12h51

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    Por The New York Times
    abraço
    (Foto: )

    *Por Tara Parker-Pope

    Uma mulher canadense estava tão desesperada para ter contato físico com sua mãe durante a quarentena que criou uma "luva de abraço" usando uma lona transparente com mangas para que as duas pudessem se abraçar protegidas pelo plástico. Um vídeo de dois jovens primos no Kentucky se abraçando e chorando depois de semanas em quarentena foi compartilhado milhares de vezes.

    "Não esperávamos que eles reagissem da maneira como reagiram. Ficaram tão felizes que não sabiam como se expressar, a não ser chorando. Esse abraço mostra como o toque humano é poderoso", disse Amber Collins, que gravou o encontro de seu filho de oito anos, Huckston, com sua prima Rosalind Arnett, de dez.

    Não só sentimos falta de abraços como precisamos deles. O afeto físico reduz o estresse e acalma nosso sistema nervoso simpático, que, em momentos de preocupação, libera hormônios do estresse que são prejudiciais ao corpo. Uma série de estudos apontou que o simples ato de dar as mãos a um ente querido reduziu o sofrimento de um choque elétrico.

    "Os seres humanos têm caminhos cerebrais dedicados especificamente à detecção do toque afetuoso, que é a maneira como nosso sistema biológico se comunica com outro para dizer que estamos seguros, que somos amados e que não estamos sozinhos", afirmou Johannes Eichstaedt, cientista social computacional e professor de psicologia da Universidade Stanford.

    Para saber qual é a maneira mais segura de dar um abraço durante um surto viral, perguntei a Linsey Marr, cientista em aerossol da Virginia Tech e um dos principais especialistas mundiais em transmissão de doenças aéreas, sobre o risco de exposição viral durante um abraço. Com base em modelos matemáticos de um estudo realizado em Hong Kong que mostra como os vírus respiratórios viajam durante um contato próximo, Marr calculou que o risco de exposição durante um breve abraço pode ser surpreendentemente baixo – mesmo que você abraçasse uma pessoa que não sabia que estava infectada e acabou tossindo.

    Aqui está o porquê. Não sabemos a dose exata necessária para o novo coronavírus deixá-lo doente, mas as estimativas variam de duzentas a mil cópias do vírus. Uma tosse média pode expelir de cinco mil a dez mil vírus, mas a maioria dos respingos cai no chão ou em superfícies próximas. Quando as pessoas estão em contato próximo, normalmente apenas dois por cento do líquido da tosse – ou cerca de cem a duzentos vírus – são inalados ou respingam em outra pessoa. Mas apenas um por cento dessas partículas – apenas um ou dois vírus – na verdade será infeccioso.

    "Não sabemos quantos vírus infecciosos são necessários para deixá-lo doente – provavelmente mais de um. Se você não falar ou tossir enquanto abraça, o risco deve ser muito baixo", explicou Marr.

    Há uma enorme variabilidade na quantidade de vírus que uma pessoa expele, portanto o mais seguro é evitar abraços. Mas, se você precisar de um abraço, previna-se. Use máscara. Abrace ao ar livre. Tente evitar tocar o corpo ou a roupa da outra pessoa com o rosto e com a máscara. Não abrace alguém que esteja tossindo ou com outros sintomas.

    E lembre-se de que alguns abraços são mais arriscados que outros. Mantenha seu rosto em direção contrária ao rosto da outra pessoa; a posição do seu rosto é o mais importante. Não fale nem tussa enquanto estiver abraçando. E dê um abraço rápido. Aproxime-se da outra pessoa e abrace-a rapidamente. Quando terminar, não fique por ali. Afaste-se rapidamente, para que um não respire na cara do outro. Lave as mãos depois.

    E tente não chorar. Lágrimas e coriza aumentam o risco de entrar em contato com mais líquidos que contêm o vírus.

