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FUTURAMENTE NA CIDADE

Como será a Blumenau dos próximos 50 anos

No aniversário do Santa, reportagem especial propõe debate sobre desindustrialização, região metropolitana e mobilidade de um município que deve chegar à marca de 500 mil habitantes até 2071

22/09/2021 - 06h04 - Atualizada em: 24/09/2021 - 08h44

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Evandro
Por Evandro de Assis
Região da Prainha, na Ponta Aguda.
Região da Prainha, na Ponta Aguda.
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Cinco anos atrás, quando o empresário Ike Ferreira decidiu provocar conhecidos a discutir o futuro da cidade, já era mania no Facebook o grupo Antigamente em Blumenau, reunião de 40 mil pessoas interessadas em lembrar o pretérito e comungar a saudade de tempos já vividos. 

Fotos em preto e branco, carros antigos, famílias posando diante de casas que já não existem, ruas alagadas por enchentes históricas… O engajamento dos blumenauenses no resgate do passado despertou Ferreira a propor o mesmo, mas no sentido inverso. 

Teria o novo o mesmo potencial agregador?

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Surgia ali, em agosto de 2016, o Futuramente em Blumenau. Com um objetivo ambicioso: “Deixar para nossos filhos uma cidade ou um projeto de vida melhor”. Longe de alcançar a popularidade do coirmão, o novo coletivo expandiu-se devagar. Hoje são 3,8 mil membros, mas com posts que rendem longos debates sobre urbanismo, áreas de lazer, preservação do patrimônio histórico e, o tópico mais frequente, mobilidade.

— Gostaria de viver numa cidade em que você pegasse um ônibus de qualidade, que me levasse para qualquer lugar em pouco tempo, pontual. Uma cidade onde cada bairro tivesse parques e espaços para as pessoas, com ruas mais humanizadas, calçadas largas, velocidade reduzida dos carros, respeitando mais os pedestres. Uma cidade mais feliz — imagina Ferreira.

O Jornal de Santa Catarina registrou os 50 anos passados de Blumenau e região em textos e fotografias. Pode-se acessar instantes da cidade desde 1971 por meio do acervo que acaba de ser doado ao Arquivo Histórico José Fereira da Silva. 

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Vislumbrar o município de daqui 50 anos, no entanto, é um exercício de imaginação. Não existem estudos científicos ou programas governamentais locais com um horizonte tão distante. Mas há tendências perceptíveis de como viverão os filhos e netos dos atuais blumenauenses adultos.

Os jornalistas do Santa de 2071 farão a cobertura de uma cidade com mais de 500 mil habitantes, mas com população estável ou em queda. Será uma comunidade ainda mais diversa, transformada pelas migrações. E que gerará riqueza majoritariamente via setor de serviços, menos dependente da indústria. 

Haverá mais gente morando longe do Centro e cidades como Pomerode, Gaspar, Indaial e Timbó estarão definitivamente conurbadas ao município. Mas os deslocamentos para o trabalho serão menos frequentes ou encurtados.

— As cidades pagam um preço bastante alto pelo crescimento desordenado, especialmente pela priorização do carro como principal meio de locomoção, somado a outros problemas urbanos. Precisamos reorganizar a cidade, pensando no futuro — almeja o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron.

A Blumenau de 2071 será moldada pelas decisões que a sociedade tomar desde já

Bicicletas, patinetes, pedestres, motos, carros, vans. Mobilidade urbana em debate para as próximas décadas.
Bicicletas, patinetes, pedestres, motos, carros, vans. Mobilidade urbana em debate para as próximas décadas.
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População para de crescer

As estimativas do IBGE indicam que Blumenau tem 366 mil habitantes, 18% a mais que os 309 mil contados no Censo de 2010. Mas o crescimento populacional deve desacelerar nas próximas décadas, seguindo uma tendência nacional dos casais terem menos filhos. 

Em 2071, o total de habitantes deve estabilizar acima das 500 mil pessoas. Talvez até inicie uma descida. Esse processo já começou, observa o economista Nazareno Schmoeller, coordenador do Sistema de Informações Gerenciais e de Apoio à Decisão (Sigad), mantido pela Furb.

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Pelas informações do Ministério da Saúde, o número de nascidos vivos em Blumenau estabilizou em cerca de 4,4 mil anuais desde 2012. Em 2019, último ano com dados disponíveis, a taxa bruta de natalidade por mil habitantes caiu de 12,9 para 12,3. Em 1995 era de 21.

