O cenário da apicultura em Faxinal dos Guedes, no Oeste de Santa Catarina, tem passado por uma transformação significativa nos últimos anos. O que antes era uma atividade com baixa produtividade, pouco conhecimento técnico e crescimento limitado, hoje se consolida como uma alternativa promissora de renda no campo, impulsionada por informação, organização e inovação.
Continua depois da publicidade
A trajetória dos irmãos Ricardo e André Tomazzi representa bem essa mudança. Donos de uma loja de materiais de construção no município, eles conciliam o trabalho urbano com a gestão da propriedade rural herdada do pai, onde mantêm atividades como o cultivo de milho, erva-mate, eucalipto e, cada vez mais, a apicultura.
No início, no entanto, o cenário era desafiador.
— Lá no começo a gente tinha bem poucas caixas de abelha, não conseguia aumentar o plantel e não sabia como fazer isso. A falta de informação foi o principal motivo de não expandir — relembra Ricardo.
Sem domínio técnico, a produção era baixa e irregular. Em 2014, quando começaram a medir os resultados, a média era de apenas 8 quilos de mel por caixa ao ano, um índice considerado baixo dentro do potencial da atividade.
Continua depois da publicidade
A virada com assistência técnica e manejo adequado
O ponto de mudança veio com o acesso à assistência técnica especializada e à adoção de práticas mais eficientes de manejo. A partir disso, os produtores passaram a compreender melhor o comportamento das abelhas, o ciclo produtivo e as necessidades das colmeias ao longo do ano.
Entre as principais evoluções está o uso de rainhas selecionadas e a técnica de divisão de enxames, que permite multiplicar colmeias de forma planejada.
— Hoje a gente pega um enxame e divide em dois, utilizando rainha. E no mesmo ano já consegue produzir nos dois. Isso ajudou muito a ampliar o número de caixas e também a produção — explica.
Outro fator decisivo foi o manejo correto das colmeias, baseado em orientação técnica. Antes, as decisões eram tomadas com base em experiências informais.
Continua depois da publicidade
— A gente fazia do jeito que alguém dizia que dava certo. Hoje, qualquer dúvida a gente pergunta para o técnico, que orienta a melhor forma. Isso clareou tudo. Não ficou mais dúvida — afirma.
Controle de pragas e troca de rainhas evitam perdas
O controle de pragas, especialmente da varroa, um dos principais problemas da apicultura, também passou a ser feito de forma mais eficaz.
— Antes a gente não tinha conhecimento nenhum sobre pragas. Hoje sabemos como tratar e evitar perdas — destaca.
A troca periódica de rainhas é outro manejo que passou a ser adotado com mais frequência, principalmente com o aumento da intensidade produtiva.
Continua depois da publicidade
— Quando a gente força mais a produção, precisa trocar mais seguido as rainhas. Isso ajuda a manter o enxame forte e produtivo — explica.
O acesso a programas públicos também contribuiu. Segundo os produtores, iniciativas do Governo do Estado, como a distribuição de rainhas sem custo, ajudaram a impulsionar a atividade.
Alimentação estratégica garante produtividade
A alimentação das abelhas, especialmente no inverno, é outro ponto-chave para o aumento da produção. Durante esse período, a escassez de floradas e as baixas temperaturas exigem suplementação.
— A gente utiliza bife proteico, açúcar e, em alguns casos, xarope. No inverno isso é fundamental para manter o enxame forte — detalha.
Continua depois da publicidade
No verão, apesar da maior disponibilidade de flores, a alimentação também pode ser necessária em períodos de chuva prolongada ou quando os enxames estão mais fracos.
Todo esse conjunto de práticas reflete diretamente nos resultados. Hoje, a produção média já chega a 35 quilos de mel por caixa ao ano, mais de quatro vezes o registrado há pouco mais de uma década.
E a expectativa é ainda mais positiva para o ciclo atual.
