Um estudo feito por cinco anos culminou em um achado que reconta a história da caça de baleias em todo o mundo. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros se uniram para analisar peças “esquecidas” em caixas no Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ). Com a ajuda de novas tecnologias, foi descoberto que esses artefatos na verdade eram arpões criados e usados há mais de 5 mil anos para abater animais marinhos na Baía Babitonga, em Santa Catarina.

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A arqueóloga Dione da Rocha Bandeira explica que o fato mostra que os povos originários da região caçavam e matavam baleias, de forma intencional, há mais tempo do que se imaginava. Até então, as evidências mais antigas desse tipo de prática vinham de sítios arqueológicos no Ártico e no Pacífico Norte, com registros entre 3.500 e 2.500 anos atrás.

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Até a conclusão do estudo “Identificação molecular e zooarqueológica de arpões de osso de baleia com 5000 anos de idade no litoral do Brasil”, que foi publicada pela revista científica Nature em janeiro, acreditava-se que os povos sambaquianos se limitavam apenas a construir arpões com matéria prima que vinha da exploração de baleias encalhadas ou carcaças trazidas pela maré.

No entanto, ficou provado que as ações também eram feitas de forma intencional. Os arpões eram produzidos para abater baleias em alto mar, o que demonstra conhecimento técnico e organização social suficientes para organizar as caças.

Novas tecnologias

A pesquisa iniciou, ainda em 2020, a partir do trabalho de conclusão de curso (TCC) de uma egressa da Universidade da Região de Joinville (Univille). Na época, Tatiane Andaluzia Kuss da Silveira Monte fez um levamento sobre os cetáceos da região.

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Em parceria com André Carlo Colonese, da Universidade Autônoma de Barcelona, o potencial da coleção do MASJ foi novamente debatido. Assim, a pesquisa foi ampliada, integrou outros cientistas e resultou no desdobramento histórico.

Dione da Rocha Bandeira, professora da Univille e Arqueóloga do MASJ, revela que os artefatos analisados no estudo estavam há décadas guardados no museu joinvilense. Grande parte foi descoberto por um arqueólogo amador, o Guilherme Tiburtius, entre 1940 e 1960. O alemão radicado na maior cidade catarinense decidiu doar os achados ao MASJ e, desde então, pesquisadores buscam entender para o que serviam na época em que foram construídos.

André Carlo Colonese contou ainda, à revista científica Science, que ficou surpreso ao se deparar com os artefatos guardados por décadas.

— Os curadores foram até o fundo do depósito e trouxeram caixas empoeiradas com artefatos de osso de baleia dentro. No momento em que tiraram os objetos das caixas, eu disse: “Pessoal, isso são arpões” — relatou Colonese.

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Identificação

Dione detalha que, em geral, a identificação dos animais que foram aproveitados pelas populações do passado é feita a partir dos restos encontrados em sítios arqueológicos.

— Depois vêm para os museus. Mas a análise tradicional da zooarqueologia tem bastante limitações, porque os materiais muitas vezes estão bastante fragmentados — conta.

De acordo com a arqueóloga, para fazer a identificação do elemento ósseo e da espécie, procedimento chamado de identificação taxonômica, é preciso que o elemento ósseo esteja relativamente bem preservado para comprovar a morfologia. Após esse passo, é ainda necessário comparar os artefatos com outros ossos que existem nas coleções de referência ou na literatura nos bancos de dados.

Somente nos últimos anos as tecnologias avançaram o suficiente para auxiliar na descoberta. As análises dos materiais do MASJ foram enviados para Barcelona, na Espanha, e ficaram sob o cuidado da pesquisadora Krista McGrath. Ela foi a responsável por reexaminar os artefatos com as tecnologias ofertadas pela universidade.

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Dione conta que uma das técnicas utilizadas para chegar à conclusão foi a espectrometria de massa. A partir do colágeno encontrado nos ossos, os pesquisadores também puderam identificar qual era a espécie dos animais usados para fazer os arpões. Além disso, foi também usada a zooarqueologia convencional.

Sambaquis na Baía Babitonga

Foram analisados 100 amostras do acervo do MASJ, coletados artefatos encontrados em 18 sambaquis da Baía Babitonga, localizados em cidades como Joinville, Araquari, São Francisco do Sul e Balneário Barra do Sul.

Conforme o estudo, os objetos foram descobertos durante o desmantelamento de sítios arqueológicos para a produção comercial de cal e aterros, prática que persistiu no Brasil até a década de 1960, que serviria para o desenvolvimento da malha rodoviária brasileira. Muitos desses sítios não existem mais, restando apenas os artefatos e restos humanos e faunísticos preservados na coleção de Tiburtius.

A maioria dos ossos analisados são de baleias-francas-austrais, uma espécie conhecida por se reproduzir e criar seus filhotes perto da costa durante os meses de inverno do Hemisfério Sul.

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Valorização da história

A arqueóloga Dione da Rocha Bandeira conta que a descoberta da caça intencional de baleias na Baía Babitonga mostra a riqueza, diversidade e a sabedoria que os povos sambaquianos e indígenas tinham, muito antes da região ser colonizada por europeus. Ela ainda diz que o estudo serviu também para valorizar essas sociedades e o patrimônio arqueológico, indígena e museológico, de Joinville e região no Norte de Santa Catarina.

O estudo foi feito em parceria pelos pesquisadores Dione da Rocha Bandeira, Fernanda Mara Borba, Tatiane Andaluzia Kuss da Silveira Montes, Marta J. Cremer, Ana Paula Klahold Rosa, Thiago Fossile, André Carlo Colonese, Krista McGrath, , Laura G. van der Sluis, Thomas Higham e Maria Saña.