Nildo Nicodemos Frutuoso, o Seu Dico, é uma das figuras mais tradicionais da comunidade da Costa da Lagoa, em Florianópolis. Filho de Rosalina Pereira Frutuoso, a dona Zara, mãe de 21 filhos, o pescador aposentado de 65 anos viu o local se transformar ao longo das décadas, e mantém viva a tradição da pesca artesanal passada de geração em geração desde o bisavô.

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Na Lagoa, seu Dico diz que pesca de tudo: sardinha, camarão, siri, carapeva. Mas que só da pesca já não tem mais como sobreviver. A atividade, que faz parte da identidade da própria capital catarinense, está na vida do morador da Costa da Lagoa desde a adolescência, tempos que eram muito diferentes da atualidade.

— Quando eu tinha meus 20 anos, mais ou menos, eu cheguei a pescar numa manhã 460 quilos de peixe de tarrafa — relembra.

Com o passar dos anos, a população da Costa foi aumentando e, com isso, a concorrência na pesca também cresceu. Hoje, quando o peixe é muito, a quantidade de pescador também é, explica Dico.

As mudanças nos próprios processos também influenciam na maior competitividade. Antigamente, conta o pescador, para uma rede ficar pronta eram necessários meses ou até anos. Agora, basta encomendar e no outro dia chega um equipamento novo e quase pronto para a prática.

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— Todo mundo quer chegar na frente onde tá o peixe, então se diz que é rival, né? Mas a lagoa é pra todos, não é só pra mim. É pra você, pra ele, pro outro pescador, pro meu vizinho, pro meu irmão — afirma Dico.

O ofício da pesca se soma à construção de canoas em miniaturas que vão de três centímetros até 1,5 metro, feitas principalmente para decoração e sob encomenda. A paixão pelas canoas vem de família e remonta a herança de embarcações que seu Dico mantém com carinho, usa para pescar, em competições de vela e guarda no galpão que é da família há gerações.

Veja fotos de moradores da Costa da Lagoa

Alguns dos trabalhos são feitos em garapuvu, árvore tradicional da Costa da Lagoa, mas que é protegida e não pode ser derrubada. Assim, quando alguém, por sorte, encontra alguma espécime já caída e que esteja em condições para uso, seu Dico consegue fazer os artesanatos que expõe em feiras e no Mercado Público de Florianópolis. O trabalho, inclusive, já garantiu a ele o reconhecimento como Mestre da Cultura Popular de Santa Catarina, pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC).

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— Aí eu comecei a fazer miniatura, canoinha pequena, barquinho e apareceu o edital de melhor artesão da ilha. Eu participei e recebi um certificado. Sempre trabalhei pensando que um dia alguém ia olhar pro meu trabalho — conta.

A tradição da pesca artesanal e a paixão pelas canoas atravessa quatro gerações da família, e é eternizada por uma canoa do bisavô do seu Dico. A embarcação centenária, feita de garapuvu, ainda é usada em competições de vela, não mais para a pesca.

— Essa canoa tem mais ou menos 120 anos, foi do meu bisavô, do meu avô, do meu pai e agora tá comigo. Eu comprei ela de volta não pela canoa, mas pela história — aponta.

Seu Dico não revela para qual dos filhos ficará o exemplar único. Outras canoas, sejam elas compradas ou feitas por ele, já deu para os herdeiros. Contudo, reforça a importância do cuidado e da manutenção para que elas não se deteriorem, algo por vezes deixado de lado pelos mais novos. O ensinamento veio do pai e que, faça chuva ou faça sol, não abre mão para que a história continue preservada.

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A carne que só chegava a cavalo

O pescador também relembra as diferenças da vida na comunidade durante a infância, quando não havia água encanada ou eletricidade na região. Ele conta que a mãe, dona Zara, levava duas bacias de roupa até o Casarão da Dona Lóquinha, onde lavava roupa e trazia água para cozinhar.

O fogão a lenha ficava 24 horas aceso e deixava a comida sempre quente. O peixe garantia comida fresca em um dia, e passava pelo processo de secagem para conservação, assim se transformava também no alimento dos dias seguintes. Na região, se plantava feijão, batata e outros cultivos para servir de alimento para as famílias.

— A carne era no Natal, no derradeiro do ano e na Páscoa. Só comia carne nessas épocas. O resto era peixe, camarão. Às vezes vinha lá do Ratones um cavalo com dois surrão cheio de carne. Ele vinha com um caderno. “Tu quer carne pro derradeiro do ano?” Quero dois quilos, o outro quer três, o outro quer um. Ele anotava tudo no caderno e depois vinha entregar — detalha seu Dico.

O transporte era difícil, somente em canoa a remo, o que levava de duas a três horas remando para chegar até a Lagoa. Outra opção eram as trilhas, que não eram tão usadas. O senso de comunidade, porém, era forte, algo que já não é mais o mesmo, segundo o morador.

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A paz de morar na Costa

O sossego de morar em um bairro de difícil acesso, onde todo mundo se conhece, é o que encanta a professora Fabiana Andrade, que trabalha no EBM Costa da Lagoa. Por viver perto da escola, em cinco minutos chega no trabalho. A rota de barco só usa uma vez por semana para fazer compras ou passear, já que a rotina do dia a dia é na própria comunidade, seja fazendo uma caminhada ou se encontrando na casa de familiares. O acesso limitado, para ela, é justamente o que faz o lugar ser especial.

— Eu tenho certeza que essa questão de não ter estrada, porque a gente tem muita paz, né? As crianças brincam à noite, brincam durante o dia, a gente ainda não tem essa questão de violência, de roubo, de droga. Isso ainda não chegou aqui. Espero que não chegue. E também por ser familiar, aqui na verdade são quatro famílias raízes, e aí um vai casando com o outro — conta.