— Já colhemos 25 quilos por caixa e ainda tem mais uma colheita. Tem grande chance de passar dos 35 esse ano — projeta.
Atualmente, os irmãos mantêm cerca de 50 caixas de abelhas, com possibilidade de expansão em breve.
Apicultura migratória amplia potencial de produção
Uma das estratégias mais recentes adotadas pelos produtores é a apicultura migratória, que consiste em deslocar as colmeias para regiões com maior oferta de floradas.
Continua depois da publicidade
A experiência inicial já demonstrou resultados expressivos. Em uma área com grande concentração de eucalipto, no município de Xaxim, a produção surpreendeu.
— Em 20 e poucos dias colhemos cerca de 200 quilos de mel. Se as abelhas estivessem na nossa propriedade, a gente não teria colhido nada ainda — relata.
Ainda em fase inicial, a técnica é vista como uma aposta para aumentar ainda mais a produtividade.
— Estamos dando os primeiros passos, mas a tendência é expandir para outras áreas. É uma coisa que está mostrando resultado — afirma.
Associação fortalece cadeia produtiva e garante avanços estruturais
O crescimento da apicultura em Faxinal dos Guedes também está diretamente ligado à organização dos produtores por meio da Associação Faxinalense de Apicultores (AFAM), que hoje reúne cerca de 35 integrantes e tem sido fundamental para o fortalecimento da atividade no município.
Continua depois da publicidade
Além de promover a união dos produtores, a associação teve papel decisivo na manutenção da assistência técnica, considerada essencial para a evolução da produção.
— A AFAM é um trabalho excepcional. Depois que a gente formou a associação, conseguimos manter o trabalho do técnico, que era algo que a gente batalhou junto à prefeitura. Sem o consultor, a apicultura enfraquece muito — destaca Ricardo.
Segundo ele, a atuação coletiva deu mais representatividade aos produtores, facilitando o diálogo com o poder público e garantindo a continuidade de políticas importantes para o setor.
Outro avanço significativo conquistado por meio da associação foi a aquisição de equipamentos que modernizaram o processo produtivo.
Continua depois da publicidade
— Conseguimos dois kits completos de extração de mel, um em Faxinal e outro na Barra Grande. Eles têm desoperculadora, centrífuga, tudo que precisa. Isso facilita muito o trabalho — explica.
A melhoria na estrutura, segundo os apicultores, também incentivou a ampliação do número de colmeias.
— Esses equipamentos motivaram a gente a aumentar as caixas de abelha, porque o trabalho ficou mais ágil e organizado completa.
Além disso, a associação também possibilita a compra coletiva de insumos, reduzindo custos e facilitando o acesso a materiais, mesmo para produtores com menor demanda.
Continua depois da publicidade
Qualidade e mercado ampliado
Outro avanço importante foi a padronização do produto e a possibilidade de comercialização em maior escala. A parceria com uma associação em Quilombo permite o envase do mel com inspeção e certificação, garantindo qualidade e ampliando o mercado.
Além disso, os apicultores passaram por capacitação em boas práticas de manipulação de alimentos, elevando o padrão do produto final.
— O mel é limpo até sair da caixa. Depois disso, cada um fazia de um jeito. Com o curso, a gente passou a ter mais cuidado e garantir qualidade para quem compra — afirma.
Diversificação e futuro no campo
Na propriedade de 24 hectares, a apicultura se soma a outras atividades, como o cultivo de milho, erva-mate e eucalipto, formando um sistema diversificado de produção.
Continua depois da publicidade
Mesmo com a loja de materiais de construção, os irmãos veem na apicultura um caminho de crescimento consistente.
— Hoje a gente vê que, com informação e manejo correto, dá resultado. A apicultura tem muito potencial ainda — conclui Ricardo.
Com aumento expressivo na produção, adoção de novas técnicas e fortalecimento coletivo, a atividade se consolida como uma alternativa cada vez mais viável e estratégica para os produtores do Oeste catarinense.