    Embora algumas das precauções possam parecer exageradas para um simples abraço, as pessoas precisam de opções, já que a pandemia ficará conosco por um tempo, disse Julia Marcus, epidemiologista de doenças infecciosas e professora assistente da Escola de Medicina de Harvard.

    "No momento, existe um desafio real para as pessoas mais velhas que se preocupam com o fato de que não poderão tocar nos familiares ou se conectar com eles pelo resto da vida. Dar abraços breves é extremamente importante porque o risco de transmissão aumenta com um contato mais prolongado", comentou Marcus. ______

    Aqui estão os prós e contras do abraço, com base nos conselhos de Marr e de outros especialistas:

    NÃO abrace olhando um para a outra pessoa

    "Essa é a posição de maior risco, porque os rostos estão muito próximos. Quando a pessoa mais baixa olha para cima, sua respiração exalada, devido ao calor e à leveza, migra para a área de respiração da pessoa mais alta. Se a pessoa mais alta olhar para baixo, existe a chance de que as respirações se misturem", disse Marr.

    NÃO abrace encostando as bochechas, com os rostos apontando para a mesma direção

    Essa posição, na qual os dois rostos apontam para a mesma direção, também é mais arriscada, pois o ar exalado de cada pessoa está na área de respiração da outra pessoa.

    ABRACE com os rostos apontando para direções opostas

    Para um abraço seguro e de corpo inteiro, cada um deve apontar o rosto para uma direção oposta, impedindo, assim, que um respire diretamente as partículas exaladas pelo outro. Usem máscara.

    Deixe que as crianças o abracem nos joelhos ou na cintura

    Abraçar na altura do joelho ou da cintura reduz o risco de exposição direta a gotículas e a aerossóis, porque um rosto fica distante do outro. Existe a chance de que o rosto e a máscara da criança contaminem as roupas do adulto, por isso considere a possibilidade de trocar de roupa e lavar as mãos após uma visita durante a qual você abraçou alguém. O adulto também deve apontar o rosto para o outro lado para não respirar sobre a criança.

    Beije seu neto na nuca

    Nesse cenário, os avós se expõem minimamente à respiração da criança. A criança pode ser exposta à respiração da pessoa mais alta, portanto beije usando máscara.

    Julian Tang, virologista e professor associado da Universidade de Leicester, na Inglaterra, que estuda como os vírus respiratórios viajam pelo ar, disse que acrescentaria mais uma precaução a um abraço em tempos de pandemia: prenda a respiração.

    "A maioria dos abraços dura menos de dez segundos, de modo que as pessoas devem conseguir fazer isso. Em seguida, afaste-se pelo menos dois metros antes de falar novamente, permitindo, dessa maneira, que o fôlego seja recuperado a uma distância segura. Prender a respiração impede que você exale qualquer vírus para a área de respiração da outra pessoa, caso você esteja infectado e não saiba – e impede que você inale qualquer vírus dela, caso ela esteja infectada e não saiba", explicou Tang.

    Yuguo Li, professor de engenharia da Universidade de Hong Kong e autor sênior do artigo que Marr citou para fazer os cálculos, comentou que o abraço provavelmente representa menos risco do que uma longa conversa cara a cara: "O tempo de exposição é curto, ao contrário de uma conversa, que pode durar o tempo que quisermos. Mas nada de beijo na bochecha."

    Li disse que o risco de exposição viral pode ser maior no início do abraço, quando duas pessoas se aproximam e podem respirar o ar uma da outra, e no fim, quando se separam. Usar máscara é importante, bem como lavar as mãos, porque há um baixo risco de pegar o vírus das mãos, da pele ou da roupa de outra pessoa.

    Marr observou que, como o risco de um abraço rápido com tais medidas de precaução é muito baixo, mas não inexistente, as pessoas devem escolher seus abraços com sabedoria. "Eu abraçaria amigos íntimos, mas não daria abraços casuais. Adotaria a abordagem de Marie Kondo: o abraço deve despertar alegria."

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