Alguns eventos históricos carregam uma carga de destruição tão vasta que resistem à plena compreensão humana. E, no entanto, eles nos impõem o fardo de tentar entendê-los, repetidamente. Chernobyl é, sem dúvida, o maior desses marcos.
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Em 26 de abril de 1986, precisamente à 1h23min da manhã, o reator nº 4 da usina nuclear de Chernobyl, situada na Ucrânia soviética, explodiu. O acidente liberou uma nuvem de material radioativo que cruzou fronteiras europeias e contaminou territórios onde viviam cerca de cinco milhões de pessoas, entre ucranianos, bielorrussos e russos.
Embora o cálculo definitivo de mortes atribuíveis à explosão e às suas repercussões permaneça impossível, os registros imediatos são severos: 31 pessoas morreram no ato ou sucumbiram à Síndrome Aguda da Radiação nos meses seguintes. Estimativas para os anos subsequentes, contudo, indicam que o número de vítimas pode atingir 10 mil.
Cerca de 116 mil pessoas foram evacuadas da zona de exclusão de 30 quilômetros nas duas semanas posteriores ao acidente. À medida que a poeira radioativa se depositava em florestas e rios, envenenando o ecossistema e o abastecimento de água, ela também se fixava, de forma indelével, no imaginário cultural do planeta.
Quarenta anos depois, o mundo ainda busca decifrar o que ocorreu — e o que esse evento projeta sobre o futuro.
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O desastre é o epicentro de uma produção cultural inesgotável. Inúmeros livros, documentários, séries, obras de arte, peças teatrais, videogames e histórias em quadrinhos tentam dar visibilidade ao que era invisível na época: não apenas a radiação e seus efeitos letais sobre o organismo, mas o esforço deliberado do governo soviético em ocultar a magnitude do ocorrido.
Recentemente, a escritora e ilustradora ucraniana Yevgenia Nayberg publicou sua autobiografia em quadrinhos, “Chernobyl, Life, and Other Disasters”. A obra é um künstlerroman (romance de formação artística) que narra seu crescimento sob a longa sombra do desastre.
Nascida em Kiev, Nayberg tinha 11 anos e iniciava seus estudos em arte quando ouviu pelo rádio que “um dos reatores nucleares havia sido danificado”, mas que “a situação estava sob controle”. Em entrevista recente, a autora refletiu que o maior desafio de escrever o livro foi tentar esquecer que, hoje, ela conhece o desfecho daquela história.
Em suas memórias, ela prioriza a precisão da vivência real em contraste direto com o sigilo e a obscuridade da resposta estatal. “Eles ficam repetindo a mesma coisa sem parar”, declara a jovem Nayberg na obra. “Isso significa que estão escondendo alguma coisa.” Seus familiares chegaram à mesma conclusão: se antes fingiam confiar nas notícias oficiais, o desastre rompeu essa ilusão de vez.
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O colapso da verdade
Em 2006, em seu ensaio “Ponto de Virada em Chernobyl”, Mikhail Gorbachev, o último líder soviético, argumentou que o acidente foi, talvez, a causa real do colapso da União Soviética cinco anos depois. Para ele, o desastre dividiu a história em duas eras distintas.
No entanto, análises contemporâneas sugerem que o desmoronamento não foi provocado apenas pela explosão, mas pelo que ela revelou: a extensão da disposição governamental em mentir para o próprio povo e para a comunidade internacional. Gorbachev silenciou por uma semana inteira antes de assegurar ao mundo que “o pior já havia passado”, enquanto atacava o que chamava de “montanha de mentiras” da mídia ocidental.
Essa preocupação com a verdade e o engano é o motor de quase todas as narrativas sobre o tema. Na memória coletiva, Chernobyl não é um evento estático, mas um contágio que continua a sofrer mutações. Entre a vasta bibliografia, destacam-se Vozes de Chernobyl (1997), da Nobel Svetlana Alexievich; o relato técnico de Grigori Medvedev, Chernobyl Notebook (1987); e os estudos historiográficos recentes de Serhii Plokhy (Chernobyl: History of a Tragedy) e Adam Higginbotham (Midnight in Chernobyl). Embora distintos, todos lidam com uma crise de representação: a dificuldade de expressar, através da linguagem, algo que desafia a lógica humana.