A Secretaria Municipal de Educação já percebeu o fenômeno no Ensino Infantil. A pressão por vagas em creches vem diminuindo. Por outro lado, demandas de serviços públicos para a população idosa tendem a crescer.

O tamanho da população também depende da longevidade e dos ciclos migratórios. Nas últimas décadas, Blumenau recebeu novos moradores de cidades do Nordeste, do Sul e estrangeiros, como a comunidade haitiana. As famílias que fincam raízes e geram descendentes tornam a comunidade mais diversa culturalmente, tendência que em 50 anos deve consolidar-se.

Serviços empregam mais, e perto de casa

A desindustrialização observada no país na última década não poupou Blumenau. Por mais que a economia venha a recuperar-se das sucessivas crises, esse é um processo que seguirá transformando a economia local. 

Segundo a Secretaria da Fazenda de Blumenau, o Imposto Sobre Serviços (ISS) vem progressivamente ocupando parcela mais relevante da arrecadação, aproximando-se do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

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Por um lado, indústrias estão transferindo parte da produção a outros estados, onde a mão de obra é mais barata. Parte do valor agregado a produtos têxteis, por exemplo, já não fica em Blumenau. Esse movimento explica-se também pela localização geográfica e infraestrutura precária do Médio Vale do Itajaí.

Setor de serviços, como a TI, vai ter ainda mais protagonismo na cidade.
Setor de serviços, como a TI, vai ter ainda mais protagonismo na cidade.
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Por outro, novas empresas de tecnologia da informação instaladas na cidade geraram novas receitas em serviços, assim como aquisições de companhias feitas por companhias fundadas aqui.

— Essa transição não está sendo tão dolorosa quanto se imaginava 20 anos atrás — constata o economista Nazareno Schmoeller.

Para ele, a distribuição dos empregos em empresas pequenas e médias é uma fortaleza do Médio Vale do Itajaí, característica que deve ser preservada no futuro. Christian Krambeck, arquiteto e urbanista e diretor do Instituto Furb, braço da universidade que interage com o mercado, alerta para o que considera um risco: criar uma nova dependência de um único segmento econômico.

— Se a gente cair na armadilha de só pensar em TI e inovação, nós estamos mortos. Precisamos revitalizar e reimpulsionar a nossa indústria — analisa.

"Cidade mais compacta"

A pandemia acentuou tendências do mercado de trabalho que devem trazer consequências para a cidade no longo prazo. O secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron, acredita que o trabalho remoto veio para ficar. E, mesmo quem continuará — ou voltará — a trabalhar fora de casa, terá opções de emprego no bairro onde mora, sem precisar ir diariamente ao Centro.

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— O nosso zoneamento já prevê a convivência de áreas residenciais com comerciais e de serviços. A gente trabalha por uma cidade mais compacta, com os centros dos bairros mais desenvolvidos — analisa.

Para Nazareno Schmoeller, a pandemia também indicou a importância de se manter uma cadeia de suprimentos regionalizada, reduzindo a dependência externa de produtos básicos, como alimentos. Se essa tendência concretizar-se, os bairros blumenauenses de 2071 terão hortas comunitárias e mercados locais que os tornem autossuficientes.

Uma cidade chamada Médio Vale

A região metropolitana do Médio Vale do Itajaí, oficializada em lei ou não, estará consolidada em 50 anos. Trabalhadores continuarão a se deslocar entre as cidades, seja para trabalho, estudo ou lazer. Os limites entre os municípios ficarão gradativamente menos perceptíveis, com áreas ociosas sendo ocupadas até que o último bairro de um agregue-se ao primeiro do outro.

— A expansão de Blumenau para o Norte já são favas contadas, a cidade vai se expandir para além dos limites dela — prevê o economista Nazareno Schmoeller.

Região Norte de Blumenau vai consolidar crescimento e provocar mais debates sobre regionalismo.
Região Norte de Blumenau vai consolidar crescimento e provocar mais debates sobre regionalismo.
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Questões urbanas sensíveis, como mobilidade, coleta de lixo, tratamento de esgoto, preservação ambiental e atendimento em saúde terão de ser tratados em conjunto pelos municípios da região, prevê o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron. Ele acredita que a Associação dos Municípios do Vale Europeu (Amve) tem e terá papel decisivo nesse processo.

O arquiteto e urbanista Christian Krambeck está menos seguro de que a região tem dado os passos necessários para integrar-se.

— O corpo técnico está tão focado em apagar incêndios do dia a dia que não tem capacidade de pensar o futuro — avalia.

