Cuidar da saúde nunca pareceu tão caro para muitas famílias brasileiras. Entre a mensalidade do plano, o balcão da farmácia e a coparticipação em exames, o brasileiro vê uma fatia cada vez maior do seu rendimento desaparecer antes mesmo do fim do mês. Em março de 2026, a saúde se firma como um dos setores mais dinâmicos da economia, mas também traz um desafio: o risco de a conta ficar pesada demais para parte da classe média.

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O peso no orçamento: saúde já é uma das maiores despesas

Historicamente, o gasto com saúde no Brasil representa cerca de 8% do consumo familiar total, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para se ter uma ideia da magnitude, esse valor supera, em média, despesas com educação — que giram entre 5% e 6% — e lazer em muitos domicílios. Em Santa Catarina, o consumo potencial de SC sobe para R$ 423 bilhões em 2025, refletindo como as famílias catarinenses precisam gerir cada vez melhor o orçamento.

A evolução dos gastos: remédios ganham protagonismo

Nos últimos anos, a estrutura desse gasto também mudou. Enquanto a participação de serviços privados — como consultas e planos de saúde — apresentou leve oscilação, os medicamentos passaram a ocupar uma parcela maior das despesas.

Dados da Conta-Satélite de Saúde indicam que os remédios responderam por 33,7% das despesas das famílias com saúde em 2021. No mesmo ano, o volume total de gastos no setor cresceu 10,3%, ritmo superior ao da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro naquele período.

Perfil do gasto: a diferença entre as classes

A forma como o brasileiro gasta com saúde varia diretamente conforme a renda da família.

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  • Renda alta: Nessa faixa, a maior parte do orçamento destinado à saúde costuma ir para planos de saúde mais completos, que podem representar até 58% dos custos médicos da família, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE. Especialistas apontam que a “medicina do estilo de vida é essencial para empresas” para tentar conter a escalada desses custos corporativos e familiares.
  • Renda mais baixa (classes D e E): Entre as famílias de menor renda, o peso aparece principalmente no desembolso direto do bolso — o chamado out-of-pocket. O maior impacto costuma vir dos medicamentos de uso contínuo, que muitas vezes precisam ser pagos integralmente pelo consumidor.

Por que os preços não param de subir?

Se a sensação é de que a saúde está cada vez mais cara, diversos fatores ajudam a explicar esse movimento. Dois fatores centrais costumam ser apontados por especialistas para o avanço dos custos médicos acima da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

  • Inflação médica (VCMH): Grande parte das novas tecnologias, próteses e equipamentos hospitalares é importada e cotada em dólar. Quando esses custos sobem, acabam sendo incorporados às despesas hospitalares e podem chegar ao consumidor refletidos nos reajustes dos planos de saúde, regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
  • Transição demográfica: O Brasil também passa por um processo acelerado de envelhecimento da população. Com mais idosos, cresce a demanda por consultas, exames complexos, cirurgias e internações.

O dilema dos medicamentos: o balcão que não aceita descontos

Os medicamentos são hoje um dos principais responsáveis pelo peso da saúde no orçamento das famílias. Mesmo com iniciativas como o programa Farmácia Popular, remédios de alta tecnologia usados no tratamento de doenças crônicas e raras registraram aumentos expressivos.

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Entre os fatores que ajudam a explicar essa alta estão as rupturas nas cadeias logísticas globais e a elevada carga tributária, que no Brasil figura entre as mais altas do mundo para medicamentos.

A economia da saúde: um gigante que move o país

Mesmo pesando no bolso do consumidor, o setor de saúde também é um dos grandes motores da economia brasileira. A chamada economia da saúde envolve uma cadeia ampla de atividades: hospitais, laboratórios, indústrias farmacêuticas e empresas de tecnologia médica.

Segundo o IBGE, o setor responde por cerca de 9,5% do PIB do país. Além disso, está entre os maiores geradores de emprego do Brasil, desde profissionais da limpeza hospitalar até engenheiros biomédicos que desenvolvem equipamentos de alta complexidade.

Você sabia?

Embora o Brasil possua o Sistema Único de Saúde (SUS) — um dos maiores sistemas universais do mundo —, uma parcela significativa do gasto com saúde no país ainda vem do setor privado.

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Levantamento do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) indica que quase 60% de todo o gasto com saúde no Brasil era privado. Dados mais recentes do Portal da Transparência mostram que o país ampliou os gastos públicos em 2024. De acordo com o Tesouro Nacional, o Brasil ampliou gastos em Saúde, Habitação e Educação em 2024, subindo a despesa do setor de 4,72% para 5,03% do PIB.

Tecnologia como aliada ou mais um custo?

A telemedicina e o uso de inteligência artificial em diagnósticos prometem tornar o sistema de saúde mais eficiente no longo prazo. No curto prazo, porém, a adoção dessas tecnologias exige investimentos elevados em infraestrutura, despesas que tendem a ser incorporadas à estrutura de custos do setor.

A dúvida que permanece é se, até 2027, a tecnologia conseguirá ajudar a frear a escalada dos custos da saúde — ou se acabará se tornando somente mais um fator de pressão sobre o bolso do consumidor.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.