A rotina é parecida com a de Dona Neia, fundadora do restaurante Paraíso da Neia, no ponto 18. Ela conta que pelo menos uma vez por semana pega o barco para ir à Lagoa ou ao Centro, mas que não troca a Costa por outro lugar para morar.

— Eu gosto muito de passear, de viajar, de sair. Durante a semana, se eu não saio um dia pelo menos para ir ao Centro, eu fico doente. Eu gosto de sair, mas para morar em outro bairro, em outro lugar, não — diz.

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Na Costa ela tem tudo que precisa para o dia a dia: vai ao pilates, ao grupo de idoso, faz massagem e se encontra com as amigas.

A professora Fabiana Andrade diz que hoje o local é perfeito, com diversas melhorias comparadas com a época da infância e juventude, como o aumento dos horários de barcos, o táxi náutico e o heliponto para atender em casos de emergências.

— A gente que é daqui tem um carinho pela nossa comunidade, porque a gente nasceu aqui. Essa questão de amorosidade, empatia entre os outros, a gente se acolhe muito no outro. Esse laço familiar é muito bom e faz a diferença — destaca Fabiana.

Novos moradores

A fotógrafa Cristina de Souza não é natural da Costa, mas escolheu o bairro para morar e criar a família. Nas redes sociais, ela compartilha um pouco de como é viver nessa comunidade de difícil acesso e acumula milhares de visualizações.

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A ideia de gravar vídeos sobre a rotina como moradora da Costa da Lagoa surgiu após o questionamento de uma amiga, surpresa com a dinâmica de vida que envolve encaixar horários do transporte de barco e idas à “cidade” para compras e outros compromissos.

Depois de os primeiros conteúdos viralizarem, seguidores começaram a enviar mais perguntas e dúvidas sobre o assunto. Cristina decidiu gravar mais vídeos, em um formato simples, de bate-papo com o público.

Ela relembra que não imaginava que a conta no TikTok cresceria de forma tão rápida. A fotógrafa relata que em um curto período de tempo e com vídeos pouco produzidos conseguiu alcançar 2 milhões e meio de visualizações na rede social.

— Foi muito maior do que eu imaginava que seriam os vídeos. Eu tinha 170 seguidores quando eu compartilhei aquele vídeo e agora eu tô com quase 14,8 mil, então tem sido louco — comenta.

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A rotina com os filhos em meio à natureza tem gerado diversos comentários positivos e curiosos de quem mora na cidade ou até em outros estados e quer saber mais ou conhecer a região. Por outro lado, há quem também faça críticas, que Cristina diz que busca relevar:

— Eu não levo para o pessoal as coisas, eu sei que a internet é uma terra muito louca, mas eu tô achando bem legal.

Cristina é natural do Guarujá (SP) e mora em Santa Catarina desde 2009. Inicialmente, se mudou para Palhoça, depois foi para Florianópolis, em 2014, e passou a morar na Costa da Lagoa em 2017. A escolha pelo bairro com acesso somente por barco ou trilha se deu depois de uma visita especial ao local.

— A primeira vez que eu pisei na Costa da Lagoa foi em 2010. Eu vim fazer um freela de fotografia em um casamento que teve aqui, e quando pisei nesse lugar, eu falei para mim mesma, “eu vou morar aqui um dia” — conta.

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Nesse meio tempo, a fotógrafa formou família e se mudou para o bairro grávida do primeiro filho, que nasceu no hospital, mas cresce em meio às belezas da Costa da Lagoa, assim como a filha, nascida em casa. Sair do local não é uma opção, já que, além de moradia, o bairro é também parte importante do trabalho de Cris.

— Morar aqui complementa o olhar do meu trabalho, porque a minha fotografia é voltada para a naturalidade, para a natureza, para botar o pé na terra, e despertar isso em nós. Então, é a extensão de quem eu sou — destaca.

Entre os pontos positivos, Cristina destaca o convívio com a natureza, o silêncio e a conexão com as memórias de infância, já que a comunidade local é muito próxima e compartilha vínculos. Ainda, destaca a EBM da Costa da Lagoa, onde os filhos estudam e que traz uma proposta de preservar a cultura local.

Entre os pontos negativos, porém, destaca os “perrengues” com deslocamento, com poucos horários de barco para os moradores e uma falta de atenção da gestão municipal com os moradores. Cris afirma que o olhar com a região é sempre voltado ao turismo e, ainda assim, pouco focado na preservação ambiental e cultural do local.

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— Para a gente acessar serviços básicos, como ir e voltar da escola, ir até o posto de saúde e voltar, é coisa de levar três, quatro horas, entre ir e vir. Ou você pega o barco das seis e meia ou nove meia da noite. Então isso é muito custoso para quem mora aqui — pontua.

No entanto, a fotógrafa enxergou na pequena comunidade isolada o local onde a família poderá fincar raízes:

— Todo mundo aqui meio que se conhece, isso pra mim é muito precioso. Fora que eu não sou “manezinha”, mas os meus dois filhos são. Então, aqui eles conseguem ter um contato com a cultura e a preservação do lugar que eles nasceram, e isso pra mim é muito importante — afirma.

Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis

Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia

O especial “Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia” retrata como é viver na comunidade de Florianópolis onde só é possível acessá-la por meio de trilha ou barco. Em uma série com seis reportagens, o leitor poderá conhecer histórias, as curiosidades, a biodiversidade e a rotina de quem vive no canto mais isolado da capital catarinense.

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