Plokhy, professor de Harvard que cresceu próximo ao reator e teve a tireoide afetada, encerra seu relato com um aviso contundente: o mundo não suportaria um segundo Chernobyl.
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A estética da radioatividade
O primeiro registro visual do desastre foi capturado apenas três dias após a explosão. O documentário Chernobyl: Crônica de Semanas Difíceis (1986), dirigido por Vladimir Shevchenko, registrou a limpeza realizada por voluntários e trabalhadores ucranianos — os liquidadores —, muitos dos quais pagariam com a vida. O filme, fruto de três meses de filmagens intensas, começa com tomadas aéreas do reator destruído e discursos de Gorbachev tentando gerenciar a crise.
A narrativa do documentário inicialmente tentou absorver o desastre na mitologia soviética do heroísmo, utilizando linguagem bélica: a zona de exclusão era a linha de frente e os trabalhadores eram soldados. Aqueles que recuavam eram rotulados como desertores e covardes. No entanto, o que a câmera revelou foi algo mais sinistro.
Os flashes brancos e crepitantes na tela, que a equipe inicialmente atribuiu a defeitos no filme, eram, na verdade, a radiação saturando a película. “Estávamos enganados”, explicou Shevchenko. “É assim que a radioatividade se parece.” O cineasta morreu de síndrome aguda da radiação menos de um ano depois. Seu filme, censurado e lançado postumamente, é frequentemente chamado de “o filme mais perigoso do mundo”.
As crianças e as cicatrizes
Apesar do esforço de silenciamento, o volume de filmagens existentes é surpreendente, em grande parte porque os soviéticos documentaram tudo acreditando que registrariam uma vitória gloriosa. Com o tempo, as imagens serviram para provar o contrário. Em 1987, o filme O Sino de Chernobyl sugeria a total falta de preparo soviético. A obra curiosamente não chegou a tempo para sua exibição no Festival de Berlim devido a pressões internas na URSS.
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Na década de 1990, documentários como Pripyat (1996), de Nikolaus Geyrhalter, mostraram a zona de exclusão 10 anos depois: um mundo estático de florestas congeladas e ruas retomadas pela natureza. O foco, contudo, recaiu sobre as vidas que permaneceram ali, como técnicos que brincavam com a própria segurança para manter o que restava da usina funcionando.
O impacto mais visceral surgiu nos anos 2000 com o foco nas “crianças de Chernobyl”. O curta Chernobyl Heart (2003), vencedor do Oscar, acompanhou missões humanitárias pela Bielorrússia e Ucrânia, revelando maternidades onde apenas 20% dos bebês nasciam saudáveis. O filme expôs imagens chocantes: crianças com má-formações cerebrais e paralisia severa. Muitas delas nem sequer sabiam de sua condição. Em uma cena devastadora, uma adolescente acredita ter apenas “problemas no pescoço”, enquanto o médico confirma à câmera que se trata de câncer de tireoide. Maryann De Leo, a diretora, foi hospitalizada por intoxicação radioativa durante as filmagens.
Segredos, mentiras e o legado final
Recentemente, a minissérie da HBO Chernobyl (2019) tornou-se a adaptação mais influente da tragédia, focando na figura de Valery Legasov, o cientista que liderou os esforços de contenção e cometeu suicídio dois anos após o desastre. A série critica a estrutura de poder soviética e as falhas na comunicação de riscos, inspirando-se fortemente no trabalho polifônico de Svetlana Alexievich.
O livro de Alexievich dá voz a mais de 500 testemunhas, revelando a “violência lenta” que persistiu muito após o selamento do reator. Relatos de pais que, sem saber, deram bonés contaminados aos filhos e viúvas que cuidaram de maridos transformados em “objetos radioativos” compõem um quadro de horror e humanidade. Como Lyudmila, esposa do bombeiro Vasily, que permaneceu ao lado do marido enquanto seu corpo se desintegrava. Alexievich escreve que, desde Chernobyl, o amor e a morte mudaram de natureza.
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A historiadora Maria Tumarkin resume o sentimento de uma geração: como uma sociedade testemunha a si mesma falhando em seu dever fundamental de proteção? Os textos mais profundos sobre o tema evitam o sensacionalismo para focar no “custo das mentiras” e na catástrofe que não termina. Algumas consequências de Chernobyl são imensuráveis e só podem ser sentidas. Por isso, esta continua sendo uma história que precisa, e continuará sendo, contada.