Ele sugere que a região mantenha uma equipe responsável por monitorar indicadores e estudar saídas para problemas complexos. Todos os ouvidos pela reportagem apontam a regionalização como uma oportunidade de revisar o sistema de transporte público de Blumenau, tornando-o sustentável economicamente.

Faz duas décadas que o Vale do Itajaí aguarda a duplicação da BR-470 até Indaial. As obras devem ficar prontas em cerca de dois anos. O acesso ao Norte pela Via Expressa está em andamento. Com investimentos da prefeitura e do Estado já projetados, o Médio Vale deve ter uma ligação com Guaramim duplicada nos próximos 10 ou 15 anos.

São melhorias de infraestrutura com potencial de transformar grandes áreas ociosas ou ocupadas por pastagens. E atrair indústrias, que hoje procuram outras regiões devido à precariedade das rodovias.

Menos deslocamentos, mais mobilidade

Os desafios de mobilidade, os mais citados pelos cidadãos em debates sobre o planejamento urbano, não serão solucionados de maneira isolada. O município imagina a Blumenau do futuro sob três pilares: redução dos deslocamentos, promoção do uso misto das edificações, com residências e locais de trabalho, e adensamento de vazios urbanos. Uma cidade mais compacta faria as pessoas passarem menos tempo no trânsito, analisa o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron.

Noutra ponta, especialistas e servidores públicos concordam que o transporte coletivo, pedestres e ciclistas precisam ter prioridade sobre os carros nos investimentos em mobilidade.

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— Tem que tirar energia e grana desse uso individual do carro para outros modais. Mas é preciso fazer uma transição, tem que evoluir com o tempo. Não dá para ser irresponsável numa coisa séria como essa. Se o sistema de transporte entrar em colapso, a cidade entra em colapso — alerta o arquiteto e urbanista Christian Krambeck.

Boron valoriza investimentos em calçadas e ciclovias nos bairros, já em linha com o futuro planejado. O objetivo é convencer o blumenauense a não usar o carro em trajetos curtos, próximos de casa. Não parece tarefa fácil, mas do grupo Futuramente em Blumenau vêm bons presságios.

— Embora tenha a turma do “tudo vai dar errado”, a gente sente que o grupo aos poucos vem mudando algumas ideias. No início, quando a gente falava em reduzir os carros, era xingado o tempo todo. Hoje, não — compara o criador do grupo, Ike Ferreira.

Se no passado um novo corredor de ônibus gerava protestos de motoristas e comerciantes, agora investimentos do tipo são bem recebidos. O mesmo ocorreu na Rua Curt Hering, no Centro, em que empresários e proprietários de imóveis apoiaram a recente remoção de 50 vagas de estacionamento para privilegiar pedestres, mesas e cadeiras de restaurantes.

Como seria a cidade do futuro em que você gostaria de viver?

“Menos carros! Mais mobilidade. Isso seria um bom futuro”

Hans Nicolai

“Muitas áreas verdes, árvores de sombra e menos coqueiros, ciclovias contínuas entre ruas e entre bairros, menos brita e mais jardins, mais folhas de árvores no chão. Cada bairro com serviços públicos essenciais, centros culturais, esportivos e profissionalizantes”.

Marion Rupp

“Gostaria que o transporte público fosse de excelente qualidade, que o incentivo aos ciclistas e pedestres fosse levado a sério. Ruas extremamente arborizadas, a rede elétrica é subterrânea, as ciclovias interligam os bairros. Os prédios históricos são conservados, teríamos muitos parques e praças. Os grandes bairros seriam autossuficientes, teríamos anéis rodoviários para se locomover de um bairro ao outro. A cidade “turística” não viraria um deserto nos finais de semana. Muita arte, cultura e respeito à nossa história.

Lu Poffo

Que também se desse mais ênfase à redução da poluição sonora.

Guenter Georg

"Comecemos nós mesmos andando mais de ônibus, parando de tirar as árvores da Rua 7 de Setembro, priorizando os casarões da Alameda. Que sejamos menos hipócritas ao nos compararmos à Europa e vamos valorizar o que temos hoje aqui. Só com o hoje bem estabelecido podemos concretizar os próximos anos!"

Caroline Kowalski

“Mobilidade urbana, buscar alternativas que evitem passar pelo Centro da cidade, abertura de estradas ligando os bairros e nossas cidades vizinhas”.

Roseli Kaestner

"Blumenau precisa voltar a ter um foco, uma prioridade e deixar os profissionais contratados pela prefeitura trabalhar sem influência político-partidária. O planejamento precisa ser constantemente verificado e atualizado, mas precisa ter uma base sólida que seja o seu foco."

Alfredo Lindner Jr.

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