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O caminho do armamento

Como o acesso a armas cada vez mais modernas e potentes influencia na violência em SC

As pistolas e fuzis usados pelo crime organizado são parte importante dos problemas da segurança pública no Estado 

03/03/2018 - 05h51 - Atualizada em: 03/03/2018 - 07h35

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Por Redação NSC
(Foto: )

Escondidas em fundos falsos ou até dentro de tanques de combustíveis de veículos, percorrendo desde as rodovias mais movimentadas até as estradas vicinais do interior, as pistolas e fuzis usados pelo crime organizado são parte importante dos problemas da segurança pública em Santa Catarina. Cada vez mais moderno e potente, o armamento é combustível dos confrontos entre as duas facções que disputam o controle de territórios do tráfico de drogas nas maiores cidades catarinenses e geram violência, mortes e medo.

Armas utilizadas para assaltos, ataques a bens públicos, proteção de bocas de fumo, homicídios e execuções entre criminosos, além de símbolo de “status” nas facções, entram no Estado principalmente pelos 754 quilômetros da fronteira seca de Santa Catarina com o Paraná. Em pequenos carregamentos, com viagens frequentes, os criminosos se utilizam da localização estratégica do Estado, mais próximo de países como Paraguai, Argentina e Uruguai do que São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, para aumentar o poder de fogo.

É o caso do esquema descoberto pela Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) em 2015, em parceria com a Polícia Federal e Polícia Civil do Rio Grande do Sul, em que armas entravam no Brasil pela fronteira da cidade gaúcha Santana do Livramento com a uruguaia Rivera, lembra o delegado Anselmo Cruz, diretor da Deic.

— As armas passavam por Porto Alegre e entravam em Santa Catarina. Era um esquema pesado de tráfico internacional de armas, que durou dois anos, com armas originais e novas. A partir de 2015, essa rota mudou para o Paraguai, que entra em Santa Catarina pela extensa divisa com o Paraná, onde há diversas estradas secundárias em que não há policiamento — explica Cruz.

No Estado, ao contrário de Florianópolis, as apreensões de armas vêm diminuindo desde 2015, e nos últimos anos caíram de 4.118 em 2016 para 3.514 no ano passado, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Apesar dessa diminuição, ela só ocorreu porque em 2017 não houve nenhuma grande apreensão como as 653 pistolas apreendidas em agosto de 2016 na região da fronteira com a Argentina e as 813 pistolas tiradas de circulação em novembro de 2015, também na fronteira.

Para o delegado Cruz, as extensas faixas territoriais de fronteira tornam impossível haver um controle de tudo que entra no Estado por essas regiões, além dos efetivos insuficientes das polícias.

— São estradas secundárias, caminhos alternativos dentro de estâncias e fazendas, em extensas faixas de terra, por isso as apreensões são no gota a gota. Mas, mesmo assim, são golpes nas quadrilhas as apreensões pequenas — destaca.

População sente os efeitos

Fuzis calibre 5.56, de fabricação americana ou canadense e pistolas 9mm ou calibre .45, de uso restrito, além dos tradicionais revólveres 38, são as armas mais usadas e que têm sido apreendidas cada vez em maior quantidade em Florianópolis — 432 em 2017 contra 347 em 2016. Crescimento exponencial que começou a vigorar em 2013. Antes, e durante décadas, apenas revólveres eram apreendidos com traficantes e assaltantes na Capital.

Com a disputa entre facções e o lucrativo mercado de drogas espalhado pelo Continente, Centro e norte da Ilha, os criminosos se armaram mais. Apenas nos primeiros 60 dias de 2018, os três batalhões da Polícia Militar da Capital, com o apoio do Bope e Choque, já aprenderam 80 armas na cidade, entre elas quatro fuzis em fevereiro.

— Se não tivéssemos apreendido mais de 800 armas em três anos, quantas pessoas teriam morrido? — questiona o coronel Renato Cruz Júnior, comandante da 1ª Região da PM.

É em assaltos a joalherias e bancos, como os ocorridos em Florianópolis em 2017, e a supermercados, com registros na Capital e São José neste ano, que a população se vê na mira de armamento pesado utilizado pelo crime organizado. E a sensação é de pavor, como relatou um homem que estava com a filha em um assalto a um mercado do bairro Monte Verde, sentido às praias do norte da Ilha, em janeiro deste ano.

— Eu fiquei com muito medo, estava com minha filha. Os caras entraram, mandaram ir para o chão, colocaram o pé nas minhas costas e até agrediram os caixas que demoravam a tirar o dinheiro — falou o homem que preferiu não se identificar.

Homicídios e execuções, muitas delas em locais públicos e de grande movimento, marcaram o ano de 2017 em Florianópolis. Mortes “por engano”, também, casos da gaúcha Daniela Scotto, 38 anos, morta no Papaquara, e do paulista Jadson de Andrade, 30 anos, executado no Moçambique, duas localidades do norte da Ilha.

Em 2018, a Polícia Civil investiga três mortes “por equívoco” e trabalha com a hipótese mais forte de que um triplo homicídio, em 18 de fevereiro, no Morro da Caixa, tenha ocorrido por engano, de acordo com o delegado Verdi Furlanetto, diretor da polícia da Região Metropolitana de Florianópolis. Rogério da Silva Nogueira, 39 anos, Luiz Felipe Alves Feitosa, 24, e João Vitor Oliveira Padon, 20, teriam sido mortos, com mais de 50 tiros de pistolas, ao serem confundidos com bandidos de uma facção paulista que disputa território com a facção catarinense.

— Tudo leva a crer que foi um equívoco — resume Furlanetto.

"São armas legais que acabaram nas mãos de marginais"

O cabo PM Elizandro Lotin, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que boa parte do armamento de pequeno calibre — revólveres e pistolas — nas mãos de criminosos, “são armas legais que em determinado momento acabaram nas mãos de marginais”. Nessa conta, não entram pistolas de uso restrito, como a 9mm, uma das mais apreendidas no Estado e que costumam vir do Paraguai, mas passam pela Argentina para entrar em SC através das fronteiras com o país vizinho. Também do Paraguai vem os fuzis, diz Lotin, que também podem ser originários dos Estados Unidos.

— Nossas fronteiras, não apenas em SC, mas no Brasil, são uma peneira. Passa tudo. O que vem do Paraguai entra pela divisa com o Paraná, mas a rota também pode ser feita pela Argentina. O problema é que não existe uma fiscalização forte para coibir esse problema — avalia Lotin.

Sobre o fato de armas de uso restrito serem fabricadas fora do Brasil, Lotin observa que devido aos tentáculos de facções criminosas que se espalham pelo país, esse armamento muitas vezes chega a Santa Catarina por terra vindo de outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo.

— Armas longas vêm de fora. Arma pequena, a maioria já foi legal um dia. Também acontece de vir daqui de dentro, porque essa é a lógica do crime organizado, hoje ele está disseminado, com tentáculos em Santa Catarina e outros estados. Assim, armas e drogas circulam por diferentes estados.